O terceiro grupo de necessidades básicas da hierarquia de Maslow é o das Necessidades Sociais – as necessidades de conviver com outras pessoas e de pertencer a grupos, logo seguido pelas necessidades do ego – estima e apreciação.
Ambos os grupos envolvem necessidades psicológicas que exigem, para sua satisfação, o envolvimento de outras pessoas. Daí a importância, para si mesmo, da participação do homem na sociedade. Envolvendo-se com seus semelhantes, interagindo com eles em suas atividades, o homem satisfaz sua necessidade de companhia e encontra o esteio para as necessidades do ego.
Participar é conviver, é fazer parte. É viver junto. É dividir direitos e deveres e compartilhar responsabilidades. Mas é também integrar, ser aceito e, mais do que isso, ser estimado.
Participar é apoiar e ser apoiado. E pertencer ao grupo sem perder a individualidade.
Há muitos anos vem o homem descobrindo e renovando a descoberta de que a essência de sua própria natureza exige participação naquilo que o rodeia. O homem não suporta estar à margem. Se a vida, como expressam alguns, é um teatro, o homem certamente é ator, nunca – salvo as eternas exceções – espectador.
A gerência de empresas enfatiza cada vez mais a participação de todos como meio de melhorar a qualidade de vida e aumentar a produtividade. Autores e observadores que analisam as tendências futuras afirmam que a grande e poderosa arma do progresso social e empresarial na era da informática é a participação.
Cabe a cada um, portanto, no aprimoramento da habilidade de gerenciar a si mesmo, explorar e incrementar sua capacidade inata de conviver e de participar de tudo quanto ocorre em seu ambiente, contribuindo com sua parte e reivindicando o que por direito lhe cabe.
Como é natural em cada homem a necessidade que o impele à participação, quando essa não se efetiva natural e satisfatoriamente, provavelmente será o caso de, em vez de se ditarem regras para buscá-lo, investigar quais bloqueios a impedem de efetivar-se:
A timidez e o isolamento
Não são poucos os que se isolam e se calam. Alguns porque não sabem que têm algo a dizer, outros porque temem o que têm a dizer – temem pelos ataques que lhes parecem inevitáveis ou temem pelo ridículo que os farão passar (talvez o pior e o mais desastroso dos temores sociais seja o medo do ridículo). Alguns se calam porque se sentem eternamente inferiores à sua platéia. Há quem se cale por se julgar muito superior e não ver motivo para desperdiçar a sua fala.
E porque se calam se omitem e se marginalizam – não participam. E cada vez mais se afastam e se distanciam das pessoas.
Não deixa de ser agradável e estimulante, para muitos de nós, o afastamento, a convivência conosco mesmo. Ela completa, mas jamais substitui a convivência com alguns de nossos semelhantes.
O isolamento continuado deprime, entristece e nos deixa carentes, pois os outros são, muitas vezes, a fonte de satisfação de nossas necessidades.
A timidez que nos impede de nos lançarmos provém, freqüentemente, de uma profunda, e muitas vezes disfarçada, sensação de inferioridade ou de inexperiência de não sabermos fazer o que os outros fazem ou não conhecermos o que os outros conhecem.
Muitos desperdiçam boa parte da vida se encolhendo, fugindo de situações em que se sentem expostos, prometendo a si mesmos que da próxima vez será diferente – uma próxima vez que se multiplica e se afasta indefinidamente – apenas porque lhes falta a coragem (ou o pequeno empurrão) para experimentarem e descobrirem de vez que, tanto ou mais do que qualquer outro, são capazes ou podem se tornar capazes rapidamente.
É possível – apenas possível – que haja coisas que raríssimos homens, por um desvio qualquer em sua natureza humana, sejam capazes de fazer ou capazes de compreender ( aí poderiam, talvez, se enquadrar os gênios universais).
Mas aquilo que vários homens fazem, praticamente todos, bem ou mal, podem fazer. Basta, entretanto, aprender a praticar para descobrirmos que não é difícil; e quanto mais praticamos mais fácil se toma.
Muitas vezes deixamos de aprender algo ou de ter determinados tipos de experiência na época (ou idade) em que normalmente acontecem. Mais tarde, sempre que nos defrontamos com situações que as exigem, nos sentimos tímidos e marginalizados. Além da desagradável sensação do ridículo. Para não nos expormos a ela, ocultamos nossa ignorância ou inexperiência e passamos a evitar sistematicamente tais situações, fingindo para nós mesmos não serem importantes e prolongando indefinidamente nosso mal-estar.
