A influência da autossabotagem em sua carreira

Ana Artigas

Já percebeu como existem pessoas especialistas em se autossabotarem? Há indivíduos que passam a vida inteira se enganando, acreditando que estão fazendo a coisa certa, quando, na verdade, estão sempre agindo da mesma maneira, cometendo os mesmos erros e obtendo cada vez mais piores resultados!

 

Você é assim ou conhece alguém que vive desse jeito? Quer descobrir se está se autossabotando e como evitar que isso prejudique sua carreira? Então, confira esta entrevista exclusiva com Ana Artigas. Ela é psicóloga, pós-graduada em treinamento de RH e gestalt-terapia e consultora especializada em análise de perfil pela Caliper Corporate, em Princeton, EUA. Além disso, Ana realiza seminários e palestras abertas e in company voltadas para o desenvolvimento de equipes. Desde 2004, tem atuado como coach, com a Certificação Internacional de Coaching Integrado para Executivos – ICI Integrated Coaching Institute. Participa como colunista nas áreas de gestão de pessoas e liderança, com inúmeros artigos publicados em conceituadas revistas e jornais do País.

 

Com toda a sua experiência, a psicóloga nos revela como a autossabotagem interfere na vida das pessoas e, principalmente, na carreira e no sucesso profissional. Então, aprenda a gerenciar a autossabotagem e evite que ela atrapalhe sua vida.

 

Como a autossabotagem ocorre na vida das pessoas?

 

Ela vem do autoengano, mentir a si próprio. Apesar de parecer assustador, fazemos isso o tempo todo e de forma geralmente inconsciente. É difícil pensar nisso, mas a traição vem de dentro de nós e é um mecanismo muito poderoso, age no silêncio, escondido na nossa repetição de comportamentos, medos e bloqueios.

 

E por que muitas pessoas traçam sempre o mesmo caminho, cometendo os mesmos erros?

 

Às vezes, porque aprenderam assim e repetem o conhecido, pois sabem fazer apenas dessa forma e temem “perder o amor do outro” se não repetirem esses comportamentos aprendidos, em geral, através dos pais, religião ou cultura. Em outros casos, por medo de mudar, culpa ou pura falta de flexibilidade. Muitas pessoas foram tão punidas na infância que possuem uma enorme dificuldade de se diferenciar. A personalidade tem seus mistérios e, como desenvolvemos mecanismos de ajustes para lidar com as situações difíceis, geralmente “cristalizamos” nossas ações e comportamentos, tornando-os corriqueiros e repetitivos. Por isso, é tão difícil mudar.

 

Então, essa repetitividade na vida adulta pode ser fruto de algo que aconteceu na infância? Como isso pode influenciar na carreira de uma pessoa?

 

Comprovadamente sim, criamos atos repetitivos. Assim é a formação da personalidade, embora exista uma porcentagem de contribuição genética, ela implica uma maneira individual de lidar com o mundo, de se adaptar às exigências e oportunidades do meio. As pessoas buscam formas saudáveis ou não de se adaptar aos desafios, e esse comportamento é repetido na idade adulta e no trabalho, podendo influenciar positiva ou negativamente na carreira.

 

Quais sinais podem mostrar que uma pessoa está repetindo os mesmo erros, ou seja, sabotando sua própria carreira?

 

Há vários, por exemplo: depressão, síndrome do pânico, LER (Lesão por Esforço Repetitivo) entre outras doenças comuns que podem ser sintomas de autossabotagem. Acompanhei casos de indivíduos que dependiam da digitação para trabalhar e desenvolveram LER porque estavam insatisfeitos com seu trabalho e não sabiam como fazer para sair dele, ou por questão financeira ou falta de conhecimento em outra função. A síndrome do pânico, tão comum hoje, normalmente é um sintoma inconsciente de autossabotagem que só pode ser desvendado mediante um significado que precisa ser compreendido.

 

Quando o assunto é autossabotagem, existe alguma diferença entre homem e mulher, por exemplo?

Não acredito que haja, pelo contrário, a psicanálise descreve que as primeiras manifestações foram observadas em mulheres, mas, com o passar do tempo, descobriu-se que a autossabotagem ocorre tanto com pessoas do sexo masculino como do feminino. O que acontece, muitas vezes, é que a mulher não tem vergonha de buscar ajuda, enquanto o homem acredita que isso é bobagem, sofrendo durante um bom tempo sozinho e reforçando seu autoboicote.

 

E quais são os prejuízos da autossabotagem na carreira para ambos os sexos?

 

São vários. A pessoa deixa de se desenvolver profissionalmente, tem dificuldade e não consegue destacar habilidade alguma. Geralmente, fica mais doente que as outras, culpa o trabalho, chefe ou empresa pela sua infelicidade – realmente não é feliz no que faz. Enfim, acorda e dorme cansada.

 

Como quebrar esse ciclo da autossabotagem para evitar tais prejuízos?

 

Trabalho muito isso com meus clientes em processo de coaching. No entanto, é preciso que a própria pessoa perceba seus erros reincidentes e procure ajuda. Alguns indivíduos conseguem resolver seus problemas sem ajuda alguma e, quando resolvem, independentemente de terem conquistado isso com alguma orientação ou sozinhos, aprendem a viver melhor cada momento da vida. Ao buscar ajuda, você pode procurar uma terapia ou um coaching – alguma coisa que oriente que tipo de comportamento a pessoa precisa modificar e fazer para ter uma mudança. Geralmente, é uma autossabotagem tão inconsciente que é difícil de o indivíduo dizer: “Ah, eu vou parar de fazer tal coisa”, e realmente parar. As pessoas demoram muito para se dar conta de que isso é um autoboicote, sempre colocam a culpa no externo: empresa, governo, tempo, etc. Até que elas se voltem para si próprias o processo é difícil e, mesmo que se deem conta, é complicado mudar o comportamento. Afinal, passam 20, 30 anos agindo daquela forma, e não será da noite para o dia que passarão a agir de modo diferente.

 

Qual é a sua dica para ajudar nossos leitores a detectarem se estão se autossabotando?

 

Quando você sentir que as coisas não estão engrenando em sua vida profissional, às vezes, até o líder imediato ou alguém de fora conseguirá ajudar e ver o que você não está percebendo. Então, quando existir a necessidade, busque ajuda de outra pessoa para tentar se conhecer melhor, entender o que está acontecendo e assim modificar o comportamento. Um fator que pode auxiliar nesse processo dentro das empresas é a avaliação de perfil, ela detona o autoconhecimento, pois você define quais são os pontos fortes, as áreas que precisa melhorar e por que está repetindo esse comportamento – no mínimo, conseguirá entender qual é o gap entre poder e conseguir.

 

Colaboração: Cristiane Dias

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