Sofrer é passageiro. Desistir é para sempre.

Confira entrevista com Bernardo Fonseca ultramaratonista e diretor da X3M Sports Business

Com este “slogan” Bernardo Fonseca, ultramaratonista e diretor da X3M Sports Business, venceu a Ice Marathon – duas provas realizadas na Antártica, consideradas as mais difíceis do mundo, compostas por uma maratona de 42 quilômetros e uma corrida de 100 quilômetros. Entre uma prova e outra a diferença foi um pouco maior que um dia: 27 horas. Após vencer a maratona no tempo de 4 horas, 20 minutos e 31 segundos, ele conquistou os 100 quilômetros com a marca de 12 horas, 41 minutos e 52 segundos. Na corrida dos 100 quilômetros, Bernardo chegou quase três horas a frente do segundo colocado.

Depois de enfrentar os ventos de 70 km/h e a sensação térmica de -60°C da Antártica, foi para o deserto para a Marathon Des Sables, a maior ultramaratona do planeta. Ela acontece no sul do Marrocos, no deserto do Saara. Mais de 13 mil participantes percorrem até 280 quilômetros em 7 dias.

A primeira empreitada em esportes extremos de Bernardo foi correr uma maratona aos 12 anos de idade. Nesse momento percebeu que tinha o perfil das pessoas que procuram conhecer seus limites.

Em entrevista exclusiva à VendaMais, ele fala dos desafios e das superações que passou, e que todos passamos diariamente, e mostra o caminho para colocar em prática os valores do mundo esportivo no universo corporativo.

Quem é Bernardo Fonseca?
É um jovem empreendedor, que gosta de sair da mesmice do mercado e é apaixonado pelo que faz.

Venho de uma empresa multinacional da área financeira. Apesar da rentabilidade muito boa, não era uma coisa que eu gostava de fazer, não tinha prazer e resolvi investir na área de esporte, pela qual sou apaixonado e que acreditava que ainda poderia crescer muito no País. Acho que minha escolha foi muito acertada. Quando você faz o que gosta, tende a fazê-lo da melhor forma possível. Quando você tem amor pelo trabalho, dedicação, as coisas fluem mais facilmente. Eu acredito que isso facilita o convívio, toda a dinâmica e os resultados. Nem sempre tudo é dinheiro, ele acaba sendo só uma consequência.

O que o fez optar por essa profissão? Por que megamaratonas?
Eu sou um extremista, gosto de me desafiar. E no trabalho também sou assim. Quando a gente tem um desafio, por exemplo, tem de fazer um evento em uma semana, organizar toda a captação, a logística, a gente faz. Se tiver de virar cinco noites sem dormir, a gente vira; se tiver de falar com Deus e o mundo, a gente fala e faz. O cliente tem essa segurança. Quando a gente acredita no que faz, se entrega. As pessoas observam: “Nossa, este cara correu no gelo, no deserto. Este cara resiste, ele faz”.  A empresa se espelha no seu líder. Eu, como líder, tento mostrar que nada é fácil, que ninguém faz nada sozinho. Aqui todo mundo se une, planeja e foca a meta nem que para alcançá-la precisemos nos privar de alguma coisa, porque nosso objetivo é maior. Parece bonito, mas tem hora que a galera chora aqui.

Só motivar-se por algo resolve? Escolho uma profissão, uma carreira, sinto-me motivado, leio alguns livros de autoajuda, inspiro-me no exemplo dos outros e tudo vai dar certo?
A gente tem muita prática. Os livros agregam, ajudam, você troca conhecimentos. A gente observa muito o que os concorrentes andam fazendo, no Brasil e fora dele. Analisamos, observamos o que ele fez bem, fez mal, se teve alguma melhoria tecnológica ou de processos, o que a gente pode adaptar aqui, mas o mais difícil de qualquer empresa de serviços é gerenciar pessoas. Mantê-las motivadas mesmo que estejam trabalhando 12 horas por dia, virando noites. Isso é difícil. As pessoas não fazem isso por dinheiro, acreditam em algo mais, acreditam no objetivo final, que é uma entrega diferenciada, querem construir algo bacana. A gente tem de acreditar no produto, e o esporte ajuda nisso. O esporte é saudável, benéfico, as pessoas gostam de praticá-lo. A motivação também está no exemplo. Você, ao dar o exemplo, mostra que todos são capazes.

