A vida nos oferece grandes aprendizados. Mas não importa nosso conhecimento, as informações e a experiência, e, sim, o que vamos fazer com tudo isso. Podemos aprender com nossos próprios erros e com os erros dos outros, ou com os erros de empresas do mesmo ramo, ou de outras áreas de atividade e, também, com os acontecimentos que nada têm a ver com o nosso negocio. Vamos aprender um pouco com o fracasso de nossa seleção olímpica de futebol:
1. O líder e a equipe
Um líder perturbado com acontecimentos externos, como foi o caso do Wanderley Luxemburgo, acaba transmitindo insegurança a seus comandados. Quantas e quantas vezes em nossas empresas o principal líder, ou o gerente da equipe, premido por fatores de toda a ordem, não transmite a mesma perturbação, comprometendo os resultados? Quantos chefes não criticam publicamente seus subordinados como fez o técnico da seleção?
2. O salto alto
O sucesso do passado não significa a menor garantia de sucesso no futuro, aliás nem de sobrevivência de empresas e profissionais. Quantas empresas continuam sendo administradas com os olhos no espelho retrovisor, utilizando práticas comerciais ultrapassadas, com foco dentro de si mesmas, sem perceber que o mundo mudou e hoje quem manda é o cliente? Tal qual nossa seleção, que muitas vezes acredita que pode ganhar apenas com a mística da camiseta canarinho, muitas empresas apresentam-se soberbas, olhando apenas os louros do passado, sem perceber o surgimento e o crescimento de novos concorrentes, os “Camarões e as Áfricas do Sul da vida”.
3. Usar sempre a mesma tática
Antigamente, se empresas e profissionais utilizassem sempre a mesma tática, a tendência era que obtivessem o mesmo resultado. Era matemática: um mais um igual a dois. Só que o mundo mudou e muito. Hoje, se repetirmos as mesmas fórmulas do passado, com certeza iremos obter resultados cada vez mais decrescentes.
No jogo contra Camarões, na prorrogação, o ataque de nossa seleção ficou em impedimento cinco vezes em menos de cinco minutos. Repetiam sempre a mesma jogada, contando com um resultado diferente. Não conseguiram.
E assim também acontece com muitas de nossas empresas: querem marcar gols (aumentar vendas) sem inovar, sem criar, sem investir em aperfeiçoamento. Acabam ficando em impedimento e levando bola nas costas e sofrendo golden goals (perdendo para a concorrência).
4. Desconhecer ou menosprezar a concorrência
A CBF gasta milhões na preparação de uma seleção mas, com certeza, investe muito pouco na investigação de como jogam nossos possíveis adversários. Muitas vezes, pensam que basta a simples análise de uma fita de videoteipe. E acabam sendo surpreendidos. Não acontece assim também com muitas de nossas empresas?
Não existe mais interior no mundo. A Internet tornou a coisa totalmente global. Hoje a concorrência está a apenas um dique do mouse. Assim, a informação de como os concorrentes estão atuando, suas inovações, seus produtos e prestação de serviços, seus diferenciais, é fundamental para o sucesso de qualquer ramo de atividade.
5. Erros de escalação
De acordo com o regulamento dos Jogos Olímpicos, a CBE poderia levar até três jogadores com mais de 23 anos. Optou por não levar ninguém.
Quantas de nossas empresas também não agem da mesma forma? Tendo condições de contratar melhores profissionais, ou treinar e preparar melhor os que já têm, acaba optando por economizar nessa área, tendo, por conseqüência, precária prestação de serviços?
Muitas empresas gastam verdadeiras fortunas na decoração de seu ponto-de-venda, em marketing e publicidade para atrair novos consumidores e “economizam palito”, como se diz na gíria, na hora de treinar e aperfeiçoar seu atendimento. Acabam “escalando” para sua linha de frente profissionais despreparados, desmotivados e pouco comprometidos. E a linha de frente é o primeiro contato com os clientes.
E assim poderíamos enumerar “n” outros exemplos: a preparação insuficiente e inadequada, o favorecimento a determinados membros da equipe, a teimosia, a falta de garra e motivação, etc. “Agora é levantar a cabeça e partir para outra”, dizem os jogadores. Só que, no mundo dos negócios, nem sempre é possível “partir para outra”; às vezes, é tarde demais. Gigantes como a Mesbla, o Mappin, a Hermes Macedo e tantos outros estão aí para comprovar.
Resta a nossas empresas, empresários e, também, a nossos jogadores profissionais, ao Luxemburgo e ao pessoal da CBF fazerem o que recomenda Carly Fiorina, principal executiva da Hewlett-Packard (HP): “Preservar o que é bom e reinventar o resto, pois o que distingue grandes empresas de empresas medíocres é a capacidade de olhar no espelho e agir segundo o que se vê”. Salientar, enaltecer o que tiver de bom e ter a humildade de reconhecer suas carências e tomar providências para corrigi-las.
Assim, precisamos sempre analisar o porquê de nossas vitórias e o caminho para superar nossas dificuldades, por meio de uma análise criteriosa do mercado, de atividade de aperfeiçoamento constante e treinamento contínuo, para o aprimoramento de nossos serviços. Para muitas de nossas empresas ainda há tempo de reverter resultados. Ainda. Para nossa seleção, só na próxima Olimpíada. Se obtiverem classificação. Esperemos que a CBF tenha aprendido a lição. E você, aprendeu?
Não existe mais interior no mundo. A Internet tornou a coisa totalmente global. Hoje a concorrência está a apenas um dique do mouse
João Carlos Boiczuk Rego é consultor em treinamento e palestrante. Fone/fax (0**51) 333-1080. E-mail: tradenew@zaz.com.br


