Por dentro de uma sex shop

Quer conversar com um especialista?
Entre em contato!

Tem gente que acha que vendedor que é vendedor, vende qualquer coisa. Mas e você, saberia vender produtos eróticos numa sex shop? Boa tarde, gostaria de deixar suas coisas guardadas para sentir-se mais à vontade?

O que parece um cumprimento comum de uma vendedora sorridente e para lá de simpática, torna-se pré-requisito de abordagem ao cliente para quem trabalha numa loja de produtos eróticos. E foi assim, com muita desenvoltura e naturalidade que Luciana, vendedora da sex shop Muito Prazer, em Curitiba, PR, recebeu-me ao entrar da loja. Não fosse o visual e a variedade de produtos, chamativos por uma infinidade de motivos, poderia jurar que estava fazendo compras no supermercado.

Mas será que é mais difícil vender produtos eróticos ou fazer com que os potenciais compradores passem da porta para dentro sem ficar sondando meia hora a quadra inteira para ter certeza de não cruzar com algum conhecido? Sabe aqueles que a gente sempre encontra nas horas mais impróprias? Então… As possibilidades de perder uma venda podem ser muito maiores para quem trabalha nesse ramo. Evelise Belem, sócia-gerente da loja, conta que antigamente mantinham a porta fechada, a fim de evitar que os curiosos de plantão causassem aborrecimentos. Assim, só entraria quem realmente estivesse a fim de comprar. A estratégia foi por água abaixo e hoje ela garante que manter a porta aberta é um convite até para os curiosos tornarem-se clientes. Deu certo. Em sete anos de funcionamento, o faturamento da loja de Curitiba, PR, e de Porto Alegre, RS, tiveram um aumento diretamente proporcional à variedade de opções disponíveis ao cliente.

Demonstração do produto

“Isso aqui não faz efeito”, disse o cliente apontando para um gel de uso tópico na prateleira da loja Ata-me Sex Shop, em Fortaleza, CE . “Comi o pote inteiro e não senti absolutamente nada…”.

O relato foi contato pelo gerente e proprietário da rede, Antônio Carlos Martins, que há 22 anos atua no ramo com mais duas lojas em Ribeirão Preto, SP Ele contou que o cliente fez o comentário depois de fazer a compra num concorrente. “Provavelmente ele não perguntou como usava o produto e o vendedor também não explicou, o que é um erro muito grave nesse mercado”, afirma.

Considerando as diferenças semânticas entre demonstração e explicação, podemos concluir que para trabalhar em sex shop o vendedor precisa estar apto a fazer todas as explicações sobre todos os produtos (hoje o mercado disponibiliza cerca de dois mil itens) bem antes do cliente perguntar. Muitas vezes ele não vai fazê-lo e a venda fica a ver navios. Luciana, da loja Muito Prazer, afirma que é preciso ter muito jogo de cintura, porque os clientes perguntam se funciona mesmo, se é bom, se você já testou… “Por isso procuramos deixá-los sempre à vontade. A gente mostra tudo, sem invadir a privacidade e ao menor sinal de dúvida, já vamos logo explicando tintim por tintim”, acrescenta.

Martins explica que na rede Ata-me o treinamento dos vendedores é feito in loco. “A gente contrata e fica uma semana ou duas para explicar como servem todos os equipamentos e vamos acompanhando”. Ele conta que a ordem da casa é dar explicação técnica para o cliente, antes mesmo que ele pergunte, para não gerar constrangimentos”.

Deixando o cliente à vontade… Pero no mucho…

Trabalhar o psicológico da pessoa é primordial, afirma Luciana. “Tem gente que entra ressabiado, dá uma voltinha e faz questão de deixar claro que está só olhando. Na verdade trata-se de um trabalho de conquista da confiança do cliente, que acaba criando uma relação até de cumplicidade e de comprometimento”. Ela conta que já aconteceu de clientes perguntarem por vendedores que não estavam no horário de trabalho e voltarem depois, só para serem atendidos por eles. O que não chega a ser um problema, porque na Muito Prazer os vendedores ganham salário fixo e a comissão sobre as vendas é calculada sobre o valor total mensal de todos os vendedores da loja. Diferente da Ata-me, que trabalha apenas com as comissões. Martins enfatiza que a rede paga uma comissão um pouco mais alta, porque acredita que seja mais interessante. E complementa dizendo que para trabalhar lá, o vendedor precisa ser simpático, desinibido e não ter vergonha de falar sobre sexo.

Apesar de todo o know-how e treinamento que esses vendedores precisam ter, há situações hilárias pelas quais certamente um vendedor de biscoitos dificilmente passaria. Ao ser abordado por uma senhora sobre as formas de usar um brinquedo eletrônico dos mais vendidos na loja, um dos nossos vendedores ficou tão sem graça que acabou respondendo: “bem… a senhora pode amarrar no pé da cama se quiser!”, relata Martins. “Uma vez estava atendendo duas moças e não sabia se elas eram ou não homossexuais. Pediram para ver lingerie, e depois de selecionarem diversos modelos, uma delas comentou com a outra… “Será que vai servir este nela?”, mais que depressa, uma delas pegou o sutiã, colocou na minha frente, passou a mão em mim e então a outra falou “vai servir sim!”. Foi constrangedor, conta uma outra vendedora que preferiu manter o nome em sigilo. Ela afirma que já aconteceu de pessoas acreditarem que vendedor de sex shop é garoto(a) de programa. “Para esses nós temos a resposta na ponta da língua: dizemos que não trabalhamos com esse produto na loja”.

A maioria desses vendedores adota como padrão de conduta ética nunca cumprimentar o cliente fora do seu local de trabalho.

Ganhei de presente, pode trocar?

Apesar do Brasil ser um grande fabricante de produtos eróticos, é na hora da troca que as lojas ficam no prejuízo. Como é direito do consumidor efetuá-las, os produtos ficam inutilizados e são jogados no lixo. “Por isso testamos o funcionamento técnico na frente do cliente. As pilhas, são cortesia”, conta Luciana com um sorriso simpático.

E para quem acha que as vendas face a face de produtos eróticos morreram com o advento da Internet, é importante saber que se houve alguma queda foi em função do poder aquisitivo da população e não por causa da Internet, que hoje não representa 2% do volume de vendas da área, afirma Jorge Belem, também sócio-proprietário da Muito Prazer. “O site da empresa é um mal necessário”.

Para Luciana, o grande segredo para vender produtos eróticos está na confiança. “Se você não acredita no produto, não vai conseguir vender”. Ela afirma que a maioria da clientela volta, principalmente para “locar fitas de vídeo”. Ah! As lojas vendem também livros, acessórios, DVDs, chocolates, energéticos, lingeries, brinquedos, velas, escova de dentes, lápis, borracha, revistas, cartões, entre outras cositas más…

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Conteúdos Relacionados

Venda consultiva não é venda comportada

Venda consultiva não é venda comportada

10 verdades comerciais para recuperar o olho do tigre sem ...
Leia Mais →
A neurociência do ghosting em Vendas: por que o cliente prefere sumir do que dizer “NÃO”

A neurociência do ghosting em Vendas: por que o cliente prefere sumir do que dizer “NÃO”

O cliente pediu proposta. Elogiou a reunião de apresentação. Disse ...
Leia Mais →
Engajamento em vendas: como bons líderes transformam pressão em energia produtiva e resultados

Engajamento em vendas: como bons líderes transformam pressão em energia produtiva e resultados

Nas consultorias, tenho visto crescer a demanda por engajamento de ...
Leia Mais →