Comprometimento: um jogo em que todos ganham

A clareza do negócio e dos objetivos para líderes e colaboradores ajuda nos desafios individuais e pode garantir melhores resultados. Dia desses, estive na papelaria de um amigo. Sempre que nos encontramos, trocamos informações sobre a administração de nossos comércios, eu sobre o restaurante e ele sobre a papelaria. Ele começou a conversa falando sobre a dificuldade que está com uma de suas funcionárias, Flávia. Primeiro falou sobre suas qualidades: pontual, pouco ociosa e organizada. Depois das suas habilidades na arrumação, limpeza, decoração da loja e ainda na presteza em auxiliar no controle do estoque, do caixa, contas a pagar e receber, entre vários afazeres do dia-a-dia de uma papelaria. Em um suspiro angustiado, lembrou o seu bom senso cooperativo: ela costuma avisar quando algo do estoque está acabando, preocupa-se com o desperdício, ao que parece uma funcionária que conhece o seu trabalho e tem interesse sobre os produtos e serviços do negócio.

A única reclamação do amigo é quanto ao seu atendimento, no quesito simpatia. Ela o faz com especial atenção aos clientes que são amigos pessoais, da universidade ou amigos de longa data. Ao contrário, com clientes que ela não conhece e não tem interesse em desenvolver um relacionamento pessoal, seu atendimento deixa a desejar.

Em janeiro de 2005, Flávia conheceu um garoto através da internet, contou-me Jota. Ela mora em São Paulo e ele no Rio de Janeiro. Depois de horas de bate-papo, ela imaginou que poderia estar prestes a realizar um de seus sonhos: casar. Segundo Jota, depois de muito tempo de namoro virtual e troca de fotos, marcaram um encontro. Thiago viria até a casa de Flávia. A preocupação de Jota, porém, estava no fato de que uma semana antes do tão esperado encontro com Thiago, Jota percebeu que estavam ocorrendo mudanças no comportamento de Flávia, inclusive quanto ao seu trabalho na papelaria. Sendo perceptível sua falta de atenção, ociosidade, descuido e desperdício no trabalho. Assim começou: descontrole de estoque, mau atendimento, entre outras. A visita que Flávia iria receber poderia ser a realização de um sonho. Encontrar seu par parecia ser mais importante do que seu emprego, seus amigos, sua família ou sua faculdade. O que a inspirou a ter um grau de comprometimento tão elevado no quesito amor, a ponto de minimizar o comprometimento com outros quesitos?

Ouvindo o desabafo do meu amigo e atento à sua preocupação , propus uma semana de desafios para Jota manter o bom desempenho de Flávia. O sonho e mais dois pontos que estou abordando, acredito serem importantes para o grau de comprometimento existente entre empresa e funcionário. Vamos a eles!

A importância dos sonhos
Partindo do princípio de que vivemos interligados à teia de relacionamentos, quase sempre acreditamos que a realização dos nossos sonhos, normalmente, depende de outras pessoas, com as quais estamos envolvidos em maior ou menor grau, conforme as necessidades apresentadas. Então, a importância de atentar para as expectativas e realizações desses sonhos depende de todos os envolvidos, assim, os sonhos continuam sendo gerados por mim e concretizados por todos.

Poder participar da realização dos sonhos de outras pessoas nos dá tanto prazer quanto realizar os nossos. Quantas vezes você ajudou alguém a realizar sonhos, seja através da doação de uma cesta básica a quem desejava saciar a fome, contribuindo com o conserto de um carro, moto ou máquina a quem queria trabalhar, um empréstimo para conclusão de uma casa ou apartamento, comprando um brinquedo para o filho, sobrinho ou para uma criança de rua? A emoção, quando o feito é de coração, é tão grande que parece que se realizou o próprio sonho.

Quando estou envolvido em um negócio, por exemplo, a idéia muitas vezes já nasce de um grande sonho, seja de ser independente, praticar minhas teorias, manter-me ocupado. Acredito ser importante a recíproca de envolvimento para as realizações, tanto do funcionário quanto do empregador, por isso muitos chamam seus empregados de colaboradores. Quando compartilhado os sonhos do empregador com os funcionários e vice-versa, possibilitamos melhores resultados (cumprimento de metas e objetivos), reduzimos os desgastes com perdas de energia e, ao investir nos funcionários e agregar valores como parte do negócio, podemos realizar sonhos coletivos e individuais. Vencer desafios juntos, o que proporciona ganhos para todos.

