Meire Ferreira Pinto, idealizadora da Barbearia Clube, fala sobre serviços

VendaMais – Como você teve a ideia de fazer a barbearia?

Meire Ferreira Pinto –Trabalhei numa distribuidora de cosméticos (Belpar) durante 20 anos e lá eu tinha acesso a muitas pesquisas de mercado do público masculino, principalmente quando começaram a surgir novos produtos e linhas voltadas para o público masculino. Então, notei um buracão de mercado para ser trabalhado. Peguei uma agência de comunicação e comecei a estudar o que tinha no Brasil, o que tinha fora, o que poderia retornar nessa coisa de barbeiro – porque o salão feminino não absorve os produtos masculinos. E nesse estudo me encantei pelo negócio, vi uma grande possibilidade e, em 2007, resolvi sair da distribuidora e abrir a barbearia. Tudo o que a gente fez na pesquisa acabou se confirmando no trabalho depois. Tanto que temos bastante sucesso. Já abrimos uma segunda casa ano passado e, neste ano, outra em São José dos Pinhais (cidade vizinha de Curitiba). Tenho pedidos de franquia toda semana. A gente está, até mesmo, preparando-se para isso.

Como foi criar o conceito da loja?

Foi em cima do estudo da agência mesmo: que homem não gosta de frescura, não gosta de barulho, não gosta de cheiro, que ele gosta dessa coisa rétro, gosta do contato com o barbeiro, etc. A história do barbeiro, aliás, é muito legal. Se você pegar no surgimento, o barbeiro era dentista, médico, advogado. A gente retomou esse profissional no mercado, porque ele é diferente daquele de salão feminino – é bem difícil de achar. Retomamos o conceito de fazer a barba com navalha. O homem faz a barba todo dia, por anos, e se incomoda com isso. Então, resolvemos puxar esse conceito mais antigo de fazer a barba com navalha para o mercado novamente. Eu recebo e-mails de barbeiros do Pará, do Espírito Santo, do Brasil inteiro dizendo: “Que legal, que bacana, tinham esquecido do barbeiro”. Eles estão sentindo-se valorizados.

Esse conceito você já tinha encontrado em outro país?

Há barbearias no mundo inteiro. Na Alemanha, há uma rede de barbearias que fica nos aeroportos, que é um contêiner e dentro eles montaram uma microbarbearia. Nos Estados Unidos, existem várias, há laboratórios enormes específicos para área masculina, como o The Art of Shaving – há um site bem legal só para barba lá também, então tudo isso a gente foi pesquisando. Aqui, no Brasil, temos as barbearias antigas que resistiram ao tempo e alguns salões femininos que têm espaço masculino, mas não é a mesma coisa. O homem meio que se sente usando um pedacinho disso. Ele não quer um espacinho, ele quer ter o pedaço dele. E não tem nada melhor que tomar uma cerveja, assistir a um jogo, pegar revistas e ficar lendo enquanto faz o serviço. A gente criou um ambiente bem masculino, bem com a cara dos clientes.

Você já trabalhou na área de estética?

Na distribuidora, eu tinha contato tanto com as fábricas como com o mercado em geral (supermercados, farmácias, salões e lojas de cosméticos). Por isso, conheço esse mercado há bastante tempo.

Mas com o cliente final é a primeira vez?

Sim, ter um estabelecimento é a primeira vez.

E o que você está achando da receptividade dos clientes?

Nossa, é maravilhoso trabalhar com homem, muito melhor que com mulher. O que ele não gosta fala na hora, dá sugestões, responde e-mails, gosta das comunicações. É bastante diferente do mercado feminino. E a gente foi aprendendo a lidar com esse público em relação aos serviços: o fazer faxina na pele, que é como a gente chama a limpeza, fazer retirada de pelos, que é a depilação. Isso é uma tendência fabulosa. O que eles fazem de depilação não é brincadeira! Até a pedido das mulheres. Além disso, temos o atendimento a pacotes de serviço (como os salões fazem com o Dia da Noiva). A gente podia chamar de Dia do Noivo, mas resolvemos chamar de Dia do Rei, porque não é usado só no casamento, as empresas usam para dar de presente, as noivas e as esposas presenteiam no dia dos pais, dos namorados. O bacana é que a comunicação que a gente criou foi mais uma comunicação de brincadeira, despojada, para evitar o vulgar e que pensem que aqui é uma casa de mulheres. E a mulherada gostou. A maioria das pessoas que compram pacotes é mulheres e empresas. Além disso, os noivos têm curtido bastante, eles vêm com os padrinhos e amigos e não ficam mais angustiados naquelas horas antes do casamento. Porque geralmente as famílias recebem um monte de parentes nessa data e o noivo fica na função de levar e buscar e não tem um tempo pra ele. Eles vêm para a barbearia com os amigos e fazem uma farra. Ficam aqui, tomam banho, se trocam, etc. O noivo sai pronto. É muito gostoso trabalhar com esse público. É simples, mas tem suas especificidades. Bem gostoso de trabalhar. E o mais legal é que, quando você vai num barbeiro, a pessoa fica 30 anos como cliente do mesmo lugar. A vida inteira vai lá. E isso vai acontecer conosco. Tem pais trazendo filhos, e essa molecada vai ficar a vida inteira com a gente. Os homens se atêm ao serviço, se a gente não fizer um bom atendimento, esqueça.

