Corno diz David Brooks, autor de Bobos in Paradise (Bobos no Paraíso, ainda sem tradução no Brasil), pela cartilha sendo defendida pelos consultores que pregam o cataclisma corporativo, hoje em dia parece que para ser um sucesso você precisa arriscar-se e ir até o limite do abismo. Precisa pensar diferente e ser criativo. Nada de fazer as coisas simples tudo tem que ser grandioso e arrojado.
Ou seja, você tem que ser criativo bem na beira do abismo, se não… acabou sua vida, sua carreira, a empresa, e nunca mais nada no Universo vai ser igual. Você estará marcado pelo fracasso para o resto da sua vida.
Exagerado, não? Mas é assim mesmo que se vendem mais livros e revistas sobre Administração de Empresas metendo medo. Procuramos mudanças nos lugares errados, fazendo as perguntas erradas e encontrando respostas erradas. O medo não estimula as mudanças pelo contrário, ajuda a perpetuar a mediocridade.
Essa glorificação do supérfluo também chega com força total ao mundo corporativo, onde o que importa é ser (ou melhor, parecer) ousado, arrojado, inovador. Resultados concretos? Raramente são comentados. Aliás, é bastante comum ver empresários glorificados na mídia quebrando um ou dois anos depois. Criamos uma sociedade de heróis e estrelas fast food: são os 15 minutos de fama, e chame o próximo. Melhor investir em imagem de moderno do que ser realmente moderno.
De acordo com essa cartilha, um líder hoje em dia não deve ter funcionários deve ter seguidores. Para isso é necessário mostrar que você tem bagagem, mesmo que não tenha. Tem gente (bem famosa, diga-se de passagem) que chega a mentir no seu currículo, tal é a importância da ””””bagagem””””.
Então o negócio é fingir, fazer pose, e esperar que o pessoal acredite. E corno as pessoas foram treinadas para acreditar, o jogo se completa. “Me engana que eu gosto” é a nova forma de gerenciar no mundo corporativo.
Jim Collins, autor de Feitas Para Durar (Editora Rocco), exemplifica o caso com uma bela história. Imagine que uma empresa fosse um ovo. Dia após dia, ele fica ali. Ninguém presta atenção. Ninguém nem mesmo nota sua presença, muito menos os jornalistas. Aí um dia a casca quebra e de dentro sai um pintinho.
Os jornalistas espantados tiram fotos e publicam matérias sobre “O Ovo que deu a Volta por Cima” e a incrível capacidade de inovação e criatividade do pintinho. Para quem lê de fora, parece que foi um sucesso que ocorreu da noite para o dia, como se o ovo tivesse radicalmente se transformado de ovo em pinto.
Agora analisemos o caso pelo lado do pinto. Enquanto o mundo inteiro ignorava algo que parecia adormecido, o pinto estava evoluindo, crescendo, desenvolvendo-se ou seja, mudando. Do ponto de vista do pinto, a quebra da casca foi apenas mais um passo numa longa cadeia de passos que levaram a esse momento. Mas raramente vemos comentários aprofundados sobre isso. Ninguém quer saber de como é duro e o quanto demora para chegar lá todo mundo só quer saber do prêmio.
Para Collins, o verdadeiro caminho para a grandeza requer simplicidade e diligência. Requer claridade, não momentos iluminados. Requer foco nas coisas vitais, e esquecer as distrações externas.
Numa sociedade cada vez mais dominada pelo supérfluo, é difícil separar o que é real do que é modismo passageiro. O que é consistente do que é superficial. O que traz resultados a longo prazo e o que mascara os resultados a curto prazo. Mas é justamente essa capacidade de discernimento, de filtrar o que interessa do que não interessa que faz a grande diferença entre o sucesso e o fracasso.
Dizem que o sábio não vê a mesma árvore que o tolo vê. E você, vê o quê? O que é que realmente faz diferença nos seus resultados, e o que é só modismo ou supérfluo
Raúl Candeloro – Editor
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