Ex-diretora do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Ex-diretora-presidente da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional). Ex-diretora do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Ex-diretora-presidente da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional). Maria Sílvia Bastos Marques é uma das poucas pessoas que consegue negociar e lidar com o FMI e com os peões de uma siderúrgica. Elogiada pela revista Time, por governantes e empresários, ela tem muito a ensinar para você. Confira a entrevista:
L&S: Na sua opinião, qual a melhor forma de enfrentar desafios?
Maria Marques: Eu tenho um pouco de atração por problemas e desafios. Fiz parte do governo Collor, primeiro na negociação da dívida externa, depois no programa de privatização. Foi complicado, aquela agitação de denúncias e impeachment, e eu tentando fazer um trabalho técnico que não tinha nada a ver com política, mas era afetado mesmo assim. A melhor forma de encarar tudo isso é entender que mesmo o líder não sabe tudo. Saiba os seus limites na sua função, busque ajuda, o apoio da equipe. E principalmente cerque-se de pessoas boas e competentes. Tenho pessoas que trabalham comigo há 15 anos, são meus braços direitos e esquerdos. L&S: Você foi a primeira mulher a presidir a CSN. Isso lhe trouxe dificuldades?
MM: Olha, a CSN, a área de siderurgia é um mundo supermasculino, mas não foi só isso. Eu não entendia nada de siderurgia, não sou engenheira, estava grávida de gêmeos. Mas achei um negócio muito interessante e não parei para pensar se ia conseguir ou não. Achei empolgante a proposta de trabalho e fui. É preciso saber pegar as oportunidades. Dá medo? Dá, mas do medo, a gente cuida depois. O fato de ser mulher, baixinha e magrinha até ajuda. As pessoas levam um susto quando me conhecem porque esperavam uma mulher grande, dura. Eu sei ser dura, mas de uma forma jeitosa. Isso é muito importante.
L&S: O que é liderança para você?
MM: Liderança é liderança, é algo que as pessoas têm, é uma forma de fazer um pouco diferente. Uma coisa é chefia e outra é liderança. A liderança é mais natural, é uma conquista diária. A chefia vem da função, não da pessoa. E eu acho que as mulheres têm características um pouco diferentes das dos homens, o que não quer dizer que não existam homens que não tenham essas características. Eu conheço muitos homens que têm características da liderança feminina e mulheres que não têm. Mas eu acho que são predominantemente femininas, como lidar melhor com a equipe, com o time. As mulheres sabem tratar melhor uma equipe, elas se interessam pelas pessoas, é mais natural para elas trabalhar em equipe. O homem em geral tem a tendência em trabalhar melhor sozinho. E muitas vezes quando trabalha em equipe age, na hora de apresentar os resultados, como se tivesse feito aquilo sozinho. A mulher é mais agregativa, e possui a capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Isso é muito importante, conseguir dedicar a mesma atenção e a mesma profundidade, o mesmo interesse a diferentes assuntos não é uma coisa fácil. A gente tem isso naturalmente, acho que até pela questão cultural (cuidar da criança, da casa, faz isso, faz aquilo…nós fomos preparadas para isso). E pode usar isso como diferencial no nosso trabalho, na nossa liderança.
L&S: Liderança então nunca é imposta?
MM: Nunca. Tem uma coisa que é muito importante: autoridade. Eu sou uma pessoa que sempre soube exercer autoridade. Não tenho dificuldades com isso, em comandar um time, comandar uma equipe e fazer as coisas acontecerem, o que é diferente de ser autoritária. Uma coisa é você conquistar a liderança e outra é impor. Eu consegui conquistar as pessoas da CSN apenas tratando-as como pessoas, falando, conversando, até me vestindo como elas. Toda semana eu ia até a usina vestindo uniforme de peão. Era muito engraçado, as pessoas perguntavam quem era aquela grávida maluca conversando com funcionários perto do metal derretido, de máquinas pesadas. Ao sair de lá, recebi uns 400 e-mails de funcionários, principalmente de chão de fábrica, dizendo que aprenderam a me conhecer, respeitar e ver que eu sabia gerir o negócio, mesmo não entendendo de siderurgia.
Maria Sílvia Marques dirige a MS & CR2 Finanças Corporativas, uma sociedade entre ela e a CR2 Administradora de Recursos, além de realizar palestras sobre liderança e negócios. Mais informações: www.cr2.com.br