Podemos evitá-lo assumindo, ainda que seja por nós mesmos, a nossa condição real, buscando pessoas na mesma situação e começando do princípio, que é onde tudo começa, a adquirir o conhecimento e a experiência que hoje nos falta. Sem sentimentos de culpa, que não cabem em nenhum lugar.
É importante também não esquecer que praticamente todas as pessoas, em determinado estágio da vida, são boas em alguma coisa: uns jogam basquete, outros escrevem contos, outros são bons motoristas, outros entendem de plantas e assim por diante, infinitamente. Muitos procuram impor-se no meio em que vivem pela exaltação e promoção daquilo que fazem bem. Um bom jogador de baralho procura agir e fazer com que todos à sua volta acreditem que toda a vida se resume no carteado, e ser um ás no jogo é ser o principal vencedor. No entanto, não há nenhum motivo para exaltá-lo tanto como ele quer. Pelo contrário, porque não exaltamos aquilo em que somos primordialmente bons?
Sentimo-nos tímidos e inferiorizados quando tentamos nos igualar e nos comparar aos outros naquilo que eles têm de bom, desprezando ou ignorando (e deixando que ignorem) aquilo que nós temos de bom.
Sentimo-nos rejeitados pelos grupos quando não acrescentamos nada a eles. Quando tentamos contribuir com aquilo que não temos, ao invés de acrescentarmos a eles aquilo que temos e que lhes falta.
A própria sociedade, de tempos em tempos, enaltece uma habilidade humana e deprecia outras. Não há porque, se temos a mente razoavelmente clara, nos menosprezarmos porque nossa habilidade não está na moda nesse momento, nem tampouco supervalorizar aqueles que têm a habilidade eleita daqueles tempos.
Também não custa, como faz a maioria, desenvolvermos em nós, ainda que parcialmente, a habilidade que está na moda, apenas para nos mantermos sempre à tona e convivermos com gente de nossa época, sem contudo desprezarmos aquilo que temos de melhor.
Ainda um lembrete que nos vem à cabeça (e que certamente ouvimos de alguém): pense o que pensar, seja qual for a idéia que lhe venha à cabeça, fale. Exponha-se aos quatro ventos, sem constrangimento, pois qualquer que seja ela, brilhante ou obtusa, encontrará muitos adeptos. Muitos aplaudirão com entusiasmo e muitos criticarão com vigor, além dos muitos que, pelo sim pelo não, ficarão em cima do muro – qualquer que seja a idéia.
Nada no mundo foi dito até hoje que não tenha sido aceito por alguns e rejeitado por outros.
Portanto, porque não afastar a timidez e participar?
De qualquer forma, se descobrirá maior e melhor do que se sente. No mínimo. descobrirá que gente é gente em qualquer lugar.
Os oposicionistas
“Hay gobierno? Soy contra.” A frase foi dita como piada, mas há gente que é contra qualquer tipo de governo, como há gente que rejeita visceralmente qualquer tipo de autoridade. O problema é que há muito mais gente que é simplesmente contra. Contra tudo o que se faz ou que se tenta fazer, contra tudo o que se diz. Não pode ser propriamente contrário a esta ou àquela idéia – mas, por temperamento oposicionista, talvez ditado pela necessidade de se destacar, de ser diferente ou até mesmo de ser único. São aquelas pessoas sempre dispostas a discutir inflamadamente qualquer afirmação que se lhes faça, ainda que inócua, apenas para “pegar” e exibir o erro do outro na ponta de um mastro, como uma bandeira. Jamais aceitam um contra-argumento e sempre transmitem a impressão de que a verdade é propriedade inalienável sua – coisa de maior intimidade, que não pode andar por aí, na boca dessa gente.
Quase sempre um (ou uma) perfeccionista, não por amor à perfeição, mas pela necessidade de estar sempre pronto a descobrir erros ou mesmo ligeiras imperfeições (que faz tudo para tornar maiores do que são) nas idéias e feitos dos outros.
É o argumentador e contestador por excelência. Em qualquer grupo bloqueia as discussões, dificulta toda e qualquer conclusão e perturba a ação. Nunca soma – sempre subtrai. Não multiplica – divide!
Pode até ser admirado pelo seu brilhantismo, mas é freqüentemente rejeitado. Acaba-se por concordar com ele apenas para fugir ao desgaste de mais uma discussão. Mas não se aceitam as suas idéias, que muitas vezes não são ouvidas e nem levadas a sério.