Investimentos: duas maneiras de comportamento
Quando me envolvo financeiramente com um negócio para realizar o meu sonho, é preciso dinheiro para a realização, tanto o dono quanto quem nele trabalha. É interessante avaliar o envolvimento e o comprometimento, o que possibilitará uma visão futura de ganhos ou perdas sobre o capital investido ou sobre a renda mensal, no caso de salários. O tamanho do meu sonho é proporcional ao meu investimento em realizá-lo. Quem acredita mais investe mais.

Quando há dinheiro envolvido, há maior motivação para ações de desempenho, pois ninguém gosta de perder, ouvimos: ?Dou o sangue pelo negócio?. Mesmo sabendo que sempre há ganhos, mesmo nas perdas. Mas isso só se percebe com a maturidade.

Na segunda opção, aguardo o negócio definhar e, entre as razões, está o quanto acredito em mim e no outro. Talvez eu sonhe sozinho ou não. Há falta de envolvimento e comprometimento, assim vejo os investimentos indo pelo ralo, ou pior, investindo mais para suprir as perdas. É comum ouvirmos experiências em que alguns funcionários e empresários dizem: ?Tal pessoa não está nem ai?, acredito que seja por falta de comprometimento financeiro. O sistema capitalista vigente provoca divergência de interesses, e os contratos de trabalho resultam em pagamento de salário, alguns benefícios e, quem sabe PLR, restringindo os sonhos e, conseqüentemente, a motivação, principalmente para empresas que não se interessam pelos sonhos de seus empregados.

Avaliam-se apenas os resultados, há pouco interesse pelo seu capital humano, então, para que se esforçar? O básico é mantido e talvez um pouco mais, para não perder o emprego. Segundo Jota, a situação financeira de Flávia não é das piores, porém, ela sempre reclamou que não podia viajar nas férias ou feriados. Mas com seu possível namorado, nem mesmo a distância parecia empecilho, já estava planejando vê-lo no Rio de Janeiro. Como reclamar em um dia e no outro viajar? Como Flávia conseguirá pagar todas as despesas? Preocupava-se com ela. Na ansiedade de esperar Thiago, ela perdeu nada menos que cem cópias de um material, esse desperdício poderia ser evitado se estivesse envolvida financeiramente com o negócio. Para Jota, o namoro de Flávia também é importante, para ele é interessante que o gerenciamento desse estado seja melhor conduzido.

Acredito muito na mudança do sistema de gestão, no qual os funcionários possam dividir em proporções pré-acordadas lucros e perdas. Vários sistemas de gestão, como o cooperativo e o participativo, têm sido implantados, demonstrando que é um bom caminho. O que falta para um acordo trabalhista interessante a todos é um sistema de gestão em que um empreendedor (detentor de capital) tenha remuneração adequada ao investimento e os outros integrantes também participem com uma maior parcela dos lucros ou das perdas. Diferente dos planos como PL ou PPR, participação nos lucros ou resultados, respectivamente.

Respeito cooperativo
Flávia, com seu sonho a realizar, vai encontrar seu namorado virtual, possivelmente estão vivendo o início do que pode ser um grande relacionamento. Mesmo com dificuldades financeiras, Flávia irá de São Paulo para o Rio de Janeiro, cidade que sempre sonhou em conhecer. No entanto, jamais pensou em gastar parte de seu salário em passagens para uma viagem desse porte, mais de mil quilômetros. Qual é a força que faz com que ela vá ao encontro de seu ?novo amor?? Qual é a motivação? A paixão? O desejo? O fato é que ela está indo. Refletimos, e Jota percebeu que, juntos, eles poderiam realizar seus sonhos, se preocupando com as angústias de Flávia e, juntos, achariam uma maneira de conduzir as energias para os canais corretos, melhorando o desempenho de Flávia no trabalho e proporcionando a ela o encontro de seu sonho. O mesmo acontece quando estou fazendo algo para a minha empresa, vem uma superforça que me impulsiona a realizar tarefas que parecem impossíveis, sem barreiras de tempo, recursos, pessoas. Então, volto a perguntar: o funcionário faz parte do seu negócio? Quando faço parte do negócio, a minha motivação é diferente.

Temos vários exemplos de empresas assumidas pelos funcionários com ótimos resultados, claro, que como as outras também resolvem e enfrentam desafios. A clareza do negócio e dos objetivos para ambos, todos compromissados com a parte de cada um, a ajuda recíproca nos desafios individuais e em grupo podem garantir melhores resultados.

Flávia compreenderá a necessidade de se comprometer com o trabalho para que os seus próprios sonhos possam ser realizados, e Jota percebeu que Flávia era o seu capital de investimento mais importante.

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