O gorjeio dos cangurus

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Deus, em Sua Magnânima Onipotência, ordenou:

– Agora passaras a gorjear.

Gorjeia, Canguru!

– Perdão, Senhor?

– Gorjeio, Canguru!

– Senhor, não estou certo de ter ouvido bem.

– Eu disse: gorjeia, Canguru!

– Senhor: com todo o respeito, eu, humilde criatura de Vossa benevolente lavra, sou um canguru. Como pretendeis que agora eu gorjeie?

– Se Eu disse gorjeia, gorjeia!

– Talvez estejamos diante de um problema de semântica. O Senhor certamente quer dizer… O que é mesmo que um canguru faz?

– Pula, mas hoje Eu quero que gorjeies.

– Senhor quem sou eu para colocar em dúvida qualquer ordem ou palavra Vossa, mas perdoai minha grande ignorância: como é que se gorjeia?

– Apenas gorjeia, te ordeno.

– Bem, vamos lá… CRÁÁÁÁ…

– Isso é grasnar. Eu disse gorjear!

Não és um corvo!

– É claro que não, apenas um pobre canguru, que outra coisa não aprendeu na vida que…

– Pela última vez: GORJEIA!

– Prrriiiii…

– Não! Apitar, não! GORJEAR!

– Por Deus, Senhor. COMO É QUE SE GORJEIA?

Deus suspirou, sacudiu a cabeçorra e disse:

– Essas minhas criaturas! Onde foi que Eu errei?

Terá sido no processo de recrutamento e seleção, ou no programa de treinamento e desenvolvimento, ou de motivação? Deus, como Magnânimo Presidente e Diretor de Recursos Humanos e Animais do Universo, não parecia estar contente com o próprio fruto de Seu trabalho. Tanto é que um dia resolveu eleger Noé e acabar com o resto da humanidade, num processo de downsizing bastante abrangente.

Não se pode dizer que ele enxugou a Grande Empresa Terrena, porque, na verdade, o que Ele produziu foi um dilúvio que reduziu a folha salarial do planeta a níveis desprezíveis. E olhem que ele não tinha de prestar contas a nenhum board, no máximo ao Filho e ao Espírito Santo, o que não era muito difícil, porque os Três eram a Mesma Pessoa.

Mas analisemos o caso. É justificável que Deus, pelas atribulações normais de um Comandante de Rigorosamente Tudo, estivesse com a cabeça cheia de problemas e pudesse deixar escapar algum detalhe, como, por exemplo, que cangurus não foram feitos para gorjear? (Ele mesmo, como responsável pelo projeto, teria designado os atributos do produto, não é mesmo?) Tratando-se de Deus, o Supremo CEO, o Líder Máximo, o Perfeito-conforme aprendemos desde crianças – não se poderia pensar nessa hipótese. Onde estaria, então, o erro?

É claro, o erro pode estar em nós mesmos, que pensamos que cangurus não podem gorjear, um paradigma firmado em nossas mentes, condicionando nossas crenças. Crenças essas que devemos abandonar, em nome de uma visão mais estratégica dos fatos. E o erro pode estar, ainda, no próprio canguru, que nunca foi avisado que, forçando um pouco a barra, acreditando mais em si mesmo, tendo lê, aumentando sua autoestima, bem poderia sair por aí gorjeando lindamente, como as aves de minha terra, que gorjeiam mais há do que cá. Mas, oh, destino cruel, esse canguruzinho tão lindo, não sabe que pode gorjear. Por que não acredita em Deus seu bobinho? Você não sabe do que capaz!

Assim como os cangurus – é claro podem gorjear, todos os profissionais podem se tornar super-heróis, modelo de competência e competitividade, nu passe de mágica. Não é isso que no sugerem todos os dias””””? Ou se toma onipotentes, ou estarão fadados à extinção, como se diz na lógica fria e implacável da teoria da seleção natural d Darwin, ou do mercado.

Desse modo, você presencia uma multidão de profissionais agredindo sua natureza, comprometendo sua qualidade de vida e de suas famílias, sendo levados a acreditar que precisam gorjear e que terão nas mãos os instrumentos necessários para fazê-lo, ou sentindo-se cada vez mais culpados por não passarem de Clark Kent a Super-Homem em ritmo de supervelocidade.

As circunstâncias da vida os levaram a estruturar suas roupas profissionais com base em padrões alheios e em modelos que a mídia repercute sem uma visão mais critica da realidade. É claro que é possível mudar, mas qualquer mudança tem de vir amparada por um processo profundo de autoconhecimento e persistência, culminando numa perspectiva real de autodesenvolvimento, que nunca será apenas profissional. É preciso querer mudar a nós mesmos, como pessoas, se quisermos ser capazes de cantar a melodia da vida no tom certo, mesmo de gorjeio.

Se você é um canguru e está tentando gorjear, pare e pense. Ser”quem você é” representa, ao mesmo tempo, o maior desafio e a maior conquista. Mergulhe profundamente em sua natureza, descubra o animal verdadeiro que traz em si – qualquer que seja ele.

E, a respeito do impasse divino, relatado no inicio, e que nos levou a esse tema, há outra solução que pode fazer com que o canguru gorjeie. É concluir que ele pasmem – não é um canguru, nem jacaré, nem girafa, nem canário. Ele foi à vida inteira convencido de que era um canguru, mas não é.

Hoje, Deus, transmutado na sociedade, ou nos padrões de julgamento social, exige que ele gorjeie. Se ele se enxergar como uma criatura divina, ou mesmo humana, e respeitar sua natureza universal, ele poderá gorjear, grasnar, urrar, latir, miar ou produzir qualquer outro som, porque ele não estará tentando obedecer às cegas e restritamente a uma ordem divina da qual ele não sabe de onde veio, ou por que veio, ou mesmo, o que quer dizer. E qualquer coisa que faça, será a mesma coisa, ou seja, um fruto autêntico de suas possibilidades e riquezas.

Se usasse sua capacidade de livre-arbítrio, tão apregoada pelos homens como concessão de Deus, ou de suposta escolha democrática, tão difundida por nossas instituições, para jogar o jogo certo, ele interpretaria a solicitação sagrada. Assim, talvez o diálogo de Deus com o canguru fosse outro, mais ou menos assim:

E Deus, em Sua Magnânima Onipotência, ordenou:

– Agora você vai passar a gorjear. Gorjeia, Canguru!

– Perdão, Senhor?

– Gorjeia, Canguru!

O canguru dá um grande salto.

– Isso é saltar eu disse gorjear –

observa o Altíssimo.

– Eu bem sei que o Senhor sabe que é esse o meu gorjeio. Ele se expressa em Vosso louvor como a realização da minha felicidade e da minha natureza. Aceitai isso como a minha prece mais sentida, minha gratidão mais profunda pela força concedido a meus músculos, minha agilidade e minha produção mais eficiente. Vós, Senhor Autor de todos os conceitos, entendo agora, podeis dizer gorjear que, no meu caso, quer dizer saltar. Quantos interpretaram Vossa palavra ao pé da letra e saíram fabricando o que aí está. Eu quero mais, Senhor: Quero oferecer o melhor salto que eu puder encantar a vida com minha experiência e ser por ela encantado, pela divina diversidade da criação.

Deus sorri.

Sidney Frattini é consultor de recursos humanos. E-mail: frattini@uol.com.br

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