Desde 1500 vivemos e superamos milhares e milhares de crises. Não me lembro de um só dia na minha vida (e olha que eu já estou aqui há bastante tempo) em que não tenha escutado alguém me dizer que estamos em crise.
E exatamente como os surtos de gripe, elas sempre ganham algum nome: é a crise do petróleo, da energia, da falta de honestidade dos nossos homens públicos (que vergonha!), do apagão etc. Isto só para registrar as mais recentes, ou seja, as das últimas semanas.
Esse “papo”, na realidade (e na prática), já encheu o saco – MESMO.
Outro dia, ao fazer mais uma consultoria em uma média empresa, me dei conta de que a única crise que realmente existe, nos afeta e nos prejudica é a da falta de amor.
Pela cultura estúpida que adquirimos, por exemplo, é proibido amar a empresa em que se trabalha. Pelo contrário, parece que, por melhor que ela seja e por mais que ela nos dê é preciso ficar e estar sempre contra ela.
Ao me dar conta disso, comecei a perguntar para os diretores e gerentes (veja bem, diretores e gerentes) dessa empresa o seguinte: “Você ama esta empresa?” Você imagina como eles reagiam e respondiam a essa pergunta? Vou lhe dizer.
Em primeiro lugar, tomavam um susto danado e ficavam alguns minutos pensando o que deveriam me responder. No fundo eles sabiam qual era a resposta (não!), mas não podiam me dizer; então engasgavam, pigarreavam e, titubeando e gaguejando, me diziam: “Claro! é claro que eu amo esta empresa”. Mas eu poucas vezes vi algo tão escuro quanto aquele “claro” deles.
Para desafiá-los ainda mais, pedi que me dessem alguma prova real e cabal daquele amor declarado de maneira tão pouco convincente, e para isso lhes dizia: “Ótimo! Então me diga, como é que você demonstra e pratica esse amor?” E o desastre foi total, pois não ouvi nada mais do que conversa mole e desculpas esfarrapadas, sem nenhum sentimento mais forte e capaz de justificar a mentirosa afirmação. Na maioria das vezes, as tais demonstrações de amor não passavam de ressentimentos contra os colegas e contra a própria empresa. Para essas pessoas, sempre eram os outros que não amavam a nada e nem a ninguém, nunca eles mesmos.
É claro que há exceções. Claro que há, mas elas são exatamente isto, exceções, quando deveriam ser a regra, pelo menos entre aqueles que foram colocados em cargos de confiança (pelo menos nesses).
Por que temos que perder o nosso mais precioso patrimônio – o tempo de nossas vidas – alimentando ódios e frustrações, ao invés de vivenciarmos, ao máximo possível, o maior de todos os nossos sentimentos e o único capaz de fazer valer a pena estar aqui – o amor? Por quê?
Nas empresas onde sou chamado a trabalhar, encontro muito mais vezes o ciúme, a inveja, a raiva e os ressentimentos, do que o amor. O que construímos com isso?
Ah! Você acha que eu estou “viajando” ao dizer estas coisas? Então me diga, quando foi que, na sua vida, as coisas andaram bem, evoluíram e que você lembra que valeu a pena? Eu lhe respondo: “Quando o amor fez parte da sua vida”, só então a vida valeu a pena ser vivida.
Por que então não podemos amar a empresa em que estamos trabalhando? Por que não podemos amar o que estamos fazendo? Por que não podemos amar as pessoas com quem estamos convivendo a maior parte do nosso precioso tempo? Por quê? O que nos impede?
Você vai me dizer que não ama nada disso porque a empresa também não ama você? Ou por que os outros também não amam você? Mas o que você fez para que esta situação mudasse? Ou seja, qual foi a iniciativa que você tomou em que demonstrou que é uma pessoa ética, amável, construtiva, capaz e disposta a amar e ser amado? Alguém tem que começar a colocar o coração para funcionar dentro da empresa, e este alguém pode ser você? Ou você continuará fazendo parte do exército dos frustrados e mal amados que está aí?
Por que as pessoas não amam o seu trabalho, a sua empresa e os seus colegas de jornada? Porque não amam – em primeiro lugar – a si mesmas, é por isso. Porque elas não estão vivendo, mas apenas sobrevivendo. Quem não sabe dar, também não sabe receber!
É claro que todos nós temos problemas permanentemente, mas você já imaginou como seria a sua vida, sem problema algum para resolver? Qual seria o sabor que sentiríamos ao conseguir vencer algum desafio?
Carregamos conosco algumas frustrações, afinal todos nós temos nossos limites e limitações.
É bem verdade que os outros não são exatamente o que gostaríamos que fossem; como já disse um grande pensador: “o inferno são os outros”.
Mas, e daí? Isso justifica você não amar a si mesmo? Justifica você não colocar-se inteiro na construção do seu futuro? O que estas coisas justificam? Como será possível amar o trabalho, se não amamos a vida? Como será possível amarmos a empresa, se não amamos a vida? Como será possível amar os outros, se não amamos a vida?
Só conseguimos vencer barreiras e chegar ao sucesso quando colocamos amor naquilo que fazemos. Lembre-se, todos nós estamos – a vida toda – nos construindo. Portanto, ame a si mesmo. Se lhe disserem que isto é bobagem ou egoísmo, deixe pra lá. Não dê ouvidos aos mal amados. Eles são infelizes e por isso não suportam ver você feliz consigo mesmo, com a sua família, com a sua empresa, com o seu trabalho e com os seus colegas de jornada.
Eduardo Botelho é Consultor e diretor do IPEB – Instituto Profissionalizante Eduardo Botelho. Home page: www.ipeb.com.br. Telefone: (0**11)3057-0787


