A garoa cai forte. Vai caindo de mansinho, molhando os agasalhos. Estamos no meio da vigorosa Mata Atlântica do Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira-PETAR, onde um grupo de executivos caminha em direção a sua meta: todos chegarem seguros à cascata no final de uma caverna. Esse é um grupo descontraído. As pessoas vão seguindo atentas a cada passo, olhando onde pisam, evitando escorregar nas pedras roliças. As conversas são animadas, um mostrando ao outro as belezas da caminhada, ou se ajudando nos trechos mais difíceis. Ora surge um pássaro colorido, ora é um poço transparente no rio de águas claras, ora soa um grito distante de um macaco.
E o grupo avança na trilha. A cada período, um participante é o líder. Ele deve decidir o caminho, por onde nunca andou antes. Deve orientar o grupo sobre qual é a melhor alternativa a seguir, quais os perigos a evitar. Naquele momento, todos estão aprendendo e testando seus limites para a liderança e para o trabalho em equipe.
Eles estão no EcoTraining, uma inovadora modalidade de treinamento, onde se integram consultoria empresarial com lições extraídas diretamente da natureza, sem nenhum retoque ou artificialismo. Em vez de DataShow, exercitam a confiança recíproca com o uso de jogos cooperativos. Em vez de Case Studies, sentam-se debaixo de uma figueira e discutem os processos de competição e cooperação. Em vez de processos de avaliação, uma conversa franca ao redor da fogueira. Trocam-se modelos de teoria das decisões por ações práticas de liderança: “Levo o grupo por dentro do rio ou vou à esquerda pelo seco?”. Assim todos se fortalecem nas habilidades de trabalharem conjunto e superar os seus próprios limites, ampliando seus potenciais e se preparando para mercados cada dia mais competitivos e agressivos. Eles estão aprendendo a domar os seus medos mais escondidos. E ao “desentocarem” seus receios mais profundos, conseguem a coragem para superar seus próprios limites.
A trilha fica mais difícil. Ora têm de subir uma enorme pedra, ora têm de encharcar os sapatos na água gelada. Os mosquitos fustigam os que não se prepararam, assim como fazem as empresas concorrentes. Às vezes a trilha se torna íngreme e escorregadia. E o grupo vai progredindo, passo a passo, com firmeza, em direção às suas metas. O ambiente é lindo, a natureza exuberante, mas não se pode perder o foco, se distrair. Ou vem o escorregão.
E nesse lugar, no meio de tantas lições, se aprende uma fundamental, a de liderança, que diz das direções para onde o líder deve olhar. Se o líder conduz seu grupo olhando para a frente, usa a força do guerreiro, que vê sua meta adiante e quer levar todo o grupo para lá. Mas o líder olha só para frente… Ele é rápido, decidido e forte, usa sua força YANG, masculina, mas se esquece de ver se seu grupo o está seguindo, se alguém precisa de uma palavra de estímulo, se alguém se machucou ou se ainda não tem o treinamento para acompanhar o ritmo dos colegas. Esse líder pode alcançar sua meta sozinho, mas talvez o grupo não consiga fazê-lo. Nesse caso, ele acaba não atingindo sua meta. Esse líder reclama da lentidão de alguns e confessa para outros que, se estivesse sozinho, já “estaria 10 km mais à frente”.
E aí, na dinâmica do EcoTraining, um novo líder assume. Esse agora é muito cuidadoso com o grupo. Ele olha muito para trás, preocupado se o grupo está junto, se todos estão bem. Ele faz muitas contagens para assegurar que to)dos estejam lá, que ninguém se perdeu. Mas, essa energia YIN, feminina, calorosa e nutridora, ao mesmo tempo cria estagnação e irritação no grupo, pois não há progresso em direção à meta. O ritmo é lento. Tudo se repete.
Novo líder assume. Esse olha sempre ao seu redor. Quer conhecer tudo o que está ao redor. Isso mais uma vez paralisa o grupo. É o líder que procura avaliar todas as alternativas, que quer conhecer todas as informações, que planeja, planeja, que faz planos e a seguir muda os planos, e o grupo fica parado, aguardando instruções. Esse líder também costuma olhar muito para cima, para ver o clima reinante, se hoje fará sol ou chuva, se o ar está parado ou venta muito. Ele olha em demasia para o chão, pesquisando cada detalhe do solo que pisa. E se perde no detalhe…
Como é o “líder ideal”, o líder que as empresas buscam?
As palavras-chave são “de tudo um pouco, tudo junto”: equilíbrio e harmonização. O líder deve atingir resultados (olhar para frente), com pessoas e com inovação (olhar para trás). Ele planeja, olhando para fora, mas também provoca ações. O líder sabe construir uma equipe, e também sabe desenvolvê-la e mantê-la. O líder sabe se comunicar, o que significa falar claramente, mas também ouvir ativamente. O líder sabe ser firme e assertivo, assumindo a responsabilidade e dizendo claramente um “sim” ou “não”, mas também sabe ouvir o seu grupo e dividir participativamente o momento da decisão. O líder sabe equilibrar o brilho individual com o resultado coletivo, O líder sabe reconhecer os esforços individuais e os resultados da equipe. O líder quer estrelas com brilho individual, mas quer isso numa constelação. Essas são algumas das lições que aprendemos no EcoTraining, quando integramos natureza com gerência. E há muito mais!
Gustavo Boog, consultor e terapeuta organizacional, é diretor da Boog & Associados, voltada a energizar pessoas e equipes nas empresas. Em conjunto com Eddie Zvingila, que coordena projetos de Eco Training. Telefone: (0**11) 5183-5187. E-mail: boog@sti.com.br Home Page: www.boog.com.br


