O que Durval Lelys faz para ter sucesso em seus empreendimentos?
Há 60 anos, quando a dupla Dodô e Osmar começou a encantar multidões com suas músicas e guitarras elétricas em cima de um trio elétrico, eles não poderiam imaginar que as ruas de Salvador, na Bahia, nunca mais seriam as mesmas. Esses dois amigos se tornaram fonte de inspiração para dar asas aos sonhos de muitos foliões. Até mesmo para o arquiteto e músico Durval Lelys, vocalista da banda Asa de Águia.
Em um bate-papo exclusivo à VendaMais, Durval contou que, quando via Dodô e Osmar, acreditava que um dia faria o mesmo – tocaria no trio elétrico, teria um bloco de carnaval e se divertiria. No entanto, o que ele não sabia era que seus sonhos não parariam por aí, pois acabou descobrindo o seu lado empreendedor, tão latente quanto o de músico. “Eu não queria ficar só na arte, desejava fazer coisas diferentes. Como sempre acreditei nos meus sonhos, fui atrás do que me motivava e comecei a abrir um leque de ramificações para novos empreendimentos dentro e fora da música”, diz.
O início
Em meados dos anos 80, Durval trabalhava como coordenador de projetos do extinto Banco Econômico, além de já tocar em um pequeno bloco de carnaval. Com a chegada do Plano Cruzado, a instituição decidiu não investir mais no departamento em que ele trabalhava. Foi então que Durval aproveitou o momento e optou por sair do banco para abrir, em parceria com Marcelo Brasileiro, arquiteto e amigo que fez nos tempos do Banco Econômico, um escritório de arquitetura. “Comecei a levar as duas coisas em paralelo, pois o que eu sempre quis foi empreender. Por isso, continuei como diretor do bloco para poder colocar em prática minha ambição de jovem e não só ficar acomodado em um bom emprego”, ressalta.
Até que o inesperado aconteceu: o pequeno bloco começou a dar dinheiro, a tomar uma projeção muito grande e ele então começou a vislumbrar a possibilidade de crescer financeiramente investindo no carnaval de Salvador. E assim nasceu a banda Asa de Águia. A partir de então, a coisa seria para valer!
A diferenciação na sociedade da empresa
A sociedade de Durval com Marcelo Brasileiro não ficou restrita somente aos projetos arquitetônicos, embora os acompanhem até hoje. Com o sucesso do Asa, eles abriram juntos a Duma Produções – empresa responsável pelos eventos da banda. A intenção, segundo Durval, era possibilitar que um tomasse a frente do lado artístico e o outro a do empresarial. “A gente queria ter a marca de uma banda musical em que os donos pudessem trabalhar de forma separada, e acredito que a Duma seja a única empresa no mercado que tenha essa prática. Marcelo e eu somos donos do Asa em 50% cada um, não é como a gente vê por aí: um artista e um empresário. É um negócio mesmo, e esse sempre foi o nosso maior foco!”, afirma.
A inovação constante
Desde o início, a inovação esteve presente na vida de Durval, sendo um dos pioneiros na criação do carnaval fora de época. Além disso, ele e Marcelo criaram vários eventos para o público do Asa, como a Trivela, que é um minitrio puxado por um trator, o Asa Beach, em que o palco fica na beira da praia, o ArraiAsa, que é como uma festa junina, e o Asa Country, um projeto com o lado country do Brasil, como descreve Durval. O objetivo, segundo ele, foi criar uma relação de interatividade entre dois estilos musicais diferentes – unir as características do sertanejo com o estilo do Asa. “Somos amigos de vários artistas de outros estilos musicais, então resolvemos ousar e fazer uma festa com o Asa no trio e outro artista no palco”, comenta.
A fidelização
Durval é, há mais de 15 anos, um dos maiores arrecadadores de direitos autorais do Brasil em execução de shows, segundo o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad). Afinal de contas, ele criou grandes sucessos como Dança do vampiro, Dança da manivela, entre tantos outros. Mas será que esse é o segredo para levar milhares de pessoas a pagarem caro para sair no bloco e ouvir praticamente as mesmas músicas em dias seguidos?
Durval faz questão de responder o que cria a fidelização de seu público: “Em primeiro lugar, a nossa música, pois se viram sucesso é porque as pessoas gostaram, então isso favorece a banda. O Asa tem essa força. E em segundo está o carisma do artista. Eu represento bem o estilo da minha música, crio personagens, sou um carnavalesco. Além disso, por termos sido pioneiros em alguns eventos, temos hoje o reconhecimento do público porque somos originais. Seria a explicação mais redonda disso tudo – quem chega primeiro numa hora dessas vai ficar com grande foco de mídia, não é?”.
O pensamento estratégico para o futuro
Em média, a banda faz cem shows por ano: essa é a atual rotina dos integrantes do Asa de Águia. Mas até quando esse pique vai continuar? Como todo grande empreendedor, Durval já está pensando lá na frente, com o Groove Studio, um lugar em que gosta de estar e investir. “É o meu xodó, o meu hobby predileto”, diz, sorrindo. Segundo ele, o Groove nasceu de um sonho e de uma necessidade. “Eu sei que daqui a uns anos não vou mais estar na estrada fazendo shows, porém estarei dentro de um estúdio gravando porque não vou parar de trabalhar com música nunca. É uma projeção para o futuro, para que eu possa ter um trabalho voltado à música e adaptado ao meu conhecimento de diretor, produtor, músico, criador, etc.”, explica.