Torna-se um individualista, e o próprio grupo o percebe como tal. Portanto, não participa e nem pode fazê-lo, tal a sua incompatibilidade com o grupo.
Todo mundo gosta de ter a sua vez e de sentir-se, vez por outra, com a razão a tiracolo. Qualquer um de nós, no grupo, tem um ou mais pontos fortes que gosta de ver reconhecidos e apreciados. Pelo menos, respeitados.
O oposicionista radical nega a todo esse grupo a oportunidade. O grupo exclui. Ele sabe tudo – vai ter de arranjar-se sozinho.
A turma do desvio
São aqueles que nunca estão no trilho certo e geralmente na direção errada. Enquanto o grupo se une na perseguição de um objetivo, sua meta pessoal é outra. Não importa se certa ou errada, se vantajosa ou não – apenas não há casamento de interesses com o grupo. Está sempre divorciado deste último em idéias e/ou comportamentos. Não desgosta do grupo e nem ajuda. Mas não pertence a ele – falam línguas diferentes e seguem caminhos diversos. Não participa. Nem tampouco se mostra o grupo interessado por sua participação.
Os extremados
Num dos extremos, os superagitados – impulsivos, impacientes, querem tudo na hora. Forçam demais o ritmo do grupo e não lhe deixa tempo para pensar e decidir conscientemente sobre suas ações. O grupo geralmente “empaca” e deixa que ele vá em frente. Sozinho.
No outro extremo, os excessivamente frios, cautelosos e indiferentes. Não vibram, não se comprometem, não se expõem. Permanecem sempre na retaguarda do grupo. Quase sempre sozinhos.
Os constrangedores
Se estivéssemos fazendo uma análise didática, nos sentiríamos tentados a dividir os constrangedores em 2 grupos, ambos igualmente evitados pela comunidade em que se inserem (com dificuldade, pois tendem muito fortemente a ser expulsos):
A) Os fracos apesar da franqueza ser, até certo ponto, uma característica bem valorizada por nossa sociedade, poucos são os francos bem aceitos. Isso porque os francos, em sua maioria – justamente aqueles que se autodenominam “francos” com indisfarçável orgulho, tem da palavra franqueza um conceito bastante peculiar: “franqueza é o inalienável direito unilateral de dizer com todas as letras todas as grosserias que vierem à cabeça, na cara do interessado”. Alguns comportamentos são característicos de tais francos:
1) Só expressam as verdades que lhes são convenientes. As outras, eles não as omitem; simplesmente fingem até para si mesmo que não existem.
2) Fazem questão de falar, alto e claro, para quantos queiram saber, exatamente aquilo que sabem de antemão que o outro não quer ouvir, ou não quer que ouçam ou sobre o que evitam comentar. Isso, sim, é para eles o auge da franqueza. Por isso, jamais falam uma só vez, sempre repetem. E repetem, repetem… E quando o outro, ainda assim, tenta disfarçar ou ignorá-los, tendem a se tomar mais e mais agressivos.
3) Não reconhecem em ninguém (excetuando naturalmente a si próprio) o direito sagrado de reservar para si suas próprias intimidades.
4) Arvoram-se inevitavelmente em juízes universais dos homens e depositários exclusivos e absolutos de todas as verdades.
5) Não suportam críticas. Abominam a “franqueza” alheia, que para eles é agressão ostensiva e ofensa pessoal.
6) Vêem sempre seus valores e seus atos como exemplos e parâmetros para medidas dos valores e atos de toda a humanidade.
b) As vítimas – Na falta de um muro de lamentações, vivem à cata de um outro para chorarem suas desditas e suas lágrimas. Sempre têm um motivo fortíssimo para sofrer e se mortificar. Tudo lhes é adverso. A doença que o vizinho tira de letra, para ele é o fim de tudo – no mínimo, a ante-sala do purgatório.
As vítimas são, a princípio, respeitadas e bem aceitas, servem perfeitamente aos propósitos inconscientes do grupo de expiar suas próprias culpas através da pena, da solidariedade, do conforto espiritual (e às vezes até material). Mas, com o passar do tempo, a aderência no cotidiano e o prorrogar dos queixumes e dos lamentos, costumam os amigos dos infortunados adotarem comportamento oposto e até mesmo afirmarem chulamente que “não há saco que agüente”.
Uma característica das vítimas é cultivar o sofrimento. E alimentar com cuidado todas as situações que possam permitir-lhes angariar juros e dividendos sobre as mais cruéis desditas. Os constrangedores seguem atrás dos grupos, tentando participar. Mas os grupos disparam sofregamente tão logo percebem no ar a poeira de sua presença.
