Crise, propaganda, super-heróis e festas

Não vou perder meu tempo falando de crise, mercado parado, cliente mal humorado, emprego mal remunerado, dólar subindo, eleições e coisas afins. Neste dias tão obscuros que estamos vivendo, vale mais a pena apelar ao bom humor, recorrendo aos casos de bastidores que chegam ao ouvido da gente por quem se menos imagina. Não vou perder meu tempo falando de crise, mercado parado, cliente mal humorado, emprego mal remunerado, dólar subindo, eleições e coisas afins. Neste dias tão obscuros que estamos vivendo, quando o máximo que se vê à frente é neblina, vale mais a pena apelar ao bom humor, recorrendo aos casos de bastidores que chegam ao ouvido da gente por quem se menos imagina.

Este aconteceu recentemente, em São Paulo, durante a festa de lançamento de uma grande campanha. Quem não viu uma dessas ainda, deve saber que festas de lançamento de campanha são uma loucura, ainda mais quando a empresa anunciante é uma multinacional rasgando dinheiro. As coisas mais insólitas costumam acontecer nestes eventos, cada vez mais raros, onde o bem servido whisky 12 anos vai aos poucos perdendo terreno para o vinho alemão barato, que impressiona mais pelo azul da garrafa do que pelo que tem dentro.

E lá estavam reunidos todos os níveis gerenciais da grande empresa de comunicações, agência, fornecedores, parentes dos diretores e alguns penetras. Muita música, muita bebida, garçons levando bandejas cheias de comida e bebida, que voltavam lotadas de copos pela metade, guardanapos com marca de batom, cinzeiros ostentando alguma marca célebre de havana entre outras baratas de cigarro e outras quinquilharias que formam o repertório de dejetos de um rega-bofe. Todo mundo devidamente presenteado, já com baixas doses de sangue circulando na corrente alcóolica, quando de repente a música pára.

Junto com ela, todos os canhões que disparavam lasers das mais variadas formas e matizes. Um único foco de luz iluminava o palco, onde já se perfilavam o presidente, diretores de marketing e publicitários entre outros desqualificados. De bochechas vermelhas, o presidente pega o microfone, dá as famosas batidinhas para testar se está ligado, olha para os lados, sorri e começa o disrcurso. Na pista, todos os funcionários, fornecedores, agregados e penetras demonstram o mais profundo interesse. Alguns cochicham, outros fazem gracejos.

Mais ao fundo, um grupo exibe impressas as fotos da festa de universidade primeira linha da cidade, onde alguns sujeitos, bem ou mal intencionados, instalaram câmeras em algumas barracas destinadas digamos, ao mais sublime dos atos que podem ocorrer entre um homem e uma mulher, vulgarmente e injustamente chamado de trepada. Tudo devidamente organizado pelo diretório acadêmico, com direito à cadeira erótica etudo mais. – Ei, eu conheço essa mina! Ela é amiga de minha irmã! E essa outra também! Peraí… essa é minha irmã!!!- SHHHHHHH! – fez coro o cordão de puxa-sacos.

Silêncio total agora, voltemos ao palco e às batidinhas do presidente no microfone. Começava ele a apresentação da campanha, mostrando os VTs que seriam veiculados. O grande apelo da campanha era o super-herói, trajado com as cores da companhia, que sempre surgia livrando os fracos e oprimidos da exploração e confusões aprontadas pelas empresas concorrentes. Novos planos de descontos para interurbanos, ligações internacionais, horários econômicos para as chamadas também eram anunciados no mix da nova campanha. A cada novo comercial exibido, uma saraivada de “ohhs!”. Na sequência, muitas palmas. Uma superprodução, provavelmente dirigida por Spielberg e finalizada por George Lucas.

Finda a apresentação dos comerciais, o presidente toma a palavra novamente e chama a atenção de todos para a grande surpresa da noite. Um som ensurdecedor acompanhado de luzes piscando freneticamente criam a perturbação ideal para que todos pressentissem que algo grandioso iria acontecer. E eis que surge a figura do super-herói em carne e osso sobre o palco, para delírio das moçoilas e desprezo invejoso dos rapazes. Barriga talhada e peito estufado sobre a roupa colante, aliados ao ar blasé de todos os super-heróis completavam a cena. E inicia a apresentação:

– Meu nome é fulano, sou ator profissional, já trabalhei em teatro, novelas etc etc etc. Era o grande herói falando sobre sua carreira, do alto de seus um e oitenta e poucos de altura. Seria uma grande efeméride não fosse por um detalhe. Alguém na platéia embebedada havia cismado que o ator na verdade, estava mais para mulher-maravilha do que para super-homem. Palmas, palmas, gritos, assovios estridentes rasgavam o ar. Mais uma vez o querido presidente toma a palavra, se despede do pessoal e diz que o herói vai responder algumas perguntas do pessoal da empresa e de seus agregados. Pensando que viriam perguntas sobre kriptonita, grandes vilões da humanidade e maiores aventuras, passou a palavra para a platéia. Um pobre homem já alegrinho de tanto whisky e que fazia a alegria de uma das turmas, na tentativa de roubar a cena mais uma vez, levanta a mão a dispara impiedosamente:

– Ei, amigão! Para ligar de Pelotas para Campinas tem algum desconto?
E conseguiu. O ambiente ruiu. Garçons derrubavam bandejas, coxinhas e empadinhas voavam, convidados rolavam pelo chão às gargalhadas, sobre o atônito olhar de um presidente que questionava se havia feito bom negócio em passar a palavra para a platéia. Um infarto fulminante seria um grande golpe de sorte naquele instante, mas Deus não atendeu o seu pedido.

O DJ da festa, o único com presença de espírito naquele dia, rapidamente soltou o som e acionou as luzes alucinantes. No dia seguinte a campanha foi para o ar. E o bêbado, para a rua.

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