A estratégia da criatividade

O guru Edward de Bono ensina a utilizar e desenvolver a habilidade do pensamento lateral como ferramenta competitiva para obtenção de resultados mais eficazes nas organizações

Lord Sandwich era tão viciado em jogo que não abandonava o carteado nem para comer. A necessidade de suprir a fome fez com que colocasse em prática sua criatividade e inventasse uma nova forma de se alimentar. O conde inglês pedia a seus empregados que deixassem preparados pães cortados e recheados com queijo, manteiga, salame e presunto. Assim, sem parar de jogar, ele comia com praticidade e rapidez. Em 1959, a norte-americana Bertha A. Dlugi, cansada de ver seus periquitos sujando a casa, criou uma fralda para eles.

A invenção do sanduíche, no século 17, mudou não só a forma de alimentação das pessoas, mas o comportamento da sociedade. Mas e a fralda para os periquitos, causou alguma mudança significativa no mundo?

Por mais óbvio que nos pareça hoje a invenção do sanduíche ou a fralda para periquitos, ninguém pensou neles antes de seus inventores. ?Qualquer idéia criativa parece lógica se vista em retrospectiva, mas deve ser lógica também se olharmos para a frente?. A afirmação é do mestre em criatividade Edward de Bono, que esteve recentemente no Fórum Mundial de Alta Performance, realizado pela HSM Group em São Paulo. De Bono inventou o conceito de pensamento lateral, uma tentativa de resolver problemas através de métodos pouco ortodoxos ou aparentemente ilógicos. Professor em Oxford, Cambridge e Harvard, é autor de Six Thinking Hats (seis chapéus pensantes) e mais de 60 outros livros. De Bono defende que o cérebro humano não é projetado para ser criativo e sim para aceitar padrões estáveis e rotineiros. ?Todos os sistemas que fogem ao padrão são assimétricos, como o humor. Sempre que temos uma idéia criativa, depois ela se torna lógica. Por isso, toda idéia criativa é lógica?, explica.

Inteligência – As inteligências de cada um, então, precisam ser usadas em paralelo e não umas contra as outras. Segundo de Bono, ?às vezes as pessoas inteligentes caem na armadilha da própria inteligência. Alguém que sabe pensar e desenvolve esta habilidade pode ser bem mais eficaz. Ensinar a pensar pode ter um efeito muito poderoso?. E isso envolve todas as áreas de uma corporação, facilitando a compreensão e a gestão das diferenças e gerando empatia nas relações de trabalho. Basta ver que empregados de uma empresa, usando essas técnicas de pensamento, geraram 21 mil idéias numa única tarde.

Pensamento criativo – De Bono afirma que há duas formas de desenvolver o pensamento criativo: fazendo o que já fazemos de um jeito melhor, ou utilizando a criatividade para fazermos coisas melhores. Podemos dizer então que o sanduíche, com toda a sua simplicidade, não é uma ?loucuratividade? (que o professor define como fazer diferente para ser diferente apenas) e sim o resultado de um processo criativo gerado a partir de uma forma diferente de pensar.
?Qualquer sistema que tenha input precisa ser mudado ao longo do tempo porque as coisas mudam?, explica De Bono. Isso só é possível se você utilizar um pensamento lateral baseado na lógica da percepção. Parece complicado, mas não é. Criatividade é um tipo lateral de pensamento, difícil de desenvolver porque contraria hábitos tradicionais de raciocínio lógico que julgamos úteis.

Nas empresas – No Brasil, cerca de 2% das corporações são criativas. Por isso, podem cobrar 30% a mais que as outras. Mas atenção, que há várias maneiras de ser criativo profissionalmente. Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos mostrou que pessoas altamente criativas produzem mais sozinhas do que em grupo e que indivíduos menos confiantes criam mais em grupo. ?Penso que precisamos dos dois: individual e grupo. Na empresa, o ideal é ter alguém destinado a motivar a criatividade, como temos um diretor financeiro ou um diretor de marketing?, diz de Bono.

