As normas

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Ouço de novo a frase tão conhecida: “As normas não permitem”. Ou então, aqui e ali, entram as variantes. Isso é da norma interna. Vai contra as normas.

Porém, custei a descobrir quem, afinal, são as Normas.

Uma olhada no departamento de RH torna o mistério ainda mais profundo. Há Claudetes, Patrícias, Marias, Carolinas, Ivaneides. Há até uma Creonice, mas Norma, nenhuma. Como é que essas mulheres conseguem tanto poder em tantas empresas se não há nenhum registro sobre elas?

Até que um empresário concordou em abrir o jogo, desde que eu mantivesse seu nome no anonimato. As Normas têm um sistema de lealdade e intimidação mais forte que as máfias italiana e japonesa.

O casarão que resistiu à especulação imobiliária no centro da cidade não chama atenção. Os jardins são bem cuidados, mas sem nada de especial. A garagem fica nos fundos, permitindo que pessoas entrem e saiam sem serem notadas.
Dentro do casarão, Norma Carvalho, a mais idosa, faz seu tricô, só parando para tomar um chazinho e definir os rumos do RH das grandes empresas. Ao seu lado, Norma Siqueira fiscaliza a sala com olhos de águia, pronta para detectar o mínimo deslocamento de uma almofada, ou a inclinação de um quadro. Ana Norma Souza, chamada de Norminha por causa de seus quarenta e tantos anos, de vez em quando desvia os olhos dos programas de marketing que desenvolve e fica pensando no Díaz, um senhor argentino distinto que conhecera em um cruzeiro no ano passado. As outras duas Normas sacodem a cabeça, reprovando.

Em um dia comum, elas recebem altos diretores de grandes conglomerados, e também donos de pequenos negócios. Norma Siqueira os conduz à sala, manda servir os biscoitinhos de araruta e o bolo de fubá, olha uma foto sobre a lareira, acha que ele está muito de lado, ajeita-a milimetricamente antes de sentar em sua poltrona.

O problema daquele empresário era a motivação dos funcionários.

– Hmpf.

Era Norma Carvalho que emitia sua opinião, sem tirar os olhos do tricô. O que ela queria dizer é que esse problema parecia estar presente em todas as empresas, e que as Normas já estavam cansadas de tratar daquele assunto. O empresário entendeu tudo. Todos os empresários sabem o que significa cada grunhido e murmúrio da Velha Norma. Porém, nem ela nem nenhuma Norma podem obrigar o funcionário a trabalhar contente e motivado toda manhã.

– Vamos implantar um plano de incentivos – informa Norma Siqueira.

– Mas nós já implantamos ano passado, e a senhora mandou suspendê-lo porque os vendedores estavam ganhando demais…

O empresário imediatamente arrepende-se do que falara, ao sentir o olhar gelado da Norma Carvalho sobre ele. Não se discute com as Normas, nunca. Norma é para ser respeitada, mesmo quando está errada. Ele pede desculpas rapidamente.

– Como eu disse, vamos implantar um plano de incentivos diferente. Mais alguma coisa?

– N-não, obrigado…

– Você receberá o plano em poucos dias – com essas palavras, Norma Siqueira chama seu misto de leão-de-chácara e mordomo.

O empregado, que só se refere a Arnold Schwarzenegger como “aquele tampinha”, acompanha o empresário até a saída. Quando o visitante está entrando no carro, sente o dedo mindinho do mordomo sobre sua mão inteira – e um pouco do braço – seguido pelo conselho:

– É melhor obedecer as Normas.

Dentro do casarão, as Normas discutem a integração das estratégias da Internet com os outros setores das empresas. Apesar do que se diz, o mundo virtual nunca esteve fora do alcance das Normas. Apenas elas estão mais atuantes agora.

– Precisamos arranjar um meio de documentar as transações nas empresas vocês sabem, recibos, assinaturas, dezenas de carimbos…

– Hm – concordou a Velha Norma.

– Alguma idéia, Norminha?

Mas Norminha tem o olhar perdido e suspira. As outras Normas sacodem a cabeça. O que se pode fazer?

3 MANEIRAS DE VER SE AS NORMAS PRESTAM CONSULTORIA EM SUA EMPRESA

1 – Você tem direito à criatividade e ao erro? As Normas não permitem que ninguém saia do “script” preparado por elas.

2 – As decisões de sua empresa são simplesmente informadas aos funcionários ou há discussões, escuta-se opiniões e sugestões? As Normas não discutem, apenas informam e mandam.

3 – Quando foi a última vez que uma idéia de um simples funcionário (de gerente para baixo) foi implantada? As Normas só permitem isso quando a ação as beneficia, criando mais mecanismos de controle ou burocracia desnecessária, por exemplo.

Brasílio Andarade Neto é redator.
E-mail brasilio@editoraquantum.com.br

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