A volta do dragão

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A volta do dragão Quando a certeza era de ter vencido o dragão, a inflação voltou a assombrar o bolso do brasileiro. A contaminação veio de fora e já ameaça o ano de 2009, apesar do aumento do aperto monetário por parte do Banco Central. As conseqüências das altas da taxa básica de juros (Selic), que deve encerrar dezembro ao redor de 15% ao ano, são de longo prazo para a economia brasileira. Mesmo com o custo do dinheiro mais elevado, nos últimos meses, a demanda por crédito ainda se mostrou crescente, assim como o consumo.

O custo da elevação da taxa de juro será sentido em 2009, quando o crescimento do PIB poderá desacelerar para 3,2% de acordo com o cenário traçado pela Fator.Corretora. ?Taxas de juros maiores e crescimento e preços de commodities menores levará a uma revisão das estimativas de preços-alvo para baixo. Isso será feito por nós assim que a temporada de resultados do segundo trimestre terminar?, alerta a analista da Fator Lika T. Takahashi em relatório ao mercado. Em julho, o mercado de crédito foi melhor do que o esperado, mas será necessário um maior monitoramento nos próximos meses, principalmente em relação às pessoas físicas. ?As questões são se a expansão de crédito para indivíduos não chegou ao seu limite e se a inadimplência piorará?, afirma Lika.

A perspectiva é de que meta do Conselho Monetário Nacional (CMN) de atingir 4,5% na inflação medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor), com tolerância de 2 pontos não deva ser atingida este ano. No primeiro semestre do ano, o IPCA acumulou alta de 3,64%. O resultado é o maior desde 2003, quando a taxa atingia 6,64%. O grupo alimentação, com alta de 8,64%, teve o maior impacto no resultado: contribuição de 1,88 ponto percentual ou 52% da variação geral. No acumulado em doze meses, o IPCA mantém trajetória ascendente desde março de 2007, quando registrava 2,96%, para atingir a atual marca de 6,06%.

Assim, o objetivo do BC agora é trazer o IPCA de volta para o centro da meta de 4,5% no próximo ano. A tarefa não será fácil. O problema central consiste na incerteza: não há como atribuir a uma só variável o maior risco para a evolução futura dos preços. ?O processo de aumento de juros é lento. O consumo permanece aquecido e o mercado de trabalho ainda está razoável?, explica a diretora da MB Associados, Tereza Maria Fernandez Dias. Mais otimista, o economista da Tendências Consultoria, Jean Barbosa, estima um IPCA de 6,7% para este ano e de 5% para 2009. ?Acreditamos na continuidade do aumento dos juros em 0,75 ponto. Os juros têm pouco impacto em 2008, mas vão repercutir na atividade no próximo ano. A desaceleração da economia, no entanto, já deve começar a ser sentida neste segundo semestre?, diz.

Para a Bovespa, a continuidade da alta da taxa de juros além de reduzir o apetite dos investidores ao risco, piora os resultados das empresas. A combinação não é nada positiva para o mercado acionário. A Fator, por exemplo, decidiu por reduzir a projeção para o Ibovespa de 75 mil para 67 mil pontos no fim do ano. ?As alegrias devem ser proporcionadas por histórias de valor, consistência e previsibilidade de geração de caixa, e de preferência com boas práticas de governança corporativa. Investidores podem encontrar essas características nos grandes bancos, concessionárias, (algumas) empresas de energia elétrica e na minha empresa favorita ? a Weg?, recomenda a analista da Fator.

A diretora da MB Associados lembra que grande parte dessa inflação vem da contaminação externa, com o elevado preço do petróleo e das outras commodities. ?Estamos importando inflação. O Banco Central atuou na hora certa?, diz. Mas, ao mesmo tempo, a possível queda dos preços das commodities, que reduziria a inflação e melhoraria as expectativas de crescimento não seria uma boa notícia para bolsa brasileira. Isso ocorre devido à participação elevada de empresas produtoras de commodities, como o setor de siderurgia, além do peso no Ibovespa das ações ordinárias e preferenciais da Vale e da Petrobras.

