A criatividade do profissional de finanças

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A criatividade independe da sua área de atuação. Ela simplesmente acontece, e pode ser aprimorada. Já percebi olhares maliciosos quando comentei sobre meu trabalho para a área financeira. Para alguns, o uso profissional da criatividade em finanças e, principalmente, em contabilidade remete ao ?jeitinho brasileiro? no seu pior significado. Nada mais longe da realidade. O profissional de finanças não pode ser o detentor do não. Lembrando uma das famosas frases de Domenico de Masi, sociólogo italiano e autor de mais de dez livros sobre criatividade nas organizações: ?O não é o oposto da criatividade?. O papel da área financeira é apoiar, não intimidar.

Isso significa transcender o balancete, ter um olhar empreendedor. É sinônimo de pensar além do orçamento, ter visão de longo prazo e considerar inclusive resultados intangíveis, como a motivação dos colaboradores e a imagem institucional da empresa.

As áreas de contabilidade e finanças têm e sempre terão muito poder nas empresas, mas passam rapidamente do controle para a influência, apoiando as outras áreas em seus projetos e sobretudo ouvindo, ensinando e negociando.

Conforme enfatiza o diretor financeiro Guilherme Kalili, o profissional de finanças deve gerar empatia e entender os pontos de vista de seus colegas, e só se beneficia ao mostrar aos demais quais são suas necessidades. Na verdade, cada negociação que a área financeira tem com as demais deve ser vista como uma oportunidade para o aprendizado mútuo e, portanto, ele é um facilitador das demais.

Mas ao falar de profissionais de finanças estamos falando de pessoas altamente lógicas, com muito conhecimento e que tendem a exercitar um pensamento estruturado. Mas essas competências os impedem de se tornarem criativos? De forma alguma. Ser criativo é uma escolha; uma habilidade.

Há momentos que exigem lógica e extrema racionalidade, outros que demandam abertura e busca de alternativas. Para Edward de Bono, uma das maiores autoridades mundiais em criatividade, o que faz a diferença é o hábito de ?pensar sobre como pensar”, ou seja, direcionar a mente em função do tipo de pensamento que irá gerar os melhores resultados diante de cada situação. E na medida em que há consciência do tipo de pensamento que está sendo utilizado, o pensamento criativo é meramente uma opção. E alguns procedimentos, como os mencionados abaixo, só podem contribuir:

Pense sempre em várias alternativas ? Alternativas devem ser criadas mais do que procuradas. O fato de alguém não ver alternativas não significa absolutamente que elas não existam, significa apenas que elas ainda não foram geradas.

Saia do dualismo ? A civilização judaico-cristã condicionou as pessoas a ver o mundo de forma dualista ? há sempre o bem e o mal, o certo e o errado. Apesar das pessoas terem consciência das sutilezas e complexidades existentes entre dois pólos, podem tender a reduzir as soluções a um simples sim ou não.

Explore possibilidades ? O julgamento é um exercício constante entre tomadores de decisões. Entretanto, ele não deve ser a primeira reação a uma proposta. Sugiro uma atitude inicial exploradora, uma reflexão sobre o potencial da idéia. Não é preciso aceitar ou rejeitar uma proposta integralmente, a busca deve ser sempre no sentido de aproveitar o que há de bom ou especial em cada situação.

Esteja preparado para as surpresas ? Nos Estados Unidos, os bancos lançaram os caixas automáticos tendo em mente um público de executivos. Mas os principais clientes dos caixas automáticos no início foram os imigrantes, pessoas que, pela dificuldade com o idioma inglês, não gostavam de se dirigir ao caixa. Houve um erro de previsão? Talvez. Mas e daí? Em vez de se preocuparem com erros e culpados, os bancos passaram a localizar seus caixas automáticos nos bairros onde moravam os tais imigrantes. Quem acredita que fazer dar certo significa fazer algo acontecer da forma que havia previsto, não percebe as oportunidades embutidas naquilo que não conseguiu antever.

Não é difícil ser criativo: envolve vontade e consciência de como fazer para sê-lo. Depois disso, vem a prática. Inevitável, pois a demanda é imensa.

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