Como é a reação dos homens em relação aos serviços que, geralmente, são voltados para o público feminino? Eles experimentam novidades ou a maioria ainda fica com os clássicos: barba, cabelo e bigode?

Na realidade, eles fazem primeiro a barba, o cabelo e ficam observando. Perguntam para o barbeiro: “Como é a manicure? O que é podologia?”. Muitos nem sabem o que é isso. E 95% deles precisam de podologia porque estão sempre com calçados fechados e ficam com micose, unha encravada. Já a limpeza de pele é um termo que eles entendem mais como feminino: faxina de pele é melhor aceita. O curioso é que eu fiz duas ou três vezes limpeza de pele na minha vida. E temos clientes que fazem todos os meses ou a cada 15 dias. A questão é que eles têm o poro mais aberto que o nosso, então realmente fica mais impurezas na pele. É uma necessidade, e não questão de estética. Antes eles faziam em clínica, não num salão – mas, mesmo assim, não se sentiam à vontade. Aqui, eles têm as caminhas separadas, não ficam expostos, ficam tomando a cerveja. A parte da retirada de pelos do nariz e da orelha a maioria faz. O barbeiro corta ou eles tiram com cera para durar mais. Quando é verão ou próximo de feriado, eles vêm fazer peito, costas, até mesmo depilação íntima, a pedido das mulheres. Elas vêm junto, ficam com eles para evitar qualquer tipo de comentário errado e para amenizar o sofrimento. Como eles têm o pelo sete vezes mais grosso e cinco vezes mais profundo, realmente é dolorido. Mas aí tomam água, bebem uísque ou cerveja e vai. Demora, mas vai. Quem faz a primeira vez fica cliente devido à higiene e o frescor. Apesar da dor, eles voltam.

E quanto à cerveja e petiscos, como é que é isso?

A cerveja é uma parceria com a Heineken. Nós apresentamos o projeto para eles e acharam maravilhoso. Gostaram da ideia de ver a marca associada à barbearia. Eles entenderam como um bom local para divulgação da marca. Lá fora, eles têm essa imagem de macho sem frescura. Então, eles nos deram enxoval de bar, geladeira, bolachinha, balinha, copos, etc. Até mesmo ganharam um campeonato mundial por projeto de parceria mais inusitado. Isso é bacana pra gente também.

E não sai muito caro isso?

Eles deram o mobiliário e eu compro a cerveja. Não é caro, porque tem muito mais valor dar uma cerveja de brinde que dar desconto de R$3,00 ou R$5,00, que seria 10% do que o cliente gasta. Esse valor não representa tanto pra ele, mas a cerveja ser cortesia da casa é o máximo e cria um ambiente muito legal. Eles normalmente vêm aqui na sexta-feira à noite ou no sábado no fim da tarde: aí eles gostam de abrir a geladeira de cerveja, de se servir, de pegar o amendoim, os docinhos de mercearia – tem que ter paçoquinha, bala de canela e tudo mais. Se não tiver, eles reclamam!

Vocês têm alguma parceria com outra empresa?

Não, só com eles. Mas aí os clientes acabam querendo fazer parceria. Nós temos alguns convênios corporativos que as empresas foram pedindo. Tem com a OAB, Bamerindus, HSBC, Bematech, Calibratech, Volvo, Esso, etc. Mas tudo foi acontecendo, nós não chegamos a ir atrás, eles vieram e perguntaram sobre convênio. Nós damos desconto e em troca fazem divulgação na empresa, mandam newsletter para o mailling deles, fazem parcerias em eventos.

Como funciona a parceria em eventos?

Eles chamam a barbearia para fazer barba e massagem no pessoal quando promovem algum evento. Porque não tem tanto entretenimento para homens, então as empresas estão achando um barato e os homens também gostam. Nós montamos uma pequena barbearia, levamos mobiliário para compor o ambiente e atendemos lá. 

Como é vender o serviço da barbearia?

