Suas razões revelam suas emoções?

Você se considera uma pessoa mais racional ou mais emocional? Esta pergunta certamente já esteve presente de alguma maneira em diversos momentos de nossa vida. Você se considera uma pessoa mais racional ou mais emocional? Esta pergunta certamente já esteve presente de alguma maneira em diversos momentos de nossa vida. Ela parece simples e prática, não revelando claramente que contém uma forma de entender o ser humano. Inserida nela temos uma visão do homem surgida durante um período da História, o Iluminismo, no século XVII, quando mudanças sociais, econômicas e políticas criaram condições para o desenvolvimento da ciência e das transformações ocorridas no mundo ocidental a partir de então.

Vamos utilizar como exemplo para nossa questão um dos mais influentes pensadores iluministas, o francês René Descartes, autor da célebre frase: ?Penso, logo existo?. Descartes era um gênio da matemática, inventou a geometria analítica, e seu trabalho é marcado por uma busca da certeza e da verdade mensurável. Ele influenciou toda a metodologia científica e a maneira de pesquisar e interpretar os resultados. Descartes defendia a idéia de que as emoções humanas são um elemento que prejudica o entendimento correto da realidade.

A noção de que o uso da razão nos levaria à solução de nossos problemas esteve a partir daí presente na cultura ocidental, de forma mais explícita na ciência ou simplesmente envolvida em processos educacionais e comportamentos comuns. Assim, para que a razão estivesse em primeiro plano, a emoção foi colocada na ?sombra?. As pessoas que expusessem mais suas emoções ou, pior ainda, as colocassem como fator de influência em suas decisões, corriam o risco de não serem levadas muito a sério, como se a decisão ?mais emocional? fosse uma decisão de segunda ordem.

Passamos agora para um exemplo do final do século XX, que sintetiza um rico debate para a revisão da influência do pensamento dualista (razão x emoção) em nossa forma de ver o ser humano. O neurologista e cientista Antonio Damásio escreveu dois livros (O Erro de Descartes e o Mistério da Consciência), nos quais apresenta uma série de hipóteses apoiadas por casos clínicos, que demonstram a interação da razão e da emoção na formação do comportamento humano. Damásio apresenta exemplos de indivíduos que tiveram lesões cerebrais em áreas responsáveis pela percepção e interpretação de emoções, mas que deixaram intactas áreas primordialmente utilizadas para o raciocínio e a memória. Essas pessoas podiam resolver uma série de problemas matemáticos e testes objetivos mas, ao mesmo tempo, elas se tornavam incapazes de tomar decisões que envolvessem a subjetividade, algo em que elas estivessem envolvidas, por mais simples que fossem as questões.

As conclusões de Damásio são de que, quando certas áreas do cérebro responsáveis pela interpretação das emoções são danificadas, o indivíduo não tem plenos recursos para tomar decisões que o envolvam. Em outras palavras, é que quando nossa capacidade para lidar com as emoções se abala, seja por que motivo for, nossa razão fica comprometida. Para ilustrar com uma analogia bastante simples, seria como termos um carro com motor em ótimo estado (razão) e colocarmos combustível ruim (emoção), o que impediria o motor de cumprir bem sua função. De diversas formas, com inúmeras teorias e abordagens, a psicologia e a psicanálise alcançam bons resultados no auxílio às pessoas a partir do momento em que estas percebem que suas razões, seus objetivos e suas idéias surgem por forças originadas em necessidades puramente emocionais.

Independentemente da velocidade com que as áreas do conhecimento poderão nos trazer novas formas para entender nosso comportamento, nossa implicação pessoal para tentar rever questões ligadas às nossas ?razões? pode se transformar em práticas construtivas e gratificantes. A questão que nos importa individualmente é: quanto de sua razão e suas certezas estão em sintonia com suas emoções? Quantos de seus objetivos estão sendo buscados sem uma sintonia adequada com seus sentimentos, com um alto custo emocional, muitas vezes somente para não mudar o que já ?parece? conveniente? Estas perguntas não podem ser respondidas com total clareza, exatamente porque razão e emoção não podem ser desconectadas. Entretanto, se puder perceber algum ponto, por mais simples que pareça ser, e empenhar-se em alterá-lo, terá um início que pode se desdobrar em novas questões e descobertas. Quais sentimentos sustentam suas razões? Se pensar demais para responder, já racionalizou sua resposta…

Frase: ?A vida de sabedoria deve ser uma vida de contemplação combinada com ação? ? M. Scott Peck

Para Saber Mais: E se o Pára-quedas não Abrir?, de Lucas Gonzaga Jr.

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