A força mais poderosa do universo Uma das lendas que envolve o descobrimento do jogo de xadrez conta que, certo dia, vinha um rei cavalgando sozinho por uma estrada do seu reino, quando se deparou com dois camponeses sentados em frente a um tabuleiro. Curioso, parou para perguntar que jogo era aquele, e os camponeses, sem perguntar que cargas-d?água fazia ali sozinho o rei, lhe responderam que era o xadrez.
O rei pediu para jogar e, maravilhado com a descoberta, se ofereceu para comprar o tabuleiro e levá-lo de volta à corte. Um dos camponeses topou, mas fez a seguinte proposta: o pagamento seria o total da soma de moedas de uma fórmula simples: uma moeda na primeira casinha, duas na segunda, quatro na terceira, oito na quarta e assim por diante. Sempre o dobro da casinha anterior (uma progressão geométrica de razão 2, para quem se lembra dos tempos de cursinho pré-vestibular). O total somado de todas as moedas seria o prêmio.
O rei, ruim de matemática como a maior parte das pessoas (e se achando mais esperto do que a maioria, também como a maior parte das pessoas), aceitou a fórmula. Afinal de contas, quantas moedas poderiam ser no final? 1.000? 10.000? Sem problemas… ele tinha muitas. E quebrou, coitado, porque, como disse o Warren Buffett, os juros compostos são a força mais poderosa do universo. Acabou tendo de dar o reino inteiro para pagar sua dívida (só na lenda mesmo… aqui o rei mandaria prender o camponês, emitiria um precatório, criaria uma contribuição sobre movimentação financeira… enfim, muitas opções fora pagar o que realmente deve).
A verdade é que pouca gente entende a força dessa diferença que vai se acumulando. Veja um exemplo: se eu aplicar R$10 mil e receber 8% de juros ao ano, terei ao final de 30 anos um pouco mais que R$100 mil. Mas se receber 11% ao ano, terei cerca de R$229 mil ? mais do que o dobro! Quer dizer, eu não preciso ter o dobro de rendimento para dobrar meu capital. Essa é a mágica dos juros compostos.
Outro dia, recebi o press release de um fundo vangloriando-se de que havia baixado sua taxa de administração de 6% para 3% ao ano (mais taxa de sucesso ? um percentual cobrado sobre todo rendimento que exceder a referência usada pelo fundo). Para entender, vamos fazer um pouco de matemática básica. Imagine que tenho R$100 para investir, que a taxa de inflação é de 6% ao ano e que a taxa de administração do fundo é de 5% também. Quanto o fundo tem de render para valer a pena em relação à caderneta de poupança, por exemplo? Para simplificar, vamos dizer que a poupança me dá 6% ao ano + inflação, o que, nesse caso, daria um total aproximado de 11%.
Aqui é que todo mundo se empepina, porque 99% das pessoas responde que, para ser igual à caderneta, o fundo deveria dar 11% também. Qual é o problema? O problema é justamente a taxa de administração do fundo. Se ele cobra 5%, você não aplicou 100 de verdade ? aplicou 95. Os outros 5, o fundo pegou para ele. Enquanto na caderneta os seus 100 estariam todos rendendo, no fundo com taxa de administração você já começa indo para trás. Coloca 100, mas só 95 trabalham por você. Isso sem falar da taxa de sucesso ? quando o mercado cai, você é quem perde o dinheiro. Quando sobe, você só ganha 80%… e depois vem os impostos! Logicamente os gestores ativos de fundos dizem todos que ainda assim vai valer a pena. Afinal de contas, têm de vender seu peixe (mesmo que todos os estudos sérios feitos até hoje demonstrem o contrário no longo prazo).
Quando os mercados estão em alta, a maior parte dos investidores nem presta atenção nisso. São como os centavos na sua conta corrente ? ninguém realmente controla os centavos. Mas eles fazem uma diferença gigantesca em 5, 10, 30 anos. Principalmente quando você começa a fazer os cálculos com juros compostos.
Como descobriu o rei da nossa lenda, trabalhar contra a força mais poderosa do universo é tarefa ingrata (e pouco lucrativa). Faça os juros compostos trabalharem a seu favor e terá dado um grande passo em direção à riqueza.
Bons investimentos,
Raúl Candeloro


