Antigamente banco vendia empréstimos e o varejo distribuía a produção da indústria. Agora, as fronteiras entre lojas e bancos estão desaparecendo. Para se tornarem mais competitivos, os bancos tentam emular a cultura de varejo, enquanto diversos varejistas estão até abrindo seu próprio banco No Brasil, o mercado está em ebulição. Segundo estimativas da consultoria Partner, o número de cartões próprios emitidos por varejistas como Riachuelo, C&A e Bom Preço chega a 54 milhões. Isso já supera até mesmo os cartões emitidos por bandeiras tradicionais, como Visa e Mastercard, cujo número é estimado em 46 milhões. O Bom Preço, uma rede de supermercados do Nordeste, comprada pelo grupo holandês Ahold em 2000 e colocada à venda recentemente, tem uma administradora de cartões, a Hipercard, com dois milhões de cartões emitidos. A Lojas Leader, do Rio de Janeiro, com 27 estabelecimentos, iniciou sua operação própria de cartões em 1987 e já exibe 1,8 milhão de cartões emitidos, com 25 mil novos cartões sendo ativados todo mês.
O Carrefour no Brasil já tem aproximadamente quatro milhões de cartões emitidos e entrou junto ao Banco Central com pedido para abrir seu próprio banco. A C&A, que em fevereiro de 2001 abriu o Banco IBI, tem 12 milhões de cartões na praça, dos quais dez milhões com marca própria e dois milhões ?bandeirados? como Visa e Mastercard.
É viável dono de loja ser banqueiro?
Na maior parte dos casos é difícil saber exatamente a contribuição dos serviços financeiros ao resultado dos varejistas, devido ao fato de que subsidiárias financeiras costumam ter seus resultados consolidados no resultado total. Isso no caso de companhias abertas que publicam demonstrações financeiras. Para empresas de capital fechado podem ser feitas apenas estimativas, por meio de informações publicadas na mídia ou fornecidas por executivos das empresas. De qualquer forma os resultados disponíveis são bem eloqüentes. O Hipercard, processou durante o ano de 2002 um total de três bilhões de reais em vendas, que foram executadas através de 54 milhões de transações. O valor financeiro das vendas em 2002 representou um crescimento de 18% em relação aos R$ 2,6 bilhões de 2001. Com 54 mil lojistas credenciados, incluindo entre eles até gigantes do comércio eletrônico como Submarino e Americanas.com, o Hipercard é um dos principais meios de pagamento do Nordeste, tendo se tornando uma bandeira regional que compete com Visa, Mastercard, Diners e American Express.
Fundamentos estratégicos da entrada em serviços financeiros
Muitas cadeias varejistas, empresas familiares e de capital nacional no passado, transformaram-se em gigantes globais. Mas, em nível global, a concorrência tem aumentado a pressão sobre as margens. Para preservar receitas, os varejistas tiveram de fortalecer suas marcas, estreitar o relacionamento com clientes e diversificar para itens como viagens, música, gasolina, eletrodomésticos, serviços financeiros e até mesmo telecomunicações. Entrar em serviços financeiros está se tornando uma estratégia de sobrevivência para varejistas. Além disso, a lucratividade elevada e o fluxo de caixa polpudo representam uma atração à qual é difícil um setor como o varejista, que tem marcas fortes e rede de distribuição estabelecida, resistir.
No lado de demanda, os consumidores se tornaram mais sofisticados, exigindo não só produtos, mas serviços e soluções. As soluções devem oferecer qualidade, conveniência e valor pelo dinheiro. Parece ser também uma tendência dos consumidores aceitar provedores de produtos financeiros não-tradicionais. Uma pesquisa feita pela consultoria Datamonitor em 2000 constatou que por volta de 40% dos entrevistados em diversos países europeus estariam dispostos a adquirir produtos financeiros de provedores como supermercados, BMW, Microsoft, British Airways e outros. No Brasil, a Lojas Marisa começou sua operação de cartões com dois servidores Intel montados e sistema operacional gratuito Linux. Incluindo software e serviços, essa infra-estrutura pode ser montada por menos de 500 mil reais.
Modelos de ataque
Embora as incursões de varejistas em serviços financeiros sejam diferentes em relação à distribuição de risco e retorno para os participantes, a maioria pode ser classificada nos seguintes formatos: terceirizado, de subsidiária e de corretora.
O arranjo terceirizado é típico da América do Norte. Nele, os varejistas funcionam apenas como locadores de espaço para os bancos (e os correspondentes bancários no Brasil). No formato de subsidiária, o varejista controla total ou parcialmente uma subsidiária bancária ou similares, como uma administradora de cartões. No arranjo de corretagem (broker), o varejista se concentra no fortalecimento da marca e na distribuição dos produtos de terceiros.
Oportunidade histórica para o comércio
O aumento de competição está fazendo com que o negócio de serviços financeiros esteja se tornando cada vez mais similar ao comércio. Conceitos como comoditização de produtos, distribuição de produtos de terceiros, auto-serviço, poucas oportunidades de diferenciação, a necessidade de ?estar junto ao cliente? e a volatilidade de clientes estão se tornando cada vez mais importantes em serviços financeiros. Isso tem feito com que os bancos tentem emular uma cultura de varejo, focando-se menos em produção e mais em distribuição e relacionamento com os clientes. Infelizmente para os bancos, essa mudança cultural é difícil e lenta.
Isso traz uma oportunidade histórica para o comércio. No caso brasileiro, no qual a relação crédito/PIB, atualmente num dos pontos mais baixos da história em 20%, é uma das piores do mundo, no qual a taxa de juro é das mais altas do mundo; no qual o comércio vem amargando baixa rentabilidade, liquidez decrescente e endividamento crescente, apesar de ser o maior empregador dentre todos os setores da economia, essa é uma notícia auspiciosa.