Pensamento Lateral – O conceito de pensamento lateral criado por Edward de Bono consiste na geração de novas idéias e no abandono das obsoletas. Ele distingue o pensamento lateral (descontínuo e destinado à geração de idéias) do vertical (contínuo e orientado para as desenvolver). ?Enquanto o pensamento lateral dá idéias, o vertical desenvolve-as?, explica. De Bono afirma que desenvolver o pensamento lateral é uma habilidade que pode ser aprendida, praticada e aplicada. Acompanhe na tabela as principais diferenças entre as duas formas de pensamento:

Pensamento Vertical Pensamento Lateral 
Pensamento lógico tradicional Gera idéias novas e o abandono das antigas
Continuidade como característica distinta Descontinuidade como característica distinta
É o tipo de raciocínio que utilizamos quase o tempo inteiro Busca evitar o óbvio
Escolhe, é seletivo. Tem como propósito a estabilidade Modifica, é gerativo. Tem como propósito o movimento
Busca encontrar uma resposta satisfatória que possa ser aceita como definitiva Não reconhece a adequação de uma solução, sempre tenta buscar outra melhor
Procura respostas Procura perguntas
?Esta é a melhor maneira de ver as coisas. Esta é a maneira certa de ver as coisas? ?Tentemos gerar outra maneira de ver as coisas. Mudemos nossa maneira de ver as coisas?

Julga o que é certo e concentra-se nisso, julgando baseado no sistema sim/não, que seleciona uma idéia e exclui todas as demais
Busca alternativas e funciona fora do sistema sim/não. Busca não o que é certo, mas o que é diferente. Certo e errado não se aplicam
Usa informações pelo seu significado Usa informações pelos seus efeitos em engendrar novas idéias
Analítico Provocativo

Usado para descrever o que ocorreu em nosso raciocínio
Usado para fazer algo acontecer
Conclusão tem de vir após a evidência A conclusão deve vir antes da evidência
Avança nas direções mais prováveis Explora as direções menos prováveis
Promete, na pior das hipóteses, um resultado mínimo Aumenta as chances de um resultado máximo, mas não faz promessas
Talvez seja utilizado em 95% do tempo Talvez seja utilizado apenas em 5% do tempo ou menos
Desenvolve e reestrutura uma nova idéia gerada Gera uma nova idéia
Todos estão sempre certos Ninguém jamais estará certo

Informação – No Brasil, temos o costume de adquirir informação mas, muitas vezes, não percebemos que o mais importante é o pensamento que damos a ela. Olhamos para aquele dado, todos, sob o mesmo foco, deixando uma imensidão de possibilidades para trás. Para mudar o modo de pensar, de Bono propõe a utilização de seis chapéus coloridos simbólicos, cada um com uma representação e função diferente. Assim, determinada idéia pode ser rejeitada inicialmente e, na seqüência, os opositores da idéia podem ser convidados a opinar usando outro chapéu, que poderá fazê-los mudar de idéia. Acompanhe os significados dos seis chapéus de Edward de Bono:

Chapéu branco ? representa informações, dados fatos, cifras, perguntas, dar ouvidos.
Chapéu vermelho ? sentimentos, intuição, emoção, pressentimento. Pode ser usado no início de uma reunião, por exemplo, para que as pessoas expressem suas emoções.
Chapéu preto ? cauteloso, cuidadoso. É o mais útil, livra-nos de fazer coisas ruins. Porém é perigoso, pois pode servir só para crítica. Representa a cautela lógica.
Chapéu amarelo ? positivo lógico ? benefícios, vantagens, porque algo funcionará. É o valor, o valor potencial.
Chapéu verde ? pensar sobre o pensamento, quais passos tomar ao pensar, resumos. Quando estamos usando o chapéu verde estamos procurando novas idéias.
Chapéu azul ? é como o controle do processo pensa sobre o próprio pensamento, o que queremos atingir, que chapéus vamos utilizar a seguir. É como se fosse o maestro da orquestra.

Provocação – ?A provocação é uma forma de dizer algo que aparentemente não quer dizer nada?. De Bono afirma tratar-se de uma operação mental ativa, não uma mera ausência de julgamento. ?É como ir ao mesmo lugar várias vezes pelo mesmo caminho, ignorando rotas alternativas?. O mesmo acontece com o pensamento, o ideal é usar formas alternativas, sair do convencional. ?Nas corporações, as pessoas têm facilidade em listar seus problemas, mas têm dificuldades em relatar suas necessidades criativas, porque a necessidade criativa só existirá se você quiser?, finaliza.

Olhos:
?Na prática, a lógica é uma parte pequena no pensamento: 90% dos erros são de percepção e 10% dos erros são de lógica?
?A criatividade é uma necessidade matemática?
?Desafio é a capacidade de olhar qualquer coisa e dizer: talvez não seja a única forma de fazê-la?

2 passos para ativar a criatividade:
1 – Compreenda os processos envolvidos nela
2 – Avalie as atitudes que inibem esses processos e utilize métodos para incentivá-los

Para Saber Mais: O Pensamento Lateral, de Edward de Bono (Editora Record) e Os Seis Chapéus do Pensamento, de Edward de Bono (Editora Pergaminho).
Onde encontrar: www.livrariascuritiba.com.br
Agradecimento especial à HSM Group.

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