Os fofoqueiros
Esses são os mais terríveis destruidores de grupos e solapadores da convivência humana. São os leva-e-traz. Ouvem de um, passam parra o outro, nunca do mesmo tamanho – sempre aumentando e deturpando, colorindo com o seu maucaratismo. Não nos referimos aos “boateiros” que não deixam de ter conotações negativas e também prejudiciais, mas aos verdadeiros fofoqueiros, aqueles que têm compulsão, e mesmo prazer, em semear a discórdia, em caluniar e difamar. Aqueles cujos olhos brilham e a voz se reduz e treme de emoção ao contar “a última do…”
O fofoqueiro penetra nos grupos, mas uno participa deles. Não tem amigos. Os que o ouvem fazem-no apenas pelo interesse de “saber das novidades…” (o que não deixa de ser um lado fofoqueiro também). Mas só o usam nesses momentos. Não confiam nele.
Os paneleiros
A seqüência de ação dos paneleiros é:
1) Entrar no grupo demonstrando comungar integralmente com seus interesses.
2) Relacionar-se com todos os membros do grupo, esbanjando comportamentos que angariam simpatias.
3) Chegar-se mais intimamente a alguns membros do grupo e, nos bastidores, exaltar as afinidades e cultivar desavenças – ou dessemelhanças de comportamentos e atitudes – “deles” com os outros membros do grupo.
4) Colocar pouco a pouco em dúvida os objetivos do grupo ou os procedimentos então em prática para alcançá-los.
5) Criar a cisão de seu grupinho, já coeso e o restante do grupo.
6) Promover a criação de vários subgrupos – as famosas “panelinhas” – dentro do grupo, até destruí-lo totalmente.
As panelinhas são os antigrupos, os antiparticipação. Ou, melhor dizendo, para eles só existe um tipo de participação: a deles (e só eles comandam e os outros seguem). Mas nem todos são seguidores por vocação. A maioria prefere – sobretudo nos dias de hoje e, pelo visto, cada vez mais – a co-participação que garante os direitos, deveres e, igualmente, a individualidade de todos. São comuns as “panelinhas” em qualquer grupamento humano, mas quem quiser vê-las em maior evidência, procure-as no esporte, na política e na empresa.
A turma do eu sozinho
São os auto-suficientes – cada um por si. Sua característica mas comum é se acharem superiores a todo mundo. Nada lhes pode ser ensinado, porque sabem tudo. Em nada podem ser ajudados, porque não dependem de ninguém. Não se pode conviver com eles, a não ser como humilde servo ou capacho, porque são presunçosos e prepotentes. Em sua visão, os outros existem para servi-los e, sobretudo, para aplaudi-los. Mostram-se sempre superiores. Com isso, tendem a fazer com que todos os outros se sintam inferiores; como ninguém gosta de se sentir inferior, simplesmente os rechaçam.
Não encontram apoio nem mesmo entre seus pares – os outros auto-suficientes e prepotentes.
Esses tipos, e provavelmente alguns outros, têm dificuldade de convivência e, mais ainda, costumam sentir-se eternamente privados da satisfação da necessidade fundamental de ser estimado e apreciado.
Ainda à margem da participação encontram-se os eremitas, aqueles que vivem isolados por opção própria, que por algum motivo escolheram essa forma de vida. Talvez suas necessidades de convivência e estima estejam naturalmente rebaixadas, como a grande exceção da natureza humana. Talvez se sintam bem assim, talvez não. Mas se escolheram por sua própria vontade, é uma forma de gerenciarem conscientemente a si mesmos. A eles, o nosso respeito.
Para os demais, como nós participarem, é essencial evitar jogar no time dos grupinhos que acabamos de discutir. O importante para a participação é a comunhão de interesses e integração.
Quando as pessoas descobrem que têm interesses em comum e que as mesmas metas satisfazem as necessidades de todos, elas se integram. E a integração é representada pela coesão do grupo, pelo envolvimento de todos e pelo comprometimento com os valores e com os resultados, pois esses favorecerão a todos na sua realização pessoal – no âmbito de sua individualidade – e na medida da contribuição de cada um.
Integração é, afinal participação de todos.
Extraído do livro “A gerência de si mesmo de Antônio Walter A. Nascimento. Summus Editorial. Este livro faz parte do acervo do catálogo Venda Mais e pode ser adquirido com a Cláudia: (041) 336-1613.


