Grude de colar pipa!

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Esta é uma história do dia-a-dia, mas daquelas de arrepiar. Em todo caso, é como dizem: "Quem sai na chuva para cobrar, está sempre sujeito a tempestades".

Certa feita, uma colega recebeu a missão de cobrar as prestações habitacionais de uma velhinha, de quem ninguém conseguia tirar um tostão.

Ela era nova na agência e os colegas que já quase não tinham esperanças de receber, lhe deram a missão:

– Vai, Fulana, com esse seu jeitinho doce pode ser que você consiga.

E lá foi ela. A casa era razoável, os móveis antigos cobertos de poeira e incontáveis gatos dormindo nos sofás, cadeiras e na mesa.

A senhora pediu que entrasse, o que ela fez ainda que ressabiada. Era muita amabilidade para quem tinha fama de ser intratável.

A senhora mandou sentar-se, mas ela manteve-se em pé. Havia os gatos.

Toda aquela poeira, gatos e o cheiro característico da casa provocaram uma crise de espirros. A velhinha foi à cozinha e veio com uma caneca velha, descorada, riscada e encardida, em cujo interior havia algo escuro.

– Quer café?

– Fico-lhe muito agradecida… A senhora é muito gentil… Mas não, obrigada.

– Ah! Eu sabia, você é como todos que passaram por aqui. Uns donos do mundo, o nariz empinado. São bons demais para tomar café comigo, não é? Pois vou lhe dizer, não pago. E tem mais, vocês precisam aprender a ter gentileza também, e aceitar o que uma pobre mulher lhes oferece.

– A senhora não está entendendo: é que eu não tomo café. Nunca. Nem refrigerante. Nada que tenha álcool, não como carne, essas coisas… Entendeu?

– Acho que sim. Então, deixe-me ver o que tenho para você?

O tempo passava e ela na sala, em pé (havia os gatos, que ela detestava), e a velhinha na cozinha. Ouvia-se o barulho de panelas. Enquanto isso, ela pensava: "eu vou conseguir, tenho de receber dela".

Quando voltou, a senhora trazia na mão a mesma caneca quase amarela, só que com uma colher dentro.

– Desculpe pelo que lhe falei. Você, logo se vê, não é igual aos outros que vieram aqui. Está frio lá fora e você não toma café, então fiz um mingau.

Odiava mingau, mas obcecada com a idéia de receber a dívida, encheu bem a colher e, com os olhos nos olhos da velha, engoliu a primeira colherada. A segunda, mais difícil, já demorou mais no trajeto e pôde ser vista: o que seria aquilo? Sem cor de mingau, sem o leite do mingau, até sem gosto de mingau? Trigo. Farinha de trigo e água adoçada – grude. Grude de colar pipa, raia, ou papagaio.

Depende de que região se é, o nome muda. Mas o brinquedo é o mesmo. E se faz com papel de seda, varetas e cola feita em casa (grude).

Lá se foi a segunda colherada, já com os olhos cheios d'água e, como enchia bem a colher, na terceira já havia liquidado o conteúdo. Só faltava a dívida.

– Tava com fome, minha filha? Comeu rápido. Quer mais?

– Não se incomode, estou satisfeita. Agora vamos conversar, não é?

– Claro! Você veio me cobrar, mas eu sou meio desconfiada, não sabia se o cálculo que vocês fizeram está certo. Então rezei muito e pedi um sinal: se o próximo cobrador que viesse aqui tomasse café na minha pior caneca, eu poderia pagar que estaria tudo certo. Eu até já tenho o dinheiro. Café, você não tomou, mas comeu o mingau. Acho que é a mesma coisa.

E o mais incrível, ela pagou mesmo.

O tempo passava e ela na sala, em pé. E a velhinha na cozinha. Ouvia-se barulho de panelas. Enquanto isso, ela pensava: "eu vou conseguir, tenho de receber dela".

Joana del Guercio é escritora e publica artigos baseados em seus 13 anos de experiência bancária e contratação. E-mal: joana.guercio@hotmail.com

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