Saiba como, quando e para quem falar a verdade

Faça com que a sinceridade melhore seus relacionamentos e sucesso

Desde pequenos, aprendemos que é feio mentir, mas é comum não sermos sempre verdadeiros e sofrermos as consequências disso, seja com a mágoa de quem descobriu a mentira, um castigo, desavenças e, até mesmo, com nossa própria consciência. Assim, crescemos e procuramos evitar a mentira, mas, por diversas vezes, também enfrentamos problemas em função de nossa sinceridade, pois nem sempre somos verdadeiros da melhor forma e, além disso, muitas pessoas não estão preparadas para ouvir a verdade. Sendo assim, como devemos agir?

Acredito que o questionamento sobre mentir ou falar a verdade exige um aprofundamento maior. É claro que o ideal é ser verdadeiro, pois, como diz o ditado, “mentira tem perna curta”. No entanto, precisamos ter uma série de cuidados, como: saber quando, onde, por que e para quem falar a verdade a fim de que nossa sinceridade não traga prejuízo aos nossos relacionamentos profissionais, atrapalhando nossa produtividade e bem-estar. Levar em consideração esses aspectos é uma maneira de evitar que tenhamos problemas mesmo falando a verdade. E isso só depende de nós – não temos controle sobre o comportamento dos outros, mas podemos agir de forma que as possibilidades de se encrencar sejam menores!

A verdade sempre?
Para ser sincera, a resposta é não! De acordo com os especialistas ouvidos nesta matéria e as opiniões de diversos leitores que enviaram e-mails sobre o assunto para nossa redação, às vezes, o melhor a fazer é não falar a verdade.

Seja porque não podemos, como em situações que temos uma informação privilegiada e sua divulgação poderá prejudicar outras pessoas e até nós mesmos, ou quando a verdade é desnecessária, ou seja, só piora a situação ou reforça algo ruim para alguém. É interessante pensar bem antes de ser sincero quando se está preocupado apenas com o ganho pessoal e satisfação do ego. E também quando você não está diretamente envolvido na situação, por exemplo: um colega de departamento chega atrasado várias vezes durante a semana, mas o trabalho dele não influencia o seu e vice-versa. No entanto, sente-se incomodado com a “folga” dele e tem a impressão de que ninguém está tomando uma atitude para corrigi-lo. Pode ser que ninguém esteja agindo mesmo, mas você não tem nada a ver com a postura dele, à medida que isso não influencie seu trabalho. Portanto, embora esteja lidando com uma verdade, o melhor a fazer é ficar na sua e se ocupar com o que lhe diz respeito de fato.

Fábio Augusto Caló, psicólogo, mestre em análise do comportamento e clínico no Instituto de Psicologia Aplicada (Inpa), além de palestrante do comportamento humano em congressos e empresas, explica que mentir é uma atitude como tantas outras que tendem a se repetir quando produzem algum benefício ou afastam, adiam ou impedem consequências ruins: “Não defendo que se diga sempre a verdade, mas que se deve, ao menos, considerar essa possibilidade antes de mentir. Indivíduos que mentem frequentemente para agradar um colega ou evitar conflito com chefe ou cliente podem passar por maus bocados se a verdade vier à tona”.

Sendo assim, é importante que as pessoas, antes de qualquer coisa, façam uma análise do motivo pelo qual desejam falar a verdade, ou seja, se vale a pena ser sincero ou é melhor correr os riscos de mentir. “Uma verdade precisa ter um objetivo positivo para ser falada – e é claro que quando é dita somente para ferir o outro, o resultado não pode ser positivo. Independentemente do outro reagir ou não, barreiras são erguidas, e isso nunca é bom para ninguém, pois as pessoas não gostam de ser feridas ou expostas desnecessariamente”, afirma Rosana Braga.

Próximos passos

Se você chegar à conclusão de que é melhor não falar a verdade, tome o máximo de cuidado para não entrar numa teia de mentiras e se complicar mais tarde. Nessas horas, quanto menos falar e se envolver com a situação, melhor.

Agora, caso entenda que é necessário falar a verdade, é fundamental analisar se a pessoa que receberá a informação está ou não preparada para isso. Fábio explica que é difícil garantir que as pessoas estão prontas para ouvir verdades ou ter a certeza sobre qual será a reação delas diante da informação verdadeira. “Contudo, conhecemos indivíduos que são considerados maduros ou equilibrados emocionalmente, que lidam bem com reuniões tensas e têm sangue frio em situações catastróficas. Eles podem ser bons ouvintes, ainda que a verdade os incomode. Mas, quando se trata de pessoas que oscilam emocionalmente e reagem mal diante de certas afirmações, sugere-se a escolha do momento adequado, que é quando elas estão menos tensas, visivelmente mais alegres ou pedem claramente para ouvir a verdade“, recomenda.

