Abra o jornal, folheie uma revista, ligue a tevê. Observe como são poucas as notícias veiculadas que podemos apreciar. Abra o jornal, folheie uma revista, ligue a tevê. Observe como são poucas as notícias veiculadas que podemos apreciar. Todos os informativos têm como matéria-prima a desgraça. Ora são as guerras, ora os conflitos políticos, ora as mazelas econômicas. A fome, o frio, o fogo na mata adentro ? os quais não deixam de ser outras formas de guerra.
Tiroteio entre facções que disputam a hegemonia em regiões desprovidas de lei. A droga que grassa e viceja, que invade escolas, bares e lares, atingindo não apenas adultos e adolescentes, mas até mesmo crianças. Uma arma de fogo que dispara acidentalmente, um garoto que chacina sua própria família ou um grupo de colegas da escola. Filhos que matam pais, pais que violentam filhas, filhas que se prostituem. Governos que desdenham da miséria e que lutam apenas pelo poder como fim absoluto de sua vaidade e ganância.
Mesmo onde se poderia imaginar prazer, encontramos o negativismo. O caderno de esportes relata a contusão de um atleta, exalta a suspensão de outro flagrado num exame antidoping, anuncia em polvorosa a demissão sumária de um técnico. No caderno de cultura, críticas ganham mais espaço do que elogios. Não sei de onde vem esse apego, esse quase encantamento do ser humano para com o que é menor, para com o que não o eleva. Parece uma espécie de indulgência às nossas próprias fraquezas. É como se, para nos sentirmos melhor, fosse necessário que os outros se mostrassem piores do que nós. Parece que a gente não busca se melhorar, mas sim diminuir os outros.
Vivemos tempos de amargura, de desamor e de intolerância. Compomos as nossas teias, os nossos círculos fechados de relacionamentos e de amizades. E carregamos bandeiras diferentes. Não são apenas mais bandeiras representando nações, pois a luta transcende o plano territorial e a supremacia.
Carregamos bandeiras de religiões sem perceber que independentemente de qual seja a crença, o fundamental é a fé que se pratica. Carregamos bandeiras diferentes nos estádios de futebol, e quando poderíamos apenas comemorar a magia do espetáculo, as fazemos de estandartes, armas que ferem; fazemos da provocação animada e prazerosa, concertos e odes à ira coletiva. Carregamos bandeiras pessoais, as bandeiras segregacionistas. Ora são os negros, ora os índios, ora os homossexuais, cada qual colocando-se numa posição inferior, chamando a si próprios de minorias, buscando através do tratamento diferenciado o tratamento imparcial. Querem a igualdade, mas a perseguem a partir da diferença. E, muitas, vezes acabam colhendo apenas a indiferença.
A palavra intolerância diz muita coisa. Ela remete à incapacidade de tolerar, ou seja, de aceitar, de permitir, de escutar, de respeitar, mesmo que discordando. De tanto ostentar bandeiras, negligenciamos nossa própria liberdade, colocando-a em segundo plano, esquecendo o prazer de contemplar e de amar a vida.
Mastros no chão, ao cruzar para o outro lado de um rio, ao atravessar uma ponte ou mesmo uma linha ou um marco imaginário, encontraremos alguém igual a nós, com as mesmas dúvidas, as mesmas incertezas e os mesmos desejos de respostas que povoam nossas mentes e nossos corações sem bandeiras.