Além disso, Durval faz questão de frisar o fato de que, nesse caso, o aspecto comercial não é o mais importante. “Com o tempo, a gente viu que esse era o lado que menos importava, porque um estúdio não dá dinheiro. O que você ganha é inversamente proporcional ao que investe. Por outro lado, isso lhe dá status no meio musical, pois você começa a ter uma boa relação com donos de gravadoras, produtores, diretores, etc. Tudo aliado ao fato do reconhecimento de que existe um bom estabelecimento em prol da música do Brasil, que dá, até mesmo, a oportunidade de outros músicos terem seu material bem produzido, bem gravado, com boa qualidade, gravados no Groove, que é reconhecido como um dos melhores estúdios do País”, garante.
Os constantes investimentos e a diversificação
Há pouco mais de um mês, Durval inaugurou aPousada Restaurante e Estúdio Triboju, em Fernando de Noronha, PE, em sociedade com Ju Medeiros, artista local do arquipélago, que tem a concessão do terreno e a licença para a construção da pousada. “O projeto possui quatro bangalôs de dois quartos (um térreo e um superior) e um bangalô maior, com um restaurante em baixo e um estúdio em cima, pois a ideia é dar também a possibilidade de artistas gravarem em Fernando de Noronha”, revela.
E outros empreendimentos no ramo hoteleiro estão por vir. Em uma área de 400 hectares, em Itacaré, na Bahia, onde mais da metade da área é Mata Atlântica, Durval antecipa que há, já em fase de aprovação pelos órgãos competentes, um projeto de construção de cem lotes residenciais, um campo de golfe e um hotel de cinco ou seis-estrelas.
A preocupação com o ambiental e o social
Mas não são apenas os turistas que estão à espera dessa autorização. Os animais também. Isso porque está em andamento o projeto de criação do Centro de Reabilitação de Animais Silvestres da Mata Atlântica (Creasa) – um espaço que funcionará como um hospital para animais apreendidos e/ou acidentados.
Para Durval, cada vez que ele consegue otimizar essa execução, percebe que tem mais tempo para defender outras causas e novos projetos: “Você vai se tornando empresário, então, se a gente conseguir estabelecer um equilíbrio entre o objetivo comercial e o pessoal – e só conseguimos isso depois que alcançamos uma estabilidade –, quando passa do sufoco de sobrevivência, é que se deve perguntar: ‘Para que eu vim ao mundo?’. Então percebemos que devemos fazer algo que possa somar, mostrar alguma coisa também de colaboração socioambiental”.
De acordo com ele, o bloco do Asa foi mais uma vez pioneiro no carnaval da Bahia, dessa vez por promover a Cortesia solidária. Há nove anos, cada convidado do bloco que recebe um abadá como cortesia paga 10% do valor para uma entidade filantrópica. Como a cota é de 500 cortesias e o abadá não é barato, estima-se que a arrecadação gire em torno de 100 mil reais.
Os projetos próprios
Além de cantar, compor e se dedicar à esposa, seus dois filhos e a todos os familiares e amigos, Durval ainda encontra energia para tocar seus projetos pessoais como designer, em sua empresa particular, sem vínculos com a banda Asa e seu sócio Marcelo Brasileiro. “Desenvolvo o design de bancos de couros para carros. É o meu projeto mais novo e está indo de vento em popa…”, ressalta. Durval ainda coloca sua assinatura em uma linha de móveis para sala. “É uma parceria que desenvolvo com uma empresa que trabalha na fabricação de móveis com madeira reciclável e de demolição. Como procuro alinhar tudo o que eu faço com a arte, batizei os móveis com o nome de músicas que criei: Cocobambu, Padang e Gladiador”, ilustra.
A chave mestra do empreendedorismo
Mesmo com todos os bons exemplos acima, agora, ao fim da leitura, ainda é possível que você esteja se perguntando: mas como Durval consegue sucesso em seus projetos?
Eu poderia tentar responder com base em nossa entrevista, mas achei melhor deixar ele mesmo dar a dica a vocês. Aproveitem e bons negócios!
“Em primeiro lugar, o fundamental é acreditar nos seus sonhos. Depois, adquirir respaldo cultural e o preparo, que é o conhecimento executivo, pois, para ser um empreendedor, é preciso criar suas bases, porque é justamente essa estrutura que está por trás dos seus sonhos. Sem isso, você não vai conseguir empreender. Eu devo tudo à minha qualificação intelectual, mas eu fui atrás, busquei isso. Cursei a faculdade de música até os 18 anos e só não me formei porque optei pela arquitetura. Acabei fazendo as duas em paralelo. Fiz a música na essência e, na arquitetura, eu atingi meus objetivos. Até hoje as duas estão envolvidas comigo. Além disso, você deve se planejar e saber que, com um salário mínimo, por exemplo, você já tem que saber identificar o que é gasto pessoal, gasto de investimento e de manutenção. Se você tiver equilíbrio entre esses três focos, com certeza será um empreendedor de sucesso!”, finaliza.


