A conseqüência da conseqüência

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A conseqüência da conseqüência Um de meus ídolos na infância era o quadrinista argentino Quino, criador da personagem Mafalda. Ela costumava jogar xadrez com Felipe, um de seus melhores amigos. Lembro de uma seqüência de quadrinhos muito interessante, na qual Felipe visualiza uma jogada ótima e antecipa duas ou três possíveis reações de Mafalda. Dessas reações, ele imagina um contra-ataque excelente para cada uma delas. Além disso, antecipa as defesas dela e, já prevendo esses movimentos, planeja o último e derradeiro ataque fatal… uma seqüência de jogadas fantásticas, culminando num xeque-mate genial. Seu sorriso vitorioso é inconfundível.

Bem na hora em que ele vai fazer a primeira jogada, onde tudo começa… a seqüência na sua cabeça se embaralha toda, as peças se confundem, vira tudo uma bagunça. Desesperado, ele chuta o tabuleiro e berra: ?Não, não, não! Como é que era mesmo??. E cai de joelhos, em prantos. Mafalda, do outro lado da mesa, olha o amigo se descabelando e não entende absolutamente nada.

Chamo isso de ?Síndrome de Felipe? ? uma idéia maravilhosa que sai num lampejo de inspiração, e depois ninguém lembra direito como era. A verdade é que planejar dois ou três passos para a frente é muito mais complicado do que parece, pois você acaba trabalhando com o que os especialistas chamam de decision tree, ou árvore de decisões, em que cada passo ou decisão pode causar várias possíveis conseqüências.

No entanto, quem investe em ações tem de saber fazer isso se realmente quiser se definir como investidor. Se a economia anda em ciclos, e esses ciclos têm causas e conseqüências, será que podemos prever quais empresas serão beneficiadas e quais serão prejudicadas? E sem um Ph.D. em Economia?

Por exemplo: o que você acha que vai acontecer com o preço do petróleo? Se subir, quem ganha com isso? Petrobras? Quem mais? Lupatech? Quem mais? Quem é prejudicado? TAM, Gol? Quem mais? E se o Banco Central continuar subindo os juros para combater a inflação, quem vai ganhar e quem vai perder com isso? Bancos ? ganham ou perdem? Varejo ? ganha ou perde? Construtoras ? ganham ou perdem?

Veja que esse exercício simples e básico qualquer um consegue fazer. O difícil é prever o segundo movimento. A conseqüência da conseqüência… isso é realmente o que separa os profissionais dos amadores. Aliás, é o que separa os animais racionais dos irracionais e, dentro dos racionais, os mais inteligentes dos menos desenvolvidos.

Se tivermos uma característica forte que seja comum aos seres inferiores, seria o que poderíamos chamar de ?ditadura do curto prazo?, uma miopia intelectual que os impede de enxergar além do básico, do óbvio, do próximo movimento ? e só um. Em vez de se anteciparem, reagem, e então sua vida se transforma numa série de reações (note que estamos falando de animais, mas a lógica da ?ditadura do curto prazo? se aplica a seres humanos e investidores também).

Uma das grandes vantagens de participar de um clube de investimento, ou pelo menos de um grupo com quem você possa levantar questões a respeito desses assuntos, é justamente ter com quem discutir a segunda jogada, a terceira ou seja, a conseqüência da conseqüência. Pensando sozinho fica difícil antecipar tudo o que pode acontecer e geralmente acabamos presos ao básico e ao óbvio.

Inflação, índices de consumo, nível de emprego, nível de investimento, taxas de juro, câmbio, impostos, produtividade… tudo isso influencia a economia, nossa vida no dia-a-dia e, principalmente, o mercado acionário, os resultados financeiros e mercadológicos das empresas e também as tendências futuras.

O que se recomenda é que você pegue uma variável qualquer (inflação, por exemplo) e pense na conseqüência da conseqüência. Vá até onde conseguir e, de preferência, discuta o assunto com mais alguém. Só não se esqueça de colocar no papel, para evitar a Síndrome de Felipe. Você vai ver que sua maneira de investir (e até de pensar e tomar decisões) vai evoluir muito. A conseqüência da conseqüência ? isso é o que realmente interessa.

Abraço e bons investimentos,

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