Teve um momento na maratona do gelo que foi muito interessante. Eu fui convidado para correr na maratona de 100 quilômetros, mas dois dias antes tinha uma corrida de 42 quilômetros. Como tinha a de 100, fui dar apenas uma pequena corrida na de 42 para testar os equipamentos, treinar e dar apoio para o Cleyton Conservani (jornalista da Rede Globo). Não estava fazendo meu ritmo mais forte, estava em quarto lugar, tranquilo, acomodado, feliz da vida. Quando, no meio da Antártica, vi um pontinho preto lá longe, fui correndo e o pontinho foi ficando grande, fui correndo e o pontinho preto balançando o braço, quando cheguei nele era o nosso produtor, que disse: “Bernardo, vamos lá, vamos alcançar o americano, vamos com tudo”. Ele me deu uma megamotivada, foi como um “espinafre” dentro de mim. Eu não esperava que essa pessoa estivesse no meio do nada para me dar aquele incentivo, e eu acabei ganhando a prova. Se ele não estivesse lá, eu não teria ganhado. Se ele não fosse o líder no momento certo, dando aquele empurrão, eu não chegaria aonde cheguei. E no dia a dia é a mesma coisa. As pessoas acham que podem chegar em um ponto, mas elas podem muito mais.  

O que é mais importante para se superar: organização, foco, planejamento ou disciplina? Todas são importantes, mas quando chega naqueles momentos finais, no limite do esforço físico (bem planejado), o que o faz cruzar a linha de chegada?
A disciplina é muito importante. Ela ajuda em tudo, no planejamento, no foco e nas metas. “Comprometimento” é a palavra perfeita. O comprometimento das pessoas em função do resultado final é essencial.

Quando começa uma megamaratona? No “tiro” da largada?
Começa no momento em que eu a desejo. E a gente não vive sem sonhos. No momento em que eu sonho, falo “Quero isso”. Aí começo a planejar, treinar, desenvolver. Quando você vai correr a prova é o final. Para o mundo corporativo é a mesma coisa. Não é a corrida em si, é tudo o que acontece antes. Como eu sempre digo: treino forte, guerra fácil. Você tem de estar preparado física e psicologicamente em todos os pontos.

Você usa uma frase: “Sofrimento é passageiro. Desistir é para sempre”. Esse é o seu slogan? Por quê? O que isso tem a ver com superação?
É um slogan marcante. Se você desistir, nunca mais vai querer. Você não pode desistir. E hoje o que a gente tem comentado e brincado é que todo mundo tem seu limite, mas você só o conhece se superá-lo. A superação é diária. Quando eu treinei para a megamaratona da Antártica eu tinha uma meta: não diminuir a performance do trabalho na empresa. Era uma meta pessoal. Então eu chegava ao trabalho na mesma hora que todo mundo, acordava de madrugada, e na época minha filhinha tinha um ano e meio, às vezes eu ficava acordado porque ela chorava. A gente sabe que existem os sacrifícios. A superação está aí. A superação está em dormir pouco ou quase nada, mas eu tinha o compromisso do treino, o compromisso comigo mesmo; quando você sai para correr, para o treino de madrugada, no frio, com chuva, supera as suas expectativas e a de todo mundo. E o resultado é sempre muito bom. É claro que há momentos em que dá errado, mas você tem de se superar, levantar a cabeça, tentar de novo. Até o convívio no trabalho é uma superação. A gente fica mais tempo no trabalho do que em casa.

