Nada impede um ícone de nascer

Imagine a seguinte situação: uma menina foi fruto de um casamento entre adolescentes. Nasceu negra em um país racista, no início do século XX, quando sua mãe tinha 13 anos de idade e seu pai 15. Começou a trabalhar quando tinha seis anos, foi estuprada quando ainda era uma criança de dez anos, tornou-se lavadeira para se sustentar aos doze e, um ano mais tarde, era prostituta em Nova Iorque. Seus pais já haviam se separado, e ela foi presa. Imagine a seguinte situação: uma menina foi fruto de um casamento entre adolescentes. Nasceu negra em um país racista, no início do século XX, quando sua mãe tinha 13 anos de idade e seu pai 15. Começou a trabalhar quando tinha seis anos, foi estuprada quando ainda era uma criança de dez anos, tornou-se lavadeira para se sustentar aos doze e, um ano mais tarde, era prostituta em Nova Iorque. Seus pais já haviam se separado, e ela foi presa.

Muito chão para alguém tão jovem, você poderia dizer. E o fim dessa história vai se delineando. Mais violência, mais prisões e mais sofrimento, tendo como conseqüência uma morte prematura. Não que não seja o caso. Mas foi menos prematuro do que se pode esperar.

Eleanora Fagan Gough ? a menina ? casou-se três vezes, sem sucesso algum, envolveu-se com drogas, voltou a ser presa depois de adulta, fez tratamentos e tentou, inutilmente, se livrar da dependência química que a perseguia. Essa mesma Eleanora Fagan Gough, começou a se interessar por música ainda na adolescência ? apreciava o jazz, para ser mais exato. Quando saiu da cadeia, foi buscar emprego como dançarina em uma lanchonete. Mas só dançar não bastava, o dono da casa precisava de alguém que cantasse ao vivo para os freqüentadores. E ela cantou. Com uma voz tão linda e com tal intensidade dramática que o contrato ocorreu logo após o fim da canção.

Alguns anos depois, a garota voltou a impressionar. Dessa vez foi um produtor musical chamado John Hammond que se sentiu tocado por aquela forte voz de veludo. Foi aí que a cantora começou a ganhar visibilidade. Viajou pelo país inteiro, gravou um disco, fez parte da Big Band, se apresentou ao lado de Duke Ellington, fez pontas em filmes de Hollywood e seguiu carreira. Conheceu dois grandes músicos dos Estados Unidos, Lester Young e Benny Goodman. Estabeleceu parcerias com eles e fez mais de cinqüenta músicas em um intervalo de quatro anos. Realizou turnês internacionais, rodou pela Europa e influenciou a vida e a obra de Frank Sinatra, como ele mesmo veio a lembrar depois.

Eleanora ou Billie Holliday, como ficou conhecida no meio artístico, morreu no dia 17 de junho de 1959, aos 44 anos, em uma clínica de reabilitação para drogados, depois de ter sido presa durante sua última turnê pela Europa. Só depois de sua morte é que a cantora tornou-se realmente conhecida e respeitada em todo o mundo.

Quantos de nós vivemos assim? Mais reagindo aos fatos do que agindo em nosso próprio benefício? Billie Holliday é vista como um fenômeno. Sinatra a considerava inigualável, expressiva, pois poucas artistas demonstravam tamanha intimidade com as canções. Billie costumava dizer que se um artista copia a postura de outro no palco é porque não está sentindo a música fluir e, se consegue cantar da mesma maneira em ocasiões diferentes, estará fazendo qualquer coisa, menos música.

Foi essa paixão e essa seriedade com o resultado do trabalho que transformaram Billie Holliday em um ícone do jazz. Isso prova, mais uma vez, que não importa em quais dificuldades viva um ser humano, ele pode se superar, dar o melhor de si e deixar seu nome ? ou pseudônimo ? gravado na história.

?Cada criatura, ao nascer, traz-nos a mensagem de que Deus ainda não perdeu a esperança nos homens? Rabindranath Tagore

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