O meu Everest

Um dia me preparei para a viagem mais impressionante de minha vida. Acabei realizando um sonho no teto do mundo. Um dia me preparei para a viagem mais impressionante de minha vida. Acabei realizando um sonho no teto do mundo.

Não sou trekker militante, não sou montanhista, muito menos praticante adepto de esportes radicais. Sou apenas um executivo de uma multinacional que decidiu experimentar algo novo: um desafio físico e mental completamente fora dos padrões a que estou acostumado. Deu certo. E um pouco do que acho importante, está aqui. O que aprendi? Que nada resiste a um passo de cada vez. Pequeno, devagar, mas constante e sistemático. E que existem outros planetas dentro do planeta terra. O Nepal é um deles…

Executivo de uma grande empresa global. Sedentário. Casado, com filhos. Estressado. Era esse o meu perfil em abril de 2000, quando resolvi que partiria atrás de um sonho antigo: chegar até o Campo Base do Everest, passando por altitudes de até 5700 metros, na cordilheira do Himalaia, no Nepal.

Minha experiência com caminhadas na ocasião? Nenhuma. Com altitudes? Apenas em Bariloche, por volta dos 3000 metros. Mas resolvi que ia e fui. Coloquei como objetivo viajar em abril de 2001. Assim, eu teria um ano para me preparar. E descobri que, utilizando quatro ?cês?, eu poderia ter sucesso.

O primeiro ?cê?

O primeiro ?cê? era o CONHECIMENTO: eu estava diante de um desafio inédito. Diferente de tudo o que até então eu conhecia, precisando reduzir a ansiedade e os riscos. Eu tinha de entender o que me esperava e como fazer para superar obstáculos que simplesmente desconhecia. A primeira atitude foi recolher o maior número de informações disponível.

Li e assisti a tudo o que pude sobre o Everest e as altas montanhas. Comecei a entender melhor os perigos do mal da altitude, que podem provocar até a morte por edema pulmonar ou cerebral. Logo descobri também que os dados que eu recolhia eram somente aquilo que era possível ser codificado. O que estava implícito, impossível de traduzir em palavras, não cabia num livro nem num filme. Passei então a contatar pessoas que fizeram a viagem, convidando-as para uma pizza acompanhada de fotos e de relatos da experiência vivida. Eu procurava o conhecimento oculto que, conforme os especialistas, equivale a 70% do que é possível adquirir.

Assim, fui me tornando, teoricamente um expert em Everest. Comprei a viagem de uma empresa especializada em levar ?turistas? até o Campo Base. Fiz minha lição de casa e preparei-me fisicamente. Fui ao Itatiaia e escalei o pico das Agulhas Negras, meu primeiro cume! A 2700 metros. No Nepal, eu chegaria a 5700. A essa altura do campeonato, estava seguro do que teria de fazer para enfrentar a viagem.

Parti, então, para uma aventura de 15 dias e 200 quilômetros entre as montanhas mais altas do mundo. Com um frio na barriga e sob os olhares de admiração e preocupação de amigos e familiares.

O segundo ?cê?

Foi assim que descobri o segundo ?cê? do Everest: CRIATIVIDADE. Como enfrentar um mundo novo? Uma situação em que meu corpo reagiria de forma diferente de tudo o que eu conhecia?

Eu era o único brasileiro entre americanos, no meio de um monte de xerpas, sentindo-me um alienígena. Ia usar banheiros onde não existia banheiros. Ia dormir num saco sob temperaturas abaixo de zero. Ia comer comidas estranhas. Ia obedecer a um líder desconhecido numa situação inusitada. Adotei o pensamento criativo em vez do critico. Fiz a trilha inspirado, reconhecendo os problemas como parte do desafio.

Comi o pão que o diabo amassou, mas, cada vez que eu olhava para o alto, o pão virava um pudim feito pela minha mãe. Eu estava no Himalaia. De frente para o Everest! Era um lugar com paisagens tão deslumbrantes e um povo tão receptivo que, para estar lá, havia de pagar um custo alto. Mas valia a pena. Enfrentando a trilha de forma criativa, transformei o que poderia ser um pesadelo na viagem da minha vida.

Cheguei a 5000 metros. Foi aí que começou a caminhada na neve. O mal da altitude ameaçando a todos. Era preciso monitorar a cor do xixi, a dor de cabeça, o vômito e outros sinais de problemas. Também precisava ficar de olho na trilha, onde um tropeção poderia significar rolar montanha abaixo.

Os últimos ?cês?

Descobri o outro ?cê?: CORAGEM. Para que serve conhecer o que se faz, ser criativo, mas não ter coragem? Era necessário ter coragem para atravessar a ponte velha, dormir na barraca com 15 graus abaixo de zero e continuar andando em meio à nevasca. Já no Campo Base, enquanto me preparava para dormir, pensei no local onde estava. O ruído das avalanches não deixava dúvida: aquele lugar estava vivo. A qualquer momento tudo poderia vir abaixo.

Foi quando apareceu o quarto ?cê?: CONSEQÜÊNCIA. Quais poderiam ser as conseqüências da minha aventura? Sem conhecimento, eu corria o risco de me machucar ou até morrer. Sem criatividade, aproveitaria pouco aquela maravilha de lugar. Sem coragem, eu nem sairia de Katmandu… Por outro lado, pude aprender lições que estão na cara, mas que no Everest se transformam em verdade absoluta. Como a necessidade de trabalhar em equipe. Aprendi ainda que nada resiste a um passo atrás do outro, sistemático e constante. Aprendi que, depois de uma subida, onde a gente ganhava altura, vinha uma grande descida.

Chegar ao Campo Base seria só metade da viagem. No meio da subida terrível, aprendi a olhar mais para baixo do que para cima. Assim eu via o quanto havia subido, e não o quanto faltava subir.

Na volta, depois de conquistar o meu Everest, descobri que o exercício de preparar um site, de escrever um livro, de elaborar uma exposição fotográfica e de preparar uma palestra a respeito do que aprendi na viagem prolongaram minha aventura muito além dos 15 dias em que permaneci lá.

Esse esforço mostrou mais uma lição: conhecimento, a gente só adquire na prática. E ensinando os outros como fazer. Eu preferi transformar meu sonho em realidade com conhecimento, criatividade, coragem e conseqüência. Quatro ?cês? que certamente ajudarão você a construir o seu Everest. Seja ele qual for.

Aprendi que, depois de uma subida, onde a gente ganhava altura, vinha uma grande descida

Frase: ?É um erro confundir o desejar com o querer. O desejo mede os obstáculos, a vontade vence-os? ? Alexandre Herculano

Para Saber Mais: O Meu Everest ? Realizando um sonho no teto do mundo, de Luciano Pires (Geração).

Conteúdos Relacionados

Rolar para cima