Para empresa, em evento, é uma coisa bem diferente. Quando a gente vai aos RHs e fala que está disponível, eles acham o máximo. Os clientes que participam de eventos também acham o máximo. E, para vender ao público em geral, usamos a comunicação despojada, estas frases de gozação, tudo em clima de brincadeira, o que chama atenção. As mulheres, que são mais curiosas que os homens, também adoram. Além da estratégia de comunicação despojada, divulgamos via e-mail, newsletter, site – nosso site é muito visitado! Tem até visita de pessoas da Ungria, da Alemanha. O francês, por exemplo, é um povo que gosta muito de clube fechado. Tem um cliente nosso que é de lá e que o pessoal já perguntou o que era o “Clube da Barbearia” ou a “Barbearia Clube”. Então, eles têm essa curiosidade. É bacana que está evoluindo muito a divulgação pela internet, pesquisas no Google. De sexta-feira pra segunda-feira, eu recebo muitos e-mails elogiando ou então perguntando sobre franquias.

Como foi entrar para o mercado de franquias, como vocês fazem a seleção dos franqueados e quais os planos para o futuro?

Quando a gente abriu, não havia essa intenção, mas a procura foi tanta que acabamos fazendo. Peguei um advogado e montamos um esquema com a agência de comunicação. Então, quando compra a franquia, compra o pacote de comunicação externa e interna. No ano passado, um cliente nosso queria muito abrir franquia e montamos no Centro Cívico (bairro de Curitiba). Neste ano, abrimos em São José dos Pinhais, também com um cliente nosso. O meu interesse agora é abrir em São Paulo e Rio de Janeiro, que a visibilidade seria muito maior. Acho que para os próximos dois anos ficaríamos só com isso para firmar bem a marca, firmar bem o pé, manter o conceito do negócio, manter o padrão de atendimento. Porque não é fácil manter a qualidade nos serviços, não é um produto. É complicado segurar o padrão, pois sempre tem aquele que diz: “Eu faço assim, eu uso tal produto”. Mas não pode, tem que ter um padrão.

Vocês fazem treinamentos?

Sim, antes de abrir a casa tem treinamento com a gente e, depois, fazemos reciclagem e a convenção com todo mundo que trabalha. A verdade é que, se “pipocar” muito em número de estabelecimentos, você não consegue manter a qualidade, a não ser que contrate uma consultoria master para fazer isso. Mas aí precisa de uma unidade mais forte em São Paulo e no Rio.

Agora mudando um pouco de assunto. Qual é o perfil do cabeleireiro que vocês contratam, ele é oriundo de salão de beleza ou não?

É barbeiro mesmo, de formação – ele é diferente do profissional de salão, tem uma postura diferente e um contato diferente. Ele não gosta de trabalhar com corte feminino, não gosta de frufru. Ele gosta de trabalhar com o masculino, porque no feminino você fica uma hora com a pessoa. No masculino não, ele faz entre 20 e 25 minutos cada atendimento. O número de clientes que eles atendem é maior porque o foco é no corte. Hoje, temos dois profissionais na Barbearia Clube das Mercês. Tem o mais antigo da casa, o Wanderley, que começou comigo, e tem um barbeiro novinho, de 24 anos, que é um espetáculo, adora fazer barba decorada. Por serem homens, eles sabem qual é o melhor produto para usar, não deixam o cliente sair ridículo do salão só para empurrar um produto. Pelo contrário, eles têm prazer em atender bem. A confiança, o elo e a ligação do cliente com o barbeiro é muito maior que em um salão.

E para encontrar esse profissional no mercado?

No começo foi muito complicado. Consegui só um, e esse foi buscando colegas e profissionais. Agora não, as pessoas buscam a casa e querem trabalhar conosco. Mas, no início, não. A verdade é que existem poucos profissionais no mercado. E é difícil transformar um cabeleireiro em um barbeiro. Eles trabalham com navalhete, que é muito cortante, muito afiada. Precisa ter muita maleabilidade e leveza. O cabeleireiro está mais acostumado com produção, com a rapidez nas mãos, tem que vender produtos, tratamentos, ampolas. É outro profissional. Aqui ele está preocupado com o cabelo e a barba do cliente.

Como você faz para se atualizar aqui na barbearia?

Eu tenho a ajuda de uma agência.

Que agência é esta?

Cs Revue, de Curitiba. Eu já conhecia o trabalho deles da época da distribuidora e continuamos. Eles conhecem o mercado há muito tempo e têm uma equipe que fica buscando novidades. Nosso blog é muito legal – eu não sei como eles acham tanta coisa para colocar lá. Encontraram um batom da Heineken com gosto de cerveja, um campeonato de barba na Irlanda… Toda semana eles vão mudando. É um compromisso deles, meu e com meus profissionais também, de estar antenados com as tendências de mercado.

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