E a megamaratona do Saara? Como você encarou esse novo desafio?
Na verdade eu fiz os extremos – o mais quente e o mais frio. Com isso aprendi que o calor é muito pior que o frio. Não existe passar frio, existe estar mal vestido. A gente tinha uma superação diária no deserto. Durante o dia eram 53ºC, e a noite 5ºC. Ficávamos o tempo inteiro cuidando dos pés, nos hidratando e nos alimentando. Passei cinco noites sem dormir direito. Como a gente tinha de ser autossuficiente e carregar tudo o que iria consumir nos cinco dias, ninguém carregava casaco, porque era pesado. O deserto é implacável, e quando você vê, ele já o consumiu. E para levantar de novo é duro, tem de ter bons parceiros. Corri com o Cleyton, que tem uma cabeça muito forte. Eu tenho um ótimo preparo físico e ele tem uma cabeça muito forte. A gente se uniu e teve um bom resultado.

Quais são as diferenças na organização de uma maratona na Antártica e uma no Saara?
O que a gente viu é que a equipe que está conosco sofre demais. Os câmeras e a produção sofrem mais que a gente. Nós estávamos treinados física e psicologicamente, mas eles estavam nos mesmo 53ºC que nós e passaram um sufoco, ficaram doentes, passaram mal, tiveram febre. Teve dia que a gente teve de cuidar deles porque estavam mal. Mas isso é equipe. Nós sabíamos que eles estariam lá, no sol efervescente ou na madrugada, prontos para fazer a cobertura. A equipe é tudo. Você não faz nada sozinho.

“Quando você faz o que gosta, tende a fazer da melhor forma possível. Quando você tem amor pelo trabalho, dedicação, as coisas fluem mais facilmente”

Terminar uma megamaratona é suficiente para você ou apenas a vitória interessa?
Depende do objetivo. Quando eu fui chamado para fazer a prova da Antártica não esperava ganhar a prova. Quando recebi o convite da Globo para fazer a corrida de 100 quilômetros, meu compromisso era terminar o evento. Mas eu estava com tanto medo de passar vexame e não completar a prova que treinei muito. Eu estava tão bem treinado que ganhar a prova foi uma consequência. Mas no Saara a expectativa era fazer que o Cleyton concluísse a prova de 250 quilômetros e isso é dramático, até mesmo para os corredores. E a gente conseguiu. Sabíamos que não íamos ganhar nem tínhamos essa expectativa. Atingir o objetivo era o que importava. Se o seu objetivo é ganhar, o.k., se for concluir e se superar, ótimo. Na largada a gente já começa diferente. Quando vamos para uma prova em busca do tudo ou nada, temos um ritmo diferente. Queríamos uma boa história. Mostrar que tudo é possível.  

Como você escolhe os desafios, tem algum critério para isso?
Todo mundo me pergunta qual é o próximo desafio. “Você vai correr na lua?”. A gente usa muito o esporte como uma plataforma para conhecer lugares inóspitos, para ir a lugares nos quais nunca se pensou em ir. A Antártica é um lugar que me seduz muito, pois é um continente no qual está 93% da água potável do planeta, é o único continente em que nenhum país domina o território, enfim, é muito especial. Eu quero fazer uma expedição transcontinental, cruzar a Antártica em um percurso de 2.900 quilômetros. Demorará dois meses. Planejamos começá-lo no início de 2014.

Saber claramente onde se pretende chegar é fundamental no esporte, assim como é necessário para as equipes de vendas. Como você estabelece as metas para os trabalhos que lidera?
Isso é um problema, porque as metas são muito altas. A gente não escolhe as metas, elas surgem. Aí você se desafia, a meta é ser o número 1, superar seu concorrente, fazer um evento inovador. Isso acaba surgindo no seu dia a dia. Acho que uma das maiores metas de todo mundo é ser feliz. Para ser feliz é preciso ter segurança financeira, fazer o que gosta e estar com as pessoas que você quer, isso se soma ao trabalho, à família e ao lazer. A meta do nosso trabalho aqui é traçada semestralmente, e a equipe toda se une, há um compromisso de todos em função disso. Algumas pessoas aguentam, outras não. As que aguentam vão ficando mais fortes e crescendo.

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