Como Antonio Guerreiro Filho transformou uma fábrica comum em um dos maiores exemplos de gestão participativa do mundo, através do poder de uma camisa branca Como Antonio Guerreiro Filho transformou uma fábrica comum em um dos maiores exemplos de gestão participativa do mundo, através do poder de uma camisa branca
Imagine uma empresa que não faz esforço extra algum para ganhar o ISO 9000. Que, quando escuta falar sobre qualidade total, nem liga. Já há muito tempo ela fazia muito mais do que a qualidade total prega. Tanto que as iniciais TQM, de Total Quality Management, foram, meio de brincadeira, meio a sério, mudadas pelo pessoal da empresa para Toninho Quer Mais. Mais do que qualidade total. Mais respeito. Mais mudanças. Mais envolvimento.
Toninho, no caso, é Antonio Guerreiro Filho, que revolucionou a Fumagalli, fabricante de rodas de veículos (hoje, integrante da multinacional AlvinMeritor). E o fez começando com uma simples camiseta branca. Como? ?O Poder da Camisa Branca é um inédito e exclusivo modelo de gestão, baseado exclusivamente no respeito ao ser humano?, explica Antonio.
Essa obsessão com o respeito começou a se delinear com uma viagem que Antonio fez ao Japão em meados dos anos 80, onde conheceu todos as maneiras revolucionárias de gestão daquele país. Enquanto outros empresários que viajaram com ele voltaram com planos de aplicar aqueles conceitos em suas empresas, Antonio queria ir além. E desafiou toda sua empresa: ?Se quisermos, podemos fazer muito melhor do que os japoneses?.
Aos poucos ?
E foi o que aconteceu. Começando com um funcionário, do setor de estamparia da fábrica, local que pingava óleo e graxa por todos os lados, onde os funcionários pareciam estátuas de sujeira. Foi justamente a um desses funcionários que foi apresentado o desafio de usar uma camisa branca. Com apenas esse colaborador, seu supervisor e Antonio é que começou a mudança total daquela fábrica. ?O primeiro a mudar fui eu. Sabia que a maioria das falhas ocorridas nas linhas de produção se originava em outros departamentos, achei por bem extrair os trabalhadores do ostracismo em que viviam e dei-lhes o direito de falar e de serem ouvidos?, diz Antonio. E essa foi sua grande revolução. Sua idéia nunca foi dizer ao funcionário de camisa branca que não a sujasse; mas que, quando qualquer coisa a manchasse, que ele fosse falar com o supervisor e com o Antonio e os três fariam o que fosse preciso para que aquela mancha não voltasse a acontecer. Participação de todos na resolução de problemas. Na hora. Sem burocracia. Sem perda de tempo ou comissões. E a partir daí, o programa cresceu como uma bola de neve.
Diz Antonio: ?Aprendi na minha vida profissional que toda mudança significativa deve naturalmente ser pensada grande, porém deve-se iniciar pequena e fazer tudo para que cresça rápido. Foi o que ocorreu com a entrada de uma camisa branca, que serviria como vitrine e laboratório para o meu projeto. A participação dos trabalhadores não deveria ser obrigatória. Essa foi uma das importantes razões para que eu despertasse o ?querer participar??.
Pedir, não impor ?
Por algum tempo, a nova filosofia de trabalho de Antonio Guerreiro Filho se limitou a três pessoas na fábrica. Mas aquele empregado, de camisa branca, reluzindo, no meio de centenas de macacões sujos passava uma mensagem clara: ?veja o que podemos conseguir?.
Assim, em breve, os outros funcionários começaram a exigir de Antonio: ?Por que eu não posso usar camisa branca, também??. E a empresa foi se envolvendo no Poder da Camisa Branca® aos poucos. Em um certo momento, eles não esperavam mais ganhar a camisa: já iam apontando as áreas que poderiam ser melhoradas por conta. ?Quando começaram a apontar as falhas durante o processo produtivo, deu-se o início de uma ampla conscientização da gerência. Iniciou-se um envolvimento total, entre líderes e liderados, e sem o menor constrangimento, uma vez que convencionamos que falhar deixou de ser um pecado, principalmente àqueles que fazem. Ressalte-se que se não houver o efetivo comprometimento e o conseqüente empenho do principal executivo da empresa, o sucesso fica comprometido?.
Envolver a todos. Todos mesmo ?
A partir de determinado momento, a nova filosofia da Fumagalli pareceu emperrar em um lado que muitas empresas preferem esquecer: as famílias dos empregados. Antonio diz que não adianta nada encher um membro da equipe de esperança, de voz ativa, de sonhos, de desejo de mudar, se ele enfrenta resistências em sua casa. Era até uma coisa natural. Imagine uma esposa de funcionário, que ignorava o que a camisa branca significava e a filosofia por trás daquela vestimenta:
? O quê? Quer dizer que já não bastava eu ficar feito uma escrava no tanque tentando tirar mancha de macacão grosso, agora você quer que eu limpe uma camisa branca? Ora, onde já se viu, aquele seu chefe só podia ser homem, mesmo! Faça-me o favor!
?Sempre ouvi dizer que os problemas domésticos devem ficar em casa e os profissionais no local de trabalho?, reconhece Antonio, ?porém, nunca encontrei o interruptor que proporcionasse tal desligamento. Daí a minha compreensão de que o ser humano é um ser integral, e como tal deve ser tratado. Em função disso a responsabilidade das empresas extrapola os seus muros.? E essa extrapolação foi convidar as esposas, explicar a filosofia, dizer que o pessoal usaria branco porque, a partir daquele momento, passariam a ser profissionais mais completos e respeitados. Era o fim dos ?peões?. A intenção era construir verdadeiros especialistas em seus ofícios, pessoas que, mais do que músculos, usariam seus cérebros no trabalho. E que voltariam para casa cada vez mais limpas.
O questionamento permanente ?
Assim, a partir do ?por que sujou?, outros questionamentos começaram a surgir: o que, quando, onde, todos exigindo uma grande comunicação entre todos os níveis da empresa que se tornou, ela própria, uma imensa camisa branca, onde nenhum problema, discórdia ou mancha pode se esconder: aparece na hora e na hora deve ser solucionado. Isso significa o fim do chefe ou do gerente que manda e da equipe que obedece, sem questionar. É preciso haver comunicação, troca de idéias, de experiências.
Alguns gerentes podem encarar isso como uma ameaça à sua autoridade. ?Não há o que temer. A filosofia da Camisa Branca® entende que o líder é parte integrante da equipe e como tal a sua autoridade é reconhecida pelo grupo e se fortalece à medida que o processo se consolida?.Para quem quer trilhar nesta estrada, fica o conselho de Antonio Guerreiro Filho: ?Tenha a sensibilidade de que é preciso mudar. Assuma a responsabilidade pelo processo de mudança. Trace seu plano, estabelecendo a estratégia e escolhendo criteriosamente os parceiros indispensáveis para o sucesso?.
POR DENTRO DA FILOSOFIA DA CAMISA BRANCA®
· Esqueça da empresa. Quem merece cuidado, quem deve crescer são os funcionários. A empresa será o que eles conseguirem ser.
· Crie em sua empresa um clima de questionamento permanente. Facilite o surgimento de novas idéias.
· Integre sua empresa. Faça com que todos se vejam como parte de um processo.
· Colha, meça e analise resultados constantemente. Eles também podem ser ?manchas? que devem ser combatidas.
· Troque o paternalismo por liberdade e responsabilidade.
Para saber mais:
O Poder da Camisa Branca ? Uma Nova Filosofia de Gestão Participativa. Antonio Guerreiro Filho, Editora Futura


