As eleiçôes novamente estão chegando. Você já escolheu o seu candidato? Esse ano temos quatro principais candidatos – Luiz Inácio Lula da Silva, José Serra, Ciro Gomes e Anthony Garotinho.
Nessa edição, entrevistamos dois deles – Lula, do PT e Garotinho, do PSB. Lula, líder nas pesquisas e pela quarta vez candidato à presidência, talvez seja o mais temido de todos, principalmente pelo setor empresarial – mas será que ele assusta tanto assim? Veja o que ele tem a dizer.
Já Garotinho pela primeira vez na disputa presidencial, tem um número considerável nas pesquisas de intenção de voto, já foi prefeito duas vezes de Campos, no Rio de Janeiro, governador do estado, e apresenta aqui algumas de suas propostas.
Leia a seguir o que os dois candidatos têm a dizer e propor, e aguarde a próxima edição com Ciro Gomes e José Serra.
Venda Mais – Existe uma grande diferença entre pequenas e grandes empresas. Como o seu governo pretende tratar de uma e outra?
Lula – No caso das micro e pequenas empresas, a política de microcrédito é um instrumento fundamental para alavancar a produção dessas empresas, que são as que geram mais empregos no país. Daremos uma atenção especial ao assunto. O BNDES deverá atribuir muito mais recursos às micro e pequenas empresas e esse programa poderá ser difundido para todo o país. É inimaginável o que pode ser feito com o microcrédito, e o PT tem várias experiências do gênero nas prefeituras e estados que administra, com resultados muito positivos.
Nós entendemos que é preciso fazer a economia brasileira voltar a crescer, gerar empregos e distribuir renda. Um dos caminhos para o crescimento é aumentar as exportações brasileiras e substituir importações de modo planejado. Como em outros países, as pequenas e médias empresas também podem exportar.
Garotinho – Todas as empresas brasileiras serão beneficiadas com a reforma tributária que queremos propor ao Congresso, para desonerar a produção dos excessos, e com as políticas que adotaremos para reduzir os juros e aumentar a oferta de crédito. Mas para as micro, pequenas e médias empresas daremos tratamento especial. Apesar de responsáveis por mais de 60% dos empregos no país, elas têm sido sufocadas. Vamos usar as instituições financeiras oficiais para apoiá-las e reduzir seletivamente os depósitos compulsórios bancários para oferecer crédito barato. Outra medida para elas será a redução do ônus tributário e a simplificação das obrigações burocráticas.
VM – Em seu governo, qual será a política de juros?
Lula – A taxa de juros brasileira é ainda extremamente alta e acaba impedindo o crescimento do nosso setor produtivo. Mesmo os segmentos mais conservadores do setor financeiro admitem que há espaço para uma redução dos juros no Brasil. É possível baixar os juros, mantendo a inflação sobre controle. Mas não é com uma canetada que vamos resolver isso. Vamos criar condições para que os juros sejam reduzidos sem causar efeitos colaterais maléficos para a economia. Para se fazer isso, temos que dinamizar as contas externas, aumentar as exportações, substituir importações, como já disse, e ter um saldo comercial mais favorável. A nossa taxa de juros não é determinada só pelas autoridades monetárias brasileiras. Somos uma economia aberta, com um mercado financeiro totalmente aberto para a entrada e a saída de capitais. Por isso, é preciso tomar muito cuidado para não causar pânico ou fuga de capitais.
Garotinho – Vamos baixar a taxa básica dos juros, porque isso é um dos pré-requisitos para o pais voltar a crescer, com crédito para a produção e a contenção da dívida pública. É claro que não basta ter vontade e assinar decretos para os juros baixarem. Vamos, sim, adotar políticas que gradualmente farão baixar as taxas no mercado. O governo Fernando Henrique foi o Papai Noel dos banqueiros: com os juros altos, todos os setores da economia perderam e só os Bancos ganharam. E muito dinheiro.
VM – O senhor pretende estimular as exportações, as importações ou seu foco será aumentar as vendas no mercado interno? Quais as principais medidas para alcançar esse objetivo?
Lula – O Brasil precisa tanto do aumento das exportações como do crescimento do mercado interno. Para resolver a vulnerabilidade externa da nossa economia é preciso estimular o setor exportador. Assumi o compromisso na Carta ao Povo Brasileiro, apresentada recentemente à nação, que vamos criar uma secretaria diretamente ligada à Presidência da República para cuidar das exportações.
