A vida não dá duas safras

A maior tragédia que pode acontecer a alguém é passar pela vida sem viver. Nós só começamos a viver de verdade no dia em que descobrimos que a vida não vai durar para sempre. Talvez, você esteja aí do outro lado pensando que eu disse uma tolice, pois é claro que todo mundo sabe que vai morrer.

Na verdade, com o festival de chacinas que se assiste diariamente nos telejornais, com pessoas morrendo por todos os lados, era mesmo de se esperar que todo mundo já soubesse que também pode e vai morrer. A qualquer momento.

Infelizmente não é assim. Morrer continua sendo uma idéia vaga e absurda para a maioria das pessoas. Algo que só se vê, de verdade, nos telejornais e em lugares muito distantes. Na vida real, só ocorre mesmo com o vizinho e de preferência, com os mais chatos. Com a gente, nunca. Vivemos como se todos nós tivéssemos sido hipnotizados por um mago para acreditarmos que vamos durar para sempre.

Por isso, a gente adia tanto, tudo, o tempo inteiro. O projeto de ser feliz, a mudança de emprego, de cara, de cidade, de par amoroso. Deixa para uma hora mais propícia, menos problemática, mais oportuna e menos inadequada. Sempre para daqui a algum tempo, quando nós tivermos mais dinheiro, quando nós nos aposentarmos, quando os filhos crescerem, quando tivermos uma folga, quando a economia se normalizar.

Antes de mais nada, é preciso sobreviver, ganhar dinheiro, fazer sucesso ? pensa a maioria. A vida vai ficando para depois, quando todas essas coisas tão mais importantes já estiverem equacionadas e resolvidas. O problema é que a vida não entende essa linguagem de adiamento. “Oportuno” e “adequado” são palavras sem nenhum significado para o ritmo da vida. Vida é como um sorvete debaixo do sol quente: ou você toma na hora ou vai ficar chupando o dedo. Vida é um negócio de ?aqui? e ?agora?, de extrema premência e necessidade.

Eu sempre achei muito engraçado as pessoas usarem este verbo ?sobreviver? em lugar de ?viver?. Sobreviver significa continuar a viver depois que aconteceu algo sinistro e grave, como um incêndio de grandes proporções ou a queda de um avião. Constatado que a pessoa não tem nenhuma ocorrência desse tipo em seu prontuário, conclui-se que a tragédia, da qual ela escapou ilesa (e por isso está condenada a viver) foi ter nascido.

A maior tragédia que pode acontecer a alguém é passar pela vida sem viver. Nenhuma justificativa justifica perder a chance de estar vivo, de existir, de experimentar cada momento ? escasso e passageiro ? que se tem neste mundo. Nem um grande negócio, nem todo o dinheiro do mundo, nem um sucesso de arrebentar a boca do balão. Viver a vida é o item básico na cesta básica de qualquer pessoa.

Para encurtar a conversa, já que essa ladainha pode ir muito longe: com a vida é assim ou você faz agora, já, com os recursos que tem, ou esquece.

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