A cada carnaval que passa, fico imaginando como seria bom se as nossas empresas, as empresas dos nossos fornecedores, e até dos nossos clientes, seguissem o magnífico exemplo das escolas de samba.
Para começar, em uma escola de samba não existe horário de trabalho ou hora extra. Ninguém faz greve por melhores salários ou quem sabe por melhores condições de trabalho, embora muitos trabalhem em barracões em que a temperatura passa facilmente dos 40ºC. Nunca se ouve de um trabalhador, que está preparando um carro alegórico, que esse serviço não é de sua responsabilidade e sim de outro. Se tiver de soldar, ele solda, se tiver de cortar, ele corta. Se tiver de colar, ele cola. E até se tiver de costurar, ele costura. Enfim, não interessa sua especialidade, ele fará o que for necessário e não somente aquilo para o que foi contratado.
Tudo é suportado com o intuito maior, que é o de pôr sua escola na passarela, a mais bonita e impecável possível. E, principalmente, no dia previsto que, aliás, é mais um ponto que devemos copiar: a pontualidade.
Jamais ouvi falar que não deu tempo de terminar, ou que uma escola precisa de mais um ou dois dias, ou quem sabe de uma semana, para finalizar os trabalhos. Carnaval está fixado no calendário e ele nunca foi postergado. E as escolas de samba sequer possuem uma área de logística com pessoas pós-graduadas, como é comum em nossas empresas, para cumprir determinado prazo. Tem de sair e sai no prazo. Se somente isso as empresas conseguissem copiar já teríamos uma grande economia de recursos humanos e financeiros.
Administrar custos é outro bom exemplo que as escolas nos dão. A começar pelo acompanhamento criterioso dos gastos, sem desperdício de materiais, já que não é possível obter verba suplementar caso o budget tenha estourado. A pergunta é: se eles, que não são grandes empresas, conseguem prever e cumprir os gastos, como muitos departamentos (e conseqüentemente empresas) não conseguem?
Chega enfim o grande dia do desfile, estão lá os carros alegóricos, os passistas, os instrumentos, as porta-bandeiras e suas fantasias. Sem falta, encontram-se todos no ponto de concentração de cada escola e no horário. Já imaginaram tudo o que está por trás para chegarem a esta performance?
Ao entrarem na passarela, podemos observar outros exemplos que deveríamos obstinadamente implantar nas nossas empresas.
As escolas têm um prazo para desfilar e para cada minuto a mais ou a menos perdem pontos. Como fazem as escolas, em alguns casos com milhares de sambistas, para percorrer toda a avenida no prazo pré-determinado? Evidente que um ou outro carro alegórico pode quebrar no trajeto, mas se até o computador do dono de uma grande empresa, do ramo que possui muito mais recursos que uma escola de samba, pode falhar em uma apresentação, esse fato é desprezível.
Por fim, vemos todos os integrantes desfilando com garra, buscando energias do fundo do seu pulmão, para entoar o samba enredo da escola por mais de uma hora, fazendo evoluções e todos sempre com um sorriso franco e aberto no rosto.
No desfile não existe uma ala melhor que a outra, uma que inveje ou desdenhe outra por considerá-la mais ou menos importante, como infelizmente é comum em nossas empresas. Por isso que no desfile de uma escola não existem departamentos, e sim, blocos que, conforme é descrito nos dicionários, significa “uma coisa só”. Para quantas empresas podemos dar a mesma definição? Em muitos casos seria correto dizer fragmentos e não blocos, já que o discurso de satisfazer o cliente interno infelizmente não passa de uma placa de ideais da empresa afixada na recepção.
No final do desfile, inúmeros são os casos de pessoas com bolhas nos pés, algumas até sangram, mas ninguém vai atrás de um atestado e pede afastamento. Pelo contrário, algumas retornam ao início da avenida, trocam de fantasia e desfilam novamente, desta vez, em uma outra escola.
O passista da escola de samba é até mais fiel do que o torcedor fanático de futebol, já que este quando seu time não vai bem sai do estádio antes, dá as costas para o campo, vaia, xinga, coisas que um sambista de escola não faz, não importa com qual classificação sua escola esteja, e por quantos anos. E por que tudo isso sai da melhor forma no tempo certo? Por uma única razão: amor. Amor à escola, amor por aquilo que se está fazendo e, no final, pelo gosto da realização, de ver seu empenho consagrado – e tudo isso, muitas vezes, sem remuneração, só pela satisfação.
A CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) existe, mas desconheço qualquer caso em que algum integrante de escola de samba tenha ingressado na justiça para receber os seus direitos. Não estou apregoando que as empresas não devam seguir as conquistas que os trabalhadores já tiveram, mas nós trabalhadores também deveríamos refletir e quem sabe mudar um pouco nossa postura.
Que obrigações temos nós, então, que somos remunerados e, em alguns casos, muito bem remunerados? Trabalhar com mais amor, dedicação e comprometimento, e, caso não estejamos satisfeitos, ter a coragem e o caráter suficientes para mudar de escola, se for o caso, e não ficar reclamando pelos corredores ou na máquina do café.
Se nós seguíssemos somente alguns dos exemplos que as escolas de samba nos dão, nós como profissionais, nossas empresas, e o nosso país, só teriam a ganhar.
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Para saber mais: Trabalhar, para quê?, de Marco Aurélio F. Vianna – Editora Gente.
Paulo Kramer é formado em administração de empresas com habilitação em comércio exterior pela Universidade Metodista de São Bernardo do Campo-SP, com pós-graduação em Marketing pela Universidade Mackenzie-SP. Trabalha em vendas no setor de veículos comerciais há mais de 20 anos. Telefone para contato: (11) 3327-6682. E-mail: paulo.kramer@iveco.com


