Stephen Covey, em seu livro Os 7 hábitos das pessoas altamente eficazes, apresenta a figura de transição como sendo alguém que interrompe as atitudes prejudiciais e abusivas e as substitui por modelos positivos de comportamento. Consequentemente, não apenas sua vida muda para melhor como também a daqueles que o cercam.
Paulo Kretly, fascinado pelo assunto, passou a fazer vários questionamentos, dentre eles: “Como um simples ser humano igual a mim ou a você pode se elevar à condição de uma figura de transição?”. Em resposta a essa e outras perguntas, Kretly acabou escrevendo o livro Figura de transição: o poder de mudar gerações.
Em todos os períodos históricos e áreas de atuação, sempre existiram pessoas que, quando confrontadas com sistemas e hábitos injustos, preconceituosos ou prejudiciais, decidem não se conformar. Com uma poderosa convicção, elas não se detêm diante de pensamentos do tipo: “As coisas sempre foram assim”, “O que eu posso fazer sozinha?”, ou ainda “Fui criada dessa forma”.
E quem são essas figuras de transição? São aqueles indivíduos que se dispõem a enfrentar qualquer desafio ou oposição a fim de fazer sua parte e, por mais remotas que pareçam ser as chances de vitória, persistem, assim como o passarinho da fábula que, ao ver os animais rindo de seus esforços para apagar o incêndio na floresta com uma gota d’água contida em seu bico, limitou-se a lhes dizer: “Estou fazendo minha parte”. Por maiores que sejam os obstáculos, essas figuras de transição continuam confiantes. Por mais intensa que seja a pressão, não se rendem. E por suas ações e atitudes, triunfam, mudam para melhor suas vidas e a de muitos outros ao seu redor.
Características da figura de transição:
- Substitui hábitos, procedimentos e sistemas nocivos por outros mais úteis e benéficos.
- Conduz um processo de transição que resulta em mudanças positivas e duradouras que envolvem os demais.
- É proativa, recusando-se a cair no comodismo.
- Sempre se mantém fiel a valores baseados em princípios.
- Serve de exemplo positivo e, por isso, conquista a confiança e exerce influência sobre os outros.
- Quando comete erros, procura aprender com eles e corrigir sua rota.
- É perseverante sem ser obcecada.
- Sabe ouvir e valorizar os que a cercam.
- Provoca respostas positivas e estimula a cooperação dos demais.
- Tem consciência de que é uma agente de transformação, e não uma “salvadora”.
- Possui visão, criatividade e iniciativa, mas também sabe priorizar, planejar e se organizar para que tudo isso dê frutos.
- Não deixa que o sucesso lhe suba à cabeça nem que os fracassos a impeçam de prosseguir.
- Transfere conhecimentos e está sempre aberta ao aprendizado.
- Não reage automaticamente, mas escolhe as respostas que dará aos estímulos que recebe.
Observe como essas características se manifestam nas figuras de transição:
São Paulo, década de 1930 – A vida de Dorina Nowill mudou bruscamente aos 16 anos quando, após uma repentina hemorragia, ela perdeu a visão. “Jamais senti revolta por isso. Também não me conformei passivamente. Eu me adaptei e venci”, conta. Além de se adaptar à cegueira, ela ajudou inúmeras outras pessoas na mesma situação a se adaptarem, criando o primeiro curso de especialização em ensino para portadores de deficiência visual da América Latina. Depois, propôs uma lei, que foi aprovada, garantindo a matrícula de cegos em qualquer escola. Um de seus amigos, o escritor Erico Veríssimo, certa vez lhe disse: “Criaturas como você, com seu espírito e sua coragem, constituem um enorme crédito para a raça humana”.
Rio de Janeiro, década de 1940 –Não era nada fácil a vida de pessoas com problemas mentais nos hospitais públicos. Naquela época, tratamento com o eletrochoque ainda era uma prática comum. Mas a situação começou a mudar quando Nise da Silveira, médica especializada em neurologia, enfrentou os diretores do hospital, contrariando a mentalidade e costumes predominantes naquele período, ao se recusar a usar eletrochoques, psicotrópicos e camisa de força. Ao contrário disso, distribuiu tintas, pincéis e argila para os doentes, incentivando-os a se expressarem por meio da arte. E eles passaram a ter uma vida útil, em vez de serem tratados como incapacitados. As telas e peças produzidas pelos doentes, mais de 300 mil, foram elementos importantes na recuperação de muitos deles, e hoje compõem o acervo do Museu de Imagens do Inconsciente, um centro de referência para psiquiatras, terapeutas e psicólogos do mundo todo. Rejeitando expressões como “loucos” ou “pacientes”, Nise costumava dizer: “Elas são pessoas como as outras. Chamo-as todas pelos nomes”. Em 1990, uma fratura na perna a deixou em uma cadeira de rodas. Ainda assim, prosseguiu com seu trabalho até o fim da vida.
Belo Horizonte, década de 1970 – No momento em que decidiu montar uma empresa de aluguel de carros, Salim Mattar lembrou-se de um episódio ocorrido em sua infância. Certa vez, pediu ao pai que lhe comprasse uma bicicleta. O pai então entregou dois sacos e um canivete a Salim e lhe ensinou como colher as melhores laranjas. Depois, ele o levou aos portões de um estádio de futebol e o fez descascar as frutas, que ia vendendo aos torcedores que chegavam para assistir à partida. No fim do dia, o pai deu a Salim sua parte nas vendas – já deduzidas do custo dos sacos e do canivete. “Aprendi como comprar a bicicleta e o que mais quisesse na vida”, recorda-se Mattar. E de fato aprendeu. Tempos depois, ele abriu mão de um emprego confortável em uma mineradora para fundar a Localiza, empresa especializada no aluguel de veículos, que hoje é uma das maiores do Brasil. Ele demonstrou sua visão e espírito empreendedor, que o levaram a contrariar uma série de hábitos e crenças vigentes. Mattar sempre optou por investir quando os outros empresários decidiam suspender investimentos, arriscar quando resolviam não correr riscos, expandir-se quando viam o crescimento com cautela, e assim por diante. Outra característica marcante do empresário é o tratamento aos funcionários. Ele afirma que a valorização profissional é sua arma mais poderosa, por isso, distribui parte do lucro da empresa aos colaboradores.
Cada uma das pessoas cujas histórias você acabou de ler possui as características de uma figura de transição. Todas foram ou são proativas, persistentes e fiéis a seus valores. Elas buscam aprender, exercer sua criatividade, construir pontes entre os indivíduos, transmitir exemplos positivos, organizar seu tempo da melhor maneira possível, ser empreendedoras e, por fim, ter a consciência de que suas vidas não transcorreram em vão.
Ao escrever o livro, o objetivo de Kretly foi fazer com que cada leitor percebesse que está em suas mãos a decisão de se tornar uma figura de transição. Na verdade, todos se deparam com essa decisão a cada dia, hora e minuto. Sempre que você tem de escolher entre fazer o que é mais fácil ou o que é certo, entre agir ou procrastinar, persistir ou desistir, lutar por seus valores ou esquecê-los, ajudar ou dar as costas, você está decidindo se será uma figura de transição ou não. E é essa decisão que fará a diferença em sua vida profissional e na de seus liderados ou colegas e em sua vida pessoal e na das pessoas que o cercam.
Livro:Figura de transição: o poder de mudar gerações
Autor: Paulo Kretly
Editora:Campus/Elsevier