Se nós ganharmos as eleições, vamos investir muito mais em pesquisa e desenvolvimento. Hoje, o Brasil aplica menos de 1% do PIB nesse setor. A média dos outros países é de 2,2%, 2,5%. Se você não tem o produto de última geração, com a última tecnologia, você não é competitivo no mercado internacional.
Nesse processo de suporte às exportações, o BNDES deve exercer papel fundamental. Ele não usa verbas orçamentárias porque tem verbas próprias, portanto tem uma margem de manobra maior tendo a vantagem de oferecer as linhas de financiamento mais baratas do país. O financiamento do setor privado é proibitivo.
Já as vendas no mercado interno estão intimamente relacionadas com o crescimento econômico e a distribuição de renda do país. A inclusão de milhões de assalariados no mercado de massas e a retirada de cerca de 50 milhões de pessoas da linha de pobreza vão abrir novas fronteiras de crescimento para o Brasil. Somente dessa maneira criaremos novas oportunidades para as empresas, que buscam mercados e espaços para ampliar a produção e a geração de empregos.
Garotinho – Incentivar a produção para o mercado interno e para o externo não são movimentos incompatíveis. No caso das vendas externas, é preciso que o país tenha taxa de câmbio em níveis competitivos, para estimular as exportações e as substituições de importações. Adotaremos uma política agressiva de exportações e, para isso, vamos criar o Ministério do Comércio Exterior e desonerar de tributos os setores que podem mudar o perfil de nossa pauta de produtos no mercado externo. O Brasil tem de exportar mais produtos industrializados e manufaturados, que têm muito mais valor do que os da agricultura. O mercado interno tem de se desenvolver simultaneamente, favorecido com a reforma tributária, a redução dos juros e o aumento do crédito. Queremos que o Brasil produza mercadorias que importamos, porque isso gera emprego, retém divisas e ajuda a enfrentar o déficit na balança comercial. Um dos estímulos ao mercado interno será o aumento do salário mínimo. Em 10 de maio de 2003, vamos elevá-lo para R$ 280. Em 2004, será de R$ 400. Para isso, vamos intensificar a fiscalização na Previdência Social, e buscar integrar trabalhadores informais no mercado formal, com carteira assinada. Isso vai fazer aumentar o bolo da contribuição, assim como o mínimo maior. Se preciso, vamos remanejar recursos do Tesouro para a Previdência.
VM – Uma das grandes preocupações dos empresários é o Custo Brasil. Qual a sua opinião sobre a situação? Uma reforma tributária seria uma das prioridades de seu governo? Como convencer o Congresso a votá-la?
Lula – Sem dúvida uma de nossas prioridades será a reforma tributária, que diminuirá o peso dos impostos sobre a produção e as exportações. O meu compromisso é de enviar ao Congresso um projeto de reforma tributária já no primeiro ano de governo. Vamos montar uma comissão composta por todos os setores sociais interessados, incluindo empresários, trabalhadores, sindicalistas, classe média, para se chegar a uma proposta tributária de consenso. Quem ganha mais vai pagar mais. Quem ganha menos não vai pagar ou vai pagar menos.
Garotinho – Consideramos que a reforma tributária é fundamental para desafogar as empresas. Queremos desonerar o setor produtivo e buscar a taxação do consumo, como forma de reduzir os custos das empresas e, ao mesmo tempo, ampliar a base de contribuição para garantir a receita. É claro que, nesse contexto, o governo terá que ser austero e combater a sonegação. A reforma tributária será uma das primeiras propostas de nosso governo ao Congresso. E acredito que contaremos com a sensibilidade dos deputados e dos senadores. A causa do Brasil deve estar acima das diferenças partidárias.
VM – Em seu governo, qual é a taxa de crescimento anual desejada para a economia? Como atingir tal número?
Lula – Estou certo da viabilidade de retomar a rota do crescimento sustentado. Precisamos de maneira urgente buscar um modelo de desenvolvimento com distribuição de renda, voltado para um mercado de massa, mantendo a inflação sobre controle. Somente com um PIB crescendo a taxas acima de 4% ao ano é possível gerar os milhões de empregos necessários para tirar a maioria da população das condições precárias de vida em que se encontra.
