Avançar

Quer ter um negócio próprio? Comece comprando alguns talheres. Tive o privilégio de acompanhar o surgimento de uma pequena empresa, na década de 80, que me ensinou muito.

Um motorista da empresa em que eu trabalhava me chamou atenção quando, em uma viagem à cidade de São Paulo, me pediu para ir até o centro da cidade para fazer compras, enquanto eu realizava reunião com um fornecedor. Quando ele retornou, percebi que comprara muitos talheres. Ao questioná-lo sobre o motivo da compra, orgulhosamente comentou que estava montando uma lanchonete.

Ao perguntá-lo quando seria a inauguração, me surpreendeu dizendo que não seria naquela época, e sim depois de sete anos, aproximadamente. Como não tinha o capital necessário e não pretendia emprestar de banco, a montagem do negócio seria em doses homeopáticas.

E foi o que aconteceu. Dentro do prazo estabelecido, ele inaugurou o espaço para a esposa e os filhos administrarem, pois continuaria se garantindo como motorista.

Da última vez em que o encontrei, ele já falava em abrir uma filial. Além de visão, planejamento, determinação e disciplina, esse empreendedor demonstrou ter coragem.

Segundo Rollo May, teólogo e psicanalista, autor do livro A Coragem de Criar, coragem não é uma virtude nem um valor entre os valores do indivíduo, como o amor ou a fidelidade. É o alicerce que suporta e torna reais todas as outras virtudes e valores. Sem ela, o amor empalidece e se transforma em dependência. Sem a coragem, a fidelidade é mero conformismo. A palavra coragem tem a mesma raiz que a palavra francesa coeur, que significa coração. Assim como o coração irriga braços, pernas e cérebro fazendo funcionar todos os outros órgãos, a coragem torna possível todas as virtudes psicológicas.

Mas, no caso do motorista, o que mais me despertou a atenção foi a forma como ele encarava os obstáculos. Convivia muito bem com eles e sabia que todos eram transponíveis.

Sartre, Camus e Nietzsche afirmavam que a coragem não é a ausência do desespero, mas a capacidade de seguir em frente, apesar do desespero.

Isso me faz lembrar do músico Duke Ellington, que dizia ser bom ter limites.

Certa vez, nos momentos críticos do preconceito racial nos Estados Unidos, quando os negros foram proibidos de freqüentar restaurantes e hotéis, Duke Ellington não se intimidou. De forma criativa, transformou um vagão de trem em restaurante e hotel e, com sua orquestra, cumpriu todos os compromissos musicais agendados.

Conheço muitos empresários que perdem tempo querendo eliminar todos os obstáculos para poder agir livremente, de maneira perfeccionista e até utópica. Dão elevado moral para as objeções. Com isso, sociedades empresariais são desfeitas e relacionamentos entre fornecedores e clientes são interrompidos.

Em alguns casos é necessário esforço para aprender a conviver com o indesejável. Isso não é conformismo, é questão de privilegiar o custo-benefício. Portanto, é questão de bom senso.

Até o rio precisa de limites, que são as margens. Sem elas, ele não existiria.

O mundo perfeito não existe; o ótimo gera paralisia. A tolerância é um ato de coragem. O mais importante é avançar.

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