Rosana reforça que o bom comunicador sabe se adequar ao ouvinte no intuito de ser o mais compreensível que conseguir. “Se a pessoa é objetiva e racional, fale considerando essas características e seguindo esse modelo. Não seja prolixo, alongue-se em detalhes nem se apegue demais às minúcias emocionais. Por outro lado, se ela é sensível, introspectiva e tende a falar incluindo os mínimos detalhes, abra-se um pouco mais para detalhar, explicar e pormenorizar a questão. Até o tom de voz pode ser observado e acompanhado”, aconselha.

Não é só o que diz, mas como fala – Além de analisar se o seu ouvinte está preparado para a verdade, é preciso também prestar atenção em outros detalhes. “De acordo com alguns pesquisadores na área de comportamento humano, vários elementos devem ser considerados no momento de falar a verdade de uma maneira assertiva: olhar, expressão facial, gestos, postura, orientação do corpo, distância, contato físico, volume da voz, entonação, fluência e tempo de fala. Para cuidar desses fatores, sugiro sempre leituras sobre assertividade ou habilidade de autoafirmação e participação em cursos sobre esses temas”, recomenda Fábio.

Lembre-se de que tudo pode interferir, contribuindo ou prejudicando, na recepção de uma verdade. Ao ter uma conversa na qual a franqueza estará presente, também é importante cuidar com o local, prefira os ambientes mais calmos e isolados, e com quem está por perto e pode ouvir – evite essas conversas na frente dos outros, principalmente se o conteúdo do que for falado exigir sigilo. Na opinião de Carlos Cruz, que atua como coach executivo e de equipes, é conferencista em desenvolvimento humano e diretor da Up Treinamentos & Consultoria, quanto mais formal e burocrática for a cultura da empresa, mais as verdades assustarão e incomodarão as pessoas. Entretanto, não comunicá-las pode ser um risco ainda maior. Para ele, as verdades podem ser comunicadas em dois níveis: de comportamento e de negócios, acompanhe-os.

1. Nível de comportamento – As verdades podem ser ditas em forma de feedback e, para que seja um processo útil, é importante levar em consideração os seguintes aspectos:

» Ser descritivo, em vez de avaliativo – Evitar julgamentos ao relatar uma situação reduz a necessidade de se reagir defensivamente.

» Quebrar a resistência – Caso seja pertinente, reconheça algo positivo antes de dizer a verdade ao outro.

» Ser focado nos comportamentos que o outro pode modificar – Caso contrário, terá um colega de trabalho frustrado.

» Ser oportuno – Dê um feedback logo após o comportamento em questão, porém é importante observar a abertura do outro para ouvir.

» Ser pontual – Quanto mais objetivo for, mais impacto irá gerar e maiores serão as possibilidades de melhoria.

» Ser franco – Quanto mais franqueza tiver na comunicação e menos enrolar, mais segurança você terá para falar a verdade.

2. Nível de negócios – Comunique a verdade quando for agregar valor ao trabalho e trazer informação úteis ao crescimento dos negócios. Para isso, lembre-se de:

» Basear-se em fatos.
» Apresentar soluções, em vez de relatar problemas.
» Evitar triangulação na comunicação, ou seja, não fale de um terceiro que não esteja presente na reunião.
» Estimular o debate colocando hipóteses para as verdades em questão. » Focar em resultados.

Reações desastrosas

Rosana lembra que a verdade deve ser dita sempre com respeito ao ouvinte e clareza na comunicação. “Questione se o outro entendeu, tem dúvidas ou quer fazer alguma colocação sobre a verdade que foi dita. Afinal, muitas vezes, consideramos um fato ou percepção como verdade, mas descobrimos que ela era parcial ou inverdade quando nos disponibilizamos a ouvir o outro lado da questão”, explica.

E o que fazer se você tomou todos os cuidados e, mesmo assim, obteve problemas por falar a verdade? Carlos Cruz recomenda manter o silêncio e a paciência, afinal, reagir negativamente não significa que o outro não seja capaz de fazer as mudanças necessárias. Portanto, é preciso acreditar e esperar: “Por mais incômoda que seja a verdade e o colega não dê o braço a torcer, ele tomará as medidas necessárias caso perceba um ganho nisso. O mínimo que pode acontecer é o indivíduo encarar mais a realidade”. Fábio concorda que é preciso dar tempo para o outro “processar a informação”: “Pedir para que continuem o assunto em outro momento é algo interessante. Essa solicitação pode ser assim: ‘Percebo que a conversa está ficando tensa e não quero comprometer nossa relação, pois prezo a amizade que temos’. Sugira que conversem mais tarde sobre esse assunto, quando estiverem mais calmos”.

Não desista de falar a verdade nem fique traumatizado com a situação, achando que ser sincero é um problema. “Essa é uma grande armadilha. As pessoas chegam ao cúmulo de dizer que seu maior defeito é a sinceridade, que nunca foi nem será um defeito, e sim uma qualidade”, afirma Rosana. A questão é saber falar a verdade de maneira gentil e não se intrometer na vida alheia desnecessariamente, portanto, reveja o processo, analise se você fez tudo de forma que evitasse a reação negativa do outro, ou seja, aprenda com essa experiência e use o que aprendeu nas próximas vezes em que for necessário falar a verdade.

E você, está pronto para ouvir a verdade?

Assim como deseja que as pessoas aceitem a verdade, em outras situações, sua posição será a de ouvinte. E aí, como vai reagir?

Segundo Fábio, saber ouvir é a chave para as relações verdadeiras: “Sempre que aceitamos incondicionalmente o relato do outro, sem interrupções, explicações ou ataques, criamos um ambiente em que ele percebe que pode dizer várias coisas, independentemente de elas agradarem ou não. Segurar o desejo de repreender ou criticar o outro quando esse diz ou revela algo cria um ambiente mais provável de a verdade aparecer”. Rosana lembra que a verdade em forma de crítica é uma grande oportunidade para percebermos que precisamos mudar um comportamento inadequado ou enxergar caminhos até então obscuros.

“O segredo é ouvir como o processo de abrir a porta da geladeira: você enxerga tudo o que tem nela e escolhe o que quer e o que não lhe agrada, ou seja, se o que ouviu não faz eco em você, apenas descarte ou diga a seu interlocutor que não faz sentido o que ele está dizendo. Mas, se o que lhe foi relatado tem lógica ou, ao menos, deixa dúvida, procure pensar um pouco, espere alguns dias, observe, consulte-se e, só depois, engula a verdade, deixe sua mente digeri-la e converse com a pessoa”, aconselha a especialista, lembrando que quem diz a verdade pode ser um grande amigo.

5 regras para falar a verdade

1. Analise se ela é realmente necessária, ou seja, se pode ser dita, não trará mais prejuízos que benefícios ou não é apenas fruto de um desejo pessoal seu.

2. Verifique se o seu ouvinte está preparado para a verdade e lembre-se de adequar sua fala ao perfil dele.

3. Escolha o ambiente e horário mais adequados para a conversa.

4. Procure falar a verdade de maneira construtiva, de forma que não seja apenas uma crítica, e sim uma sugestão de melhoria e progresso para quem ouve.

5. Certifique-se de que a pessoa compreendeu sua boa intenção ao falar a verdade para que não surjam mágoas e ressentimentos.

“Na minha empresa, temos um forte compromisso em desenvolver uma cultura em que a franqueza seja permitida e vista como auxílio ao nosso próprio desenvolvimento. Temos o apoio de uma analista que faz reuniões quinzenais com a equipe, o que nos ajuda muito na questão do feedback franco e direto. Hoje, a companhia tem um nível que nos permite ser francos sem causar grandes choques, e isso tem ajudado na motivação dos funcionários, pois o fato de poderem expressar-se verdadeiramente já elimina uma série de problemas que afetam a motivação. A cultura que estabelecemos é tão forte que os novos colaboradores rapidamente percebem o ambiente e se adéquam ao estilo de franqueza da empresa.”
Daniel Rodrigues – diretor do Centro de Consultoria Linguística (CCLI)

“É de se esperar, pela experiência, que nem sempre a verdade resolve os problemas, mas não significa que alguém deva ser omisso ou mentiroso. Uma das características que mais aprecio é a discrição. Ser discreto é saber dizer as coisas na hora certa ou, quando questionado, saber dizer que não pode falar sobre tal assunto ou prefere não comentar o fato. Podemos também considerar algumas informações como ‘pessoais’ e dizer que não nos sentimos confortáveis para falar sobre elas. De fato, existem várias maneiras de não falar a verdade sem ser mentiroso ou omisso, mas é importante que isso fique bem claro quando você tiver de falar.”
Diógenes Felício de Almeida – coordenador comercial da OCS Mineração e Empreendimentos Ltda.

Para saber mais:

Visite os sites:
Carlos Cruz: www.carloscruz.com.br
Fábio Augusto Caló: www.aconselhamento.com.br
Rosana Braga: www.rosanabraga.com.br

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