Folhetim

Poucas empresas falam de relacionamento e gestão de clientes. Quase nenhuma pratica

Toda vez que ouço o “Folhetim” de Chico Buarque, lembro-me das empresas que dizem “sim” a tudo e a todos, focadas apenas na conquista de novos clientes.

“E se tivermos renda”, todas vão nos chamar, até conseguirem a nossa “prenda”. Mas na manhã seguinte aonde vão todas elas? Em busca de novos amores para ilustrarem o folhetim das metas comerciais.

Poucas falam de relacionamento e gestão de clientes. Quase nenhuma pratica.

Outro dia, entrando em uma quitanda de bairro, perto de casa, fui surpreendido por um “bom dia” seguido do meu nome. Ouvir uma saudação já nos surpreende e quando ela é finalizada com o nosso nome, aí entregamos o cartão de crédito, de imediato.

Além desse começo sedutor, Mariana, a vendedora estava disposta a me ganhar pelo coração.

“Faz tempo que não o vejo por aqui. Estava viajando?” Que deliciosa sondagem para avaliação de ausência…

Apressei-me a justificar, quase que pedindo desculpas pela ausência. “Realmente, estive fora da cidade e voltei nessa semana. Minha geladeira está vazia”.

“Continua fazendo regime?”, resgatou ela com foco total em minhas necessidades.

“Sempre”, respondo eu.

“Então vou lhe mostrar as limas da pérsia que recebemos. O senhor precisa prová-las. Veja, toque, sinta o aroma. E que sabor…” Aqui, ela se superou na sensibilização neurolinguística e em menos de dois minutos, lá estava eu, em público, provando uma fruta que mal conhecia, mas que já queria comprar.

– “O senhor percebeu que estamos com uma ala nova dedicada a produtos orgânicos?”

– “Pois é, vi sim e achei linda a seção. Até me animei a conhecer um pouco mais dos produtos que são feios, pequenos e caros…”

– “Mas seu Fernando, as aparências enganam e precisamos ter a sabedoria e a paciência para conhecermos as coisas por dentro”.

Decididamente, a Mariana estava em seus dias de glória e decidida a me cativar.

Sai do mercado com sacolas de lima da pérsia que consumiram boa parte do meu dinheiro e trouxe alguns pepinos e rabanetes que de tão pequenos, se perderam no fundo dos pacotes. Vou tentar conhecê-los em casa.

Sai feliz da vida do mercado, com a sensação de que alguém cuida de mim.

O “Folhetim” do Chico nos alerta às marcas oportunistas que querem apenas o nosso dinheiro, Alguns anos antes, ele compôs “Tatuagem” canção que nos lembra da importância das marcas que “ficam em nosso corpo” e nos dão coragem, para seguirmos a viagem pelos caminhos nem sempre iluminados do Mercado.

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