Stop and Go

Eu morava em uma casa que tinha uma ampla área envidraçada na sala de estar. Não havia momento mais agradável na semana do que aos sábados pela manhã, fosse verão ou inverno, quando o sol invadia o ambiente trazendo luz e calor. Eu morava em uma casa que tinha uma ampla área envidraçada na sala de estar. Não havia momento mais agradável na semana do que aos sábados pela manhã, fosse verão ou inverno, quando o sol invadia o ambiente trazendo luz e calor.

Em uma das empresas nas quais militei, uma daquelas onde se dedica grande parte da vida, vicissitudes levaram ao encerramento das atividades depois de quase uma década de trabalho.

Após dez anos de relacionamento, entre os altos e baixos que permeiam a união de um casal, meu casamento sucumbiu.

Eu não desejava ficar distante daquela casa. Mas tive que desocupá-la. Eu não me imaginava ?apagando a luz? daquela empresa. Mas tive que fazê-lo. Eu não apreciava a idéia da separação. Mas os sentimentos mudaram.

Cultivamos um hábito pernicioso, ainda que inconscientemente. Costumamos nos apegar a objetos, pessoas e eventos. E, ao agirmos assim, supervalorizamos estes aspectos. Damos a eles uma dimensão irreal, passando a viver em função ? e por causa deles. Isso nos anuvia a mente, bloqueia-nos a criatividade, ceifa-nos a flexibilidade. Perdemos a capacidade de nos adaptar, de mudar e de crescer. E, nesta toada, morremos lentamente…

A palavra é: desprendimento. Uma habilidade ímpar de racionalmente avaliar a relevância de coisas, pessoas e situações, ponderando objetivamente sobre seus prós e contras, renunciando se recomendável for. Não se trata de uma mera desistência, fruto do não persistir. Trata-se de encerrar um ciclo, muito prazeroso antes, mas que agora é apenas fonte de ressentimentos e inquietudes. E abrir a porta para permitir o futuro entrar.

Há rotinas de trabalho que necessitam ser substituídas ou abandonadas. Há produtos dentro do mix das companhias que precisam ser retirados de linha. Há empresas que devem ser fechadas. Há relacionamentos que pedem para serem desfeitos.

Erros e fracassos são recorrentes. Persistir no erro não é exemplo de perseverança, mas de sua face nefasta representada pela teimosia. Tempo desperdiçado, recursos jogados fora, talentos desprezados.

Em outras casas morei, com áreas mais ou menos envidraçadas, mas com o sol igualmente iluminando e aquecendo minhas manhãs de sábado.

Em outras empresas atuei, nas quais pude imprimir minha marca, colocando nelas minha experiência, fosse para estimulá-las a continuarem sua caminhada, fosse para sugerir-lhes terminar o percurso.

Outros amores experimentei, dotados de um prazer único em suas peculiaridades, cultivados sem prazo de validade, fonte eterna de alegria através do exercício da lembrança.

A vida pessoal e corporativa muitas vezes sugere parar, recuar ou interromper. Não pela estática, mas pela dinâmica de seguir adiante.

Frase: ?O prazer é único, não se repete. A alegria repete-se sempre. Basta lembrar? ? Rubem Alves

Tom Coelho é empresário, consultor, escritor e palestrante, diretor da Infinity Consulting. E-mail [email protected] Homepage: www.tomcoelho.com.br

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