Garotinho – Se não crescermos a taxas de 5% a 7% ao ano, não teremos recursos necessários para gerar empregos e honrar os compromissos com credores internos e externos. A continuar a nossa dívida interna crescendo e o Brasil dependente do apoio externo, acabaremos como a Argentina, com elevadas taxas de juros, queda das exportações e aumento das importações, falta de liquidez das empresas e índices alarmantes de desemprego. Queremos crescer com estabilidade monetária.
6 – E qual a taxa de inflação desejada?
Lula – Considero um equívoco o governo estabelecer metas tão apertadas de inflação. O Banco Central age como se o Brasil fosse a Suíça. E o que acontece ao estabelecer um patamar inflacionário tão apertado, entre 3% e 3,5%? Acabamos superando esse patamar e o Banco Central é obrigado a praticar juros elevados. Mas se fosse estabelecido um patamar realista seria possível baixar a taxa de juros. Há uma incompetência do Banco Central na administração das metas de inflação.
Sempre se deve buscar a menor inflação possível, porém é preciso que sejamos realistas. Não se pode afrouxar em relação à inflação, mas não se pode também definir metas inalcançáveis, como o governo está fazendo.
Garotinho – Sou a favor da definição de metas de inflação, pois isso diminui as incertezas do mercado e ajuda a fixar parâmetros para a economia. A longo prazo, as metas devem alinhar o Brasil aos níveis aceitáveis de inflação dos países desenvolvidos, de no máximo 2,5% ao ano. O sistema de metas inflacionárias não pode, no entanto, ser justificativa para o aprofundamento da recessão econômica. Inflação baixa e crescimento econômico elevado não são incompatíveis. Ao contrário, o processo inflacionário somente será enterrado quando o país voltar a crescer, em bases sólidas, a taxas superiores a 5% ao ano.
VM – Qual a sua visão sobre o profissional de vendas do Brasil?
Lula – O profissional de vendas cumpre papel essencial no processo econômico. Quanto mais preparado e ético, mais ele contribui para a realização de bons negócios, beneficiando a empresa e atendendo os interesses do consumidor.
Garotinho – Os profissionais de vendas são vitais para o êxito de qualquer projeto empresarial, porque fazem a intermediação da produção e do consumo. Por conhecerem os produtos, as demandas e a psicologia dos consumidores, eles têm papel-chave na difusão de inovações e no desempenho das empresas que representam, às vezes nos confins mais distantes de nosso país. Admiro os profissionais de vendas que exercem seu papel com ética e inteligência.
VM – Por que os profissionais de vendas e empresários deveriam votar no senhor?
Lula – Não gosto de falar bem de mim mesmo. Gosto de falar bem dos outros. A grande maioria dos eleitores conhece a minha história, os meus compromissos e o que fiz até hoje pelo nosso país. Basta que as pessoas se perguntem, por exemplo, como seria o Brasil sem o Partido dos Trabalhadores, o maior e mais importante partido de esquerda democrático da América Latina. Ou como seria o Brasil sem a CUT. E posso dizer que conheço o Brasil como poucos políticos deste país. Conheço os verdadeiros problemas do nosso país e tenho apresentado soluções para eles, reunindo especialistas, políticos e lideranças empresariais e populares dos mais variados setores sociais. Ganhando as eleições, vou fazer o novo contrato social que esse país precisa, realizando as reformas necessárias para o Brasil voltar a crescer e a se desenvolver. Quem quer trabalhar e produzir só tem a ganhar com essa perspectiva. E tenho certeza de que é isso que os profissionais de vendas e empresários brasileiros querem.
Garotinho – Porque sou um homem sério, honrado e experiente em administração, depois de ter sido duas vezes prefeito de minha cidade, Campos, no norte fluminense, e governador do Rio de Janeiro. Minha candidatura é a única realmente nova. Nesta eleição, há o candidato do governo, que é o que já conhecemos; o candidato que já perdeu três vezes, bem intencionado, mas com pouco preparo; e o outro concorrente, que diz que é contra o governo, mas, na verdade, é um estepe do candidato oficial. A única candidatura que reúne experiência, fé e projeto de mudança verdadeira é a minha, do PSB.


