Como tomar decisões eficazes utilizando o 10-10-10? – GV n. 276

 

 

Você já se viu correndo de um lado para outro apagando incêndios e tentando fazer todo mundo feliz? Suzy Welch – esposa de Jack Welch, ex-CEO da GE – já esteve nessa situação. Jornalista, escritora, palestrante e ex-editora da Harvard business review, Suzy tinha uma vida agitada como a maioria de nós até que se deu conta de que era a coadjuvante de sua própria vida, quando, na verdade, deveria ser a diretora e protagonista de sua história.

 

O ponto crucial que determina se uma pessoa será coadjuvante ou protagonista de sua própria história está na palavra “decisão”. Suzy percebeu que, ao ficar diante de um dilema, não poderia simplesmente ceder às pressões ou fazer aquilo que o contexto ditasse. Mais tarde, compreendeu que, quando se enfrenta um dilema, tudo o que é preciso fazer é pensar: “Quais serão as consequências de minha decisão em dez minutos? Em dez meses? E em dez anos?”.

 

É o que Suzy chama de método 10-10-10. No início, ela passou a testá-lo em todos os tipos de dilemas, tanto em casa como no trabalho. Para sua surpresa, constatou que esse método a levava invariavelmente a tomar decisões mais rápidas, apuradas e mais cautelosas. Em alguns meses, o 10-10-10 a ajudou tanto que não conseguiu resistir a compartilhá-lo com suas irmãs, grupo de amigos próximos e colegas.

 

Assim, o método começou a se espalhar. Um de seus colegas de trabalho contou para sua mulher, que utilizou o método para sair de um estado de paralisia relativo à procura de emprego. Uma amiga apresentou o 10-10-10 para a filha recém-casada, que estava em dúvida se continuava trabalhando ou se voltava a fazer pós-graduação. Outra conhecida comentou sobre o 10-10-10 com o marido, um médico que levou o método para o trabalho onde um grupo de enfermeiras o adotou para enfrentar e solucionar certo conflito de opiniões sobre horários de visitas aos pacientes, que já durava meses.

 

Com o tempo, Suzy começou a ter conhecimento de histórias a respeito do 10-10-10 de fora de seu círculo imediato de amizades – certo dia atendeu o telefone e ouviu: “Você é a senhora 10-10-10?”. Em determinado momento, Suzy já havia escutado uma quantidade suficiente de histórias de pessoas que estiveram diante de situações que precisaram tomar uma decisão e por meio do 10-10-10 visualizaram o impacto de cada decisão num horizonte de curto, médio e longo prazo. A partir daí, sentiu-se preparada para escrever sobre o método para a The oprah magazine, revista na qual tinha uma coluna que tratava sobre equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

 

Mas foi quando Suzy percebeu que decisões complicadas eram responsáveis pela infelicidade de muitas pessoas que tomou a decisão de oferecer o 10-10-10 de forma mais ampla. Não que o método fosse como pílulas mágicas ou uma solução milagrosa, ele exigia sim um trabalho emocional e envolvia compromisso e sinceridade. Contudo, com sua simplicidade e clareza, funcionava. A partir de então, Suzy deu início ao seu livro 10-10-10: hoje, amanhã e depois.

 

Ela nunca foi cientista, porém, nos últimos anos, assumiu a pequena missão de aprender sobre como o cérebro funciona, sendo orientada por prestativos especialistas em psicologia, neurologia e economia comportamental. Os estudos revelaram para ela algo sobre como e por que o 10-10-10 funciona de modo tão eficaz. Suzy aprendeu que a mente humana é capaz de nos orientar e nos proteger de situações sociais mais comuns. Nós nos distinguimos, por exemplo, na criação de parcerias, na realização de negócios e no discernimento das motivações. Somos bons na escolha de líderes, no trabalho em equipe e na percepção dos inimigos que se fingem amigos.

 

No entanto, embora possamos lidar com diversos tipos de interações sociais, com uma aptidão altamente desenvolvida, nossa mente não é muito competente para tomar decisões com múltiplas variáveis e diferentes períodos de tempo. E por um motivo: as pessoas tendem a agir como se o futuro não existisse ou como se ele fosse ser ideal.

 

Há inúmeros estudos que demonstram esse efeito. Um relatório publicado pela Johns Hopkins School of Medicine, por exemplo, constatou que até 80% das pessoas que passam por cirurgias cardiovasculares dolorosas não realizam as mudanças de estilo de vida – relativamente fáceis – necessárias para impedir outra cirurgia, continuam comendo alimentos gordurosos, fumando e evitando a esteira das academias. Mas não é preciso uma pesquisa científica para confirmar que, corriqueiramente, ignoramos o impacto a longo prazo de nossas ações.

 

Poucas pessoas vivem somente no tempo presente. Sem dúvida, também está em nossa natureza a capacidade de desenvolver mecanismos que vão contra a tendência natural do imediatismo e passam a levar em conta as considerações de longo prazo no processo de decisão. É aí que entra o 10-10-10. Ao trazer à superfície cada opção e suas consequências – e conectando as ações a valores profundos –, o método nos habilita a neutralizar as tendências contraproducentes de nossa própria mente, ele nos ajuda a nos ajudarmos.

 

Para compreendermos como o 10-10-10 alcança seu objetivo, precisamos voltar ao século 18. Em 1738, Daniel Bernouilli, matemático holandês-suíço, postulou que as pessoas que têm pela frente decisões com múltiplas variáveis costumam analisar as probabilidades e a gravidade dos possíveis resultados, avaliam as consequências de cada decisão e, em seguida, escolhem a opção que maximiza seus ganhos e minimiza suas perdas ao longo de todos os períodos do tempo.

 

A ideia de Bernouilli era tão fascinante que, dois séculos depois, foi adotada e mais amplamente desenvolvida por dois renomados matemáticos da Universidade de Princeton, John von Neumann e Oskar Morgenstern, que a designaram Teoria da Utilidade Esperada. No entanto, o problema em relação a essa teoria é que ela possui uma relação um tanto inconsistente com a realidade. As pessoas não analisam regularmente as probabilidades e a gravidade de todas as suas escolhas – em geral, não avaliam os resultados e as consequências. Em outras palavras, não agem de forma racional o tempo todo.

 

As forças que minam a racionalidade do comportamento humano são muitas, e a maior parte delas é bem familiar a qualquer um. Há a pressão do tempo, das pessoas, a falta de informação e o excesso de informação. A lista é imensa. Contudo, o resultado de todas essas condições é o estresse, o impedimento supremo para o pensamento racional. Quando o estresse entra em ação, nossa pressão arterial sobe, nosso pulso acelera e a adrenalina corre em nossas veias. Às vezes, essas reações podem ser boas, aguçando nosso foco e objetivo e permitindo-nos agir quase de modo sobre-humano.

 

Por outro lado, fora essas emergências de vida ou morte, o estresse, em geral, interfere muito mais na tomada da decisão correta. E, quando o estresse cresce e se converte em ansiedade madura, nossos neurotransmissores sem objetivo podem provocar sensações de confusão ou paralisia – ou as duas. O método 10-10-10 pode ajudar qualquer pessoa a sair desse tipo de situação e se tornar uma eficaz tomadora de decisão.

 

Livro: 10-10-10: hoje, amanhã e depois

Autora: Suzy Welch

Editora: Ediouro

 

Colaboração: Marco Aurélio Marcondes

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