Estudo recente do FMI (Fundo Monetário Internacional), que comparou os impactos das variações de preço do petróleo e de alimentos sobre a inflação no mundo, mostrou que o impacto imediato neste último caso é muito maior devido ao peso médio dos alimentos na composição do índice ao consumidor. Em 2006, o peso se aproximava de 40% para uma amostra de 12 países não-membros da OCDE. ?Esse percentual era cinco vezes maior do que o peso direto de combustíveis, mas nesse caso, assim como no de outras commodities que também estão aumentando muito de preço, como as metálicas, os impactos indiretos têm maior relevância pelos seus efeitos ao longo das cadeias produtivas?, avalia o IEDI (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial).

De acordo com a análise do IEDI, em parte, tanto o efeito mais direto vindo de alimentos quanto o mais indireto oriundo dos preços do petróleo e outras commodities se apresentam no Brasil. ?A inflação de alimentos gradativamente se espalha e os choques de commodities já elevam os custos de produção em várias cadeias produtivas. É para delimitar ambos os processos de transmissão que o governo vem adotando procedimentos de política econômica que vão além da política monetária e incluem ações de contenção do crédito, de aumento do superávit primário e de ampliação da oferta de produtos da agricultura e da indústria (Plano Safra e Política Industrial)?, destaca o IEDI.

O cenário está pior do que se imaginava. Para os economistas do Bradesco, a inflação de 2008 irá ultrapassar o teto da meta do Conselho de 6,5% e o ano de 2009 já está ameaçado. O alerta é para a chamada inércia inflacionária, ou seja, a inflação presente que contamina a futura. Este efeito tende a ser maior no próximo ano, pois existe uma ?maior imprecisão na avaliação futura da inflação?.

As potenciais fontes de pressão inflacionária estão bastante espalhadas. ?A incerteza tende a ser maior quanto maior for a gama de variáveis encaradas como potencial risco inflacionário, ou melhor, o número de eventos que podem dar errado aumenta?, explicam os economistas do Bradesco. As principais variáveis que influenciam na formação dos preços estão com vetor de alta no médio prazo.

A inércia não só será maior, como também deverá aumentar seu parâmetro de influência na inflação do período. Na medida em que a imprecisão aumenta, os riscos de uma inflação acima da meta também se elevam. A decisão ótima do Banco Central visa promover a convergência da inflação para o centro da meta já no próximo ano, isso significa reajustar seu instrumento de forma a conduzir a menores riscos à inflação futura.

Para o economista chefe da Austin Rating, Alex Agostini, o aumento da Selic é questão de vida ou morte para o BC. No comunicado de julho divulgado ao mercado, o Copom (Comitê de Política Monetária do BC) declarou que “avaliando o cenário macroeconômico e com vistas a promover tempestivamente a convergência da inflação para a trajetória de metas, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic para 13% ao ano, sem viés”. A interpretação de Alex é simples. Leia-se tempestivamente como: “Manter a credibilidade do sistema de metas enquanto há tempo”, diz.

O cenário da Austin para as próximas reuniões do Copom é de elevação contínua de 0,75 ponto percentual, encerrando o ano em 15,25%, e ainda há grande possibilidade de alta da taxa no início de 2009. ?Além da deterioração das expectativas de inflação, o forte ritmo da atividade econômica interna e o cenário internacional de alta do preço das commodities, em especial as agrícolas, são fatores que também condicionam nossa expectativa?, destaca Alex. Quando ampliou o ritmo de alta dos juros, a autoridade monetária agiu não apenas visando ao combate da inflação, mas também com foco em preservar a credibilidade do sistema de metas, que tem sido positivo nos últimos quatro anos (2004-2007).

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