Quem ganha com os blocos econômicos Com o sucesso da União Européia, vários blocos econômicos surgem ao redor do mundo. Veja quais são os mais vantajosos para as empresas do Brasil
Quando se fala em blocos econômicos, o que vem à cabeça? Mercosul, União Européia, Comunidade Lusófona, Organização Mundial do Comércio, Bric, Otan e outras tantas siglas que aparecem, vez por outra, no noticiário?
Bom, dessas, apenas o Mercosul e a União Européia são blocos econômicos.
» A Organização Mundial do Comércio é o órgão internacional que regula o comércio entre vários países. Para fazer parte dela, o país precisa se inscrever, mas a OMC, por si só, não busca nenhuma união tarifária ou de impostos.
» A sigla Bric começou a ser usada quando um banco de investimento norte-americano percebeu as vantagens e potenciais do Brasil, Rússia, Índia e China. A mídia e os especialistas adoraram o acrônimo, que começou a ser usado a torto e a direito. Entretanto, há pouco sendo feito para efetivamente unir esses países em algo semelhante a um bloco econômico.
» A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) tem como objetivo apenas acordos militares e de defesas ? nada a ver com economia.
» E o único fator econômico que interessa à Comunidade Lusófona é definir se ?econômico? leva acento circunflexo ou agudo.
Em 2008, a China pulou do terceiro lugar para o topo do ranking dos países de destino das exportações do agronegócio brasileiro. Até maio deste ano, a China comprou US$3 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro, valor 86,62% superior em comparação com o mesmo período de 2007. No entanto, esse aumento não é resultado de nenhum acordo feito em blocos econômicos.
Em um bloco econômico, países se unem para fazer acordos referentes a taxas, impostos, tarifas, importações e exportações entre seus membros ? exatamente como a União Européia, o exemplo moderno mais famoso e bem-sucedido de um bloco econômico.
Entretanto, não é o único. O Caricon, que reúne os países da região do Caribe, já integrou os passaportes de seus habitantes, assim como o Mercosul. O próximo passo é a criação de uma sólida linha aérea supranacional ? só depois, o Caribe discutirá a união de suas moedas. Após a moeda única, pretende-se criar uma bolsa de valores que atenda a toda a região, algo complicado quando se tem paraísos fiscais como membros da União. Não é algo que se pode ver em um horizonte próximo.
Há também o Fórum das Ilhas do Pacífico, atuante desde 1971. Os membros são as Ilhas Cook, Micronésia, Ilhas Fiji, Ilhas Marshall, Samoa, Vanuatu, Tonga, Papua-nova Guiné, Nova Zelândia e Austrália, que está na situação da casa boa e elegante em uma péssima vizinhança.
Curiosa também é a situação do Efta ? área européia de livre-comércio. Em 1960, alguns países, incluindo Grã-Bretanha e Portugal, estavam descontentes com os rumos que a nascente União Européia tomava, e decidiram montar um bloco dissidente. No começo, foi tudo bem, mas aos poucos muitos integrantes do bloco perceberam que a União Européia tinha muito mais a oferecer e viraram a casaca. Hoje, por questões de princípios ou pura teimosia, a Efta conta apenas com Islândia, Noruega, Suíça e Liechtenstein.
E existem os blocos econômicos que realmente importam para nós.
Alca
A Alca, bloco econômico que pretende unir todos os países das Américas parece estar em compasso de espera. Tentou-se avançar bastante nas negociações em anos recentes. Mas como, convenhamos, é muito difícil encontrar um conjunto de regras que seja justo tanto para o Canadá quanto para o Suriname, as negociações pararam. Os Estados Unidos, até então o país mais interessado em fazer com que o bloco econômico desse resultado, partiu para um trabalho um a um, fazendo tratados econômicos de livre-comércio com um país de cada vez. Já assinaram seus acordos:
» Chile
» Guatemala
» Honduras
» El Salvador
» Nicarágua
» República Dominicana
» Panamá
» Colômbia
» Peru
No entanto, prestes a mudar de direção, dificilmente os Estados Unidos continuarão com essa estratégia. A Alca enfrenta uma oposição velada de Brasil e Argentina, que não querem ver sua posição de liderança no continente se erodir. Ela também não é vista com bons olhos pelo provável morador da Casa Branca no ano que vem: Barack Obama do Partido Democrata. A rigor, a Alca ampliaria o número de países participantes do bloco econômico da América do Norte, o Nafta.
Obama já foi flagrado dizendo em comícios que o Nafta é ?um grande erro? cujas conseqüências seriam ?devastadoras?. Entretanto, ao ser confrontado com essas declarações em uma entrevista de estúdio para a CNN, como todo bom político, ele culpou o calor da campanha e baixou o tom. ?Quero abrir um diálogo com México e Canadá e descobrir como podemos fazer esse acordo beneficiar a população dos três países?, explicou. Traduzindo, não espere grandes avanços nesse bloco econômico nos primeiros meses de 2009.
Sem avanços e incentivos para o comércio entre Estados Unidos, México e Canadá, ganham as empresas brasileiras com grandes negócios com esses países ? principalmente a Embraer (EMBR3), que se livra, por enquanto, de ter a grande rival Bombardier (que é canadense) com mais vantagens na América do Norte. Também ganham as empresas farmacêuticas que têm os Estados Unidos como um dos grandes parceiros potenciais para seus produtos.
União Européia
De todos os blocos econômicos que existem hoje no mundo, o bem-sucedido é, sem dúvida, a União Européia. O euro, moeda unificada, surgiu cercado de dúvidas em janeiro de 2002. Como poderia dar certo uma moeda que uniria economias tão díspares como a alemã e a portuguesa? Alguns analistas ainda acham que o euro é muito jovem para ser considerado um sucesso, mas o mercado não quer nem saber ? abraçou-o com todas as forças. Os dois últimos focos de resistência à moeda, quem diria, estão dentro das fronteiras da União Européia.
» A Grã-Bretanha, que ainda não abre mão de sua libra, e nem cogita fazê-lo por enquanto.
» Os próprios europeus que teimam em não aceitar a Constituição da região, apoiados em sentimentos de identidade nacional, temores de perderem seus empregos para estrangeiros ou verem seus impostos aumentarem. Enquanto a Constituição Européia continuar a ser posta em votação, ela será rejeitada pela maioria dos países, como diria Millôr Fernandes: ?A democracia é um espeto/ Pra mim, é preto no branco/ Para ele, é branco no preto?.
Não foram, lógico, todos os membros que rejeitaram a Constituição, apenas França, Luxemburgo e Irlanda, mas foi o suficiente para tentar buscar novas alternativas. No restante, as leis que já foram definidas e colocadas em prática, o bloco funciona muito bem.
Agora, não é mais Alemanha ou Itália reclamando de algo, e sim toda a Europa tentando impor suas cotas de importação e subsídios para a agricultura. Além dos recursos, a questão da saúde de nossos rebanhos também atrapalha o comércio. O Brasil, nesse momento, está aos poucos sendo considerado área livre de febre aftosa.
Se todos os países da Europa são considerados um bloco, nesse caso, eles fatiam o Brasil: somente podem exportar carne para lá os estados de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Ganham as empresas brasileiras que exportam commodities e frigoríficos a partir de áreas já consideradas livres, como a Mafrig (MRFG3) e JBS-Friboi (JBSS3).
Além das commodities agrícolas e óleos brutos de petróleo (Portugal é um grande consumidor), a Europa compra do Brasil ferro e aço, beneficiando as empresas siderúrgicas em geral. Recentemente, também começou a importar álcool combustível. A sueca Sekab até fechou um grande contrato de compra com as usinas Cosan (CSAN3), Guarani (ACGU3), Nova América/Agroenergia (NAAG, mas no momento não tem ações disponíveis para negociação) e outras sem capital aberto.
Mercosul
O bloco econômico que mais deveria interessar o Brasil, entretanto, é o Mercosul. Nele, temos não apenas a proximidade geográfica como vantagem, mas também a posição de líder e principal força, dado o tamanho de nossa economia e mercado. O Mercado Comum do Sul continua avançando a passo de tartaruga. De bom nessa história está só a diminuição das disputas internas.
Recentemente, o diretor-executivo da Confederação Nacional da Indústria, José Augusto Coelho Fernandes, notou que o Mercosul é a região do mundo para onde o Brasil mais vende produtos manufaturados. Percebe-se facilmente isso pela forte presença de marcas como Havaianas (São Paulo Alpargatas, ALPA3), Brahma (AmBev, AMBV3), Petrobras (PETR3), Coteminas (CTNM3) e outras. Todas estão presentes no Mercosul, tanto com marcas próprias como comprando empresas locais.
Entretanto, nem sempre nossos produtos são recebidos. Há um certo temor de que os frigoríficos brasileiros dominem mercados tradicionais como o do Uruguai.
Se serve de consolo, o Mercosul parece estar se entendendo. Tanto que na recente reunião feita em 30 de junho entre os membros, a principal questão foi externa ? os subsídios que a União Européia insiste colocar em seus produtos agrícolas ?, em vez de interna (cotas para importação e exportação de produtos, etc.).
No entanto, a integração da América do Sul, capitaneada pelo Brasil e Argentina, ganhou um concorrente, se não à altura das idéias, pelo menos forte na retórica. A Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba) já conta com: Venezuela, Cuba, Bolívia, Nicarágua e Dominica, e ainda espera agregar o Equador, São Vicente e Granadinas.
Apesar da instabilidade de alguns países, o bloco econômico do Mercosul (ampliando com o acordo de livre-comércio com a Comunidade Andina de Peru, Equador, Colômbia e Bolívia) deve continuar a render bastante para os exportadores brasileiros.
Mas a grande oportunidade mesmo não vem de blocos econômicos, e sim de países selecionados pelo governo para receber tratamento especial.
Países-traders
O governo espera que o Brasil seja, até 2010, responsável por 1,25% do comércio mundial. Hoje, já somos responsáveis por 1,14 %. Assim, espera-se crescer 10% em dois anos, uma meta bem atingível. Para isso, elegeu seis ?países-traders?, parceiros preferenciais através dos quais os produtos brasileiros entrariam e se espelhariam em suas respectivas regiões.
Esses países-traders são:
» Chile na América do Sul ? Membro associado do Mercosul (apita bem menos que os membros efetivos) e da Cooperação Econômica Ásia?Pacífico.
» Panamá na América Central ? Sede da Zona Franca de Cólon, gigantesco entreposto comercial próximo ao Canal do Panamá, onde é possível comprar, vender e reexportar tudo.
» Turquia na Europa ? Candidato a membro da Comunidade Européia, com direito a usar o euro, e um dos países que mais cresce no mundo atualmente. Também é membro com o Brasil do G20, que reúne as 20 maiores economias do mundo (19 países mais a União Européia).
» Emirados Árabes no Oriente Médio ? Abu Dhabi, Dubai e companhia dispensam maiores explicações. Membro do Conselho de Cooperação do Golfo, bloco econômico que deve adotar moeda única a partir de 2010.
» África do Sul na África ? Quarta maior renda per capita da região e membro da Comunidade Econômica Africana, que pretende seguir os passos da Comunidade Européia e unificar a economia dos países da região até 2028.
» Cingapura na Ásia ? Especialistas consideram Cingapura o país mais amigável para negócios no mundo, além de ser membro de diversos blocos econômicos.
Como você viu na InvestMais de julho, a moeda unificada dos países do Golfo iria se chamar Khaleeji (?do Golfo? em árabe), mas um banco que usa esse mesmo nome reclamou, então, procura-se um novo nome. O símbolo, entretanto, já está decidido, é um ?G? cortado por um traço vertical, como no cifrão tradicional.
É bom ficar de olho nesses países e nos incentivos que o governo dará para quem quer negociar com eles. Visite sempre o site do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (www.mdic.gov.br) para se informar.
Colaboração: Brasílio Andrade Neto


