Se toda vez que executar uma tarefa a criança for gratificada, mesmo que com uma bala e não com um ?muito bem?, o incentivo moral perderá totalmente a sua função sobre o bom comportamento. Educar é uma das tarefas mais difíceis que existem. Quando os filhos nascem nos sentimos como se o chão embaixo dos nossos pés sumisse. Com o tempo, essa sensação melhora, mas, de alguma maneira, sabemos que o chão em que pisamos não é muito firme e que a tranqüilidade de caminhar sobre ele vai demorar algum tempo.
Entendemos que educar é muito difícil porque não é uma tarefa somente de profissionais diplomados, é de gente que não cursou nenhuma faculdade para ser pai ou mãe e que pretende desempenhar esse papel com os recursos emocionais e intelectuais que dispõe. Logo, podemos contar com a educação que recebemos dos nossos pais, livros, escola e com o nosso bom senso para educar os filhos.
Nos últimos 30 anos, a oferta de produtos e a sua divulgação aumentaram muito, e a forma como vivemos e como nos comportamos sofreu uma grande alteração. Alimentação, utilidades, roupas e outros tantos itens sofreram uma modificação de conceito, não só de oferta. Consumir ultrapassou a barreira da necessidade e se tornou um espelho do padrão social, intelectual e emocional do indivíduo.
Tanto para as crianças como para os adultos, consumir deixou de ser uma conseqüência e passou a ser um exercício de prazer que tem o tempo do próximo lançamento ou novidade.
As escolas e os pais vêm se preocupando cada vez mais com a questão de como orientar os seus alunos e filhos a consumir com educação e consciência. Temas relacionados ao consumo sustentável são discutidos dentro da sala de aula com o objetivo de instaurar uma nova ordem social e econômica nas sociedades futuras.
Os pais também vêm modificando a forma como incentivam os seus filhos a consumir. Essa mudança se deu primeiro por uma questão muito mais econômica que social. Nos últimos anos, a queda do poder aquisitivo reorganizou os hábitos de consumo da maioria das pessoas e as crianças acabaram sendo criadas com maiores restrições. Isso é uma realidade constatável nas classes B e C, que perderam consideravelmente o seu poder aquisitivo.
Cada classe social tem os seus sonhos de consumo, e a frustração é sentida da mesma maneira se acontecer por conta de um brinquedo de 20 reais ou de um computador de 2 mil reais.
Criança detesta ser frustrada e sempre reage muito mal a qualquer contrariedade, principalmente se a compra estiver aliada à gratificação, prêmio ou bônus por bom comportamento. A maioria dos pais costuma gratificar os comportamentos corriqueiros e obrigatórios dos seus filhos com mimos dos mais variados valores, impondo uma relação entre os deveres e as gratificações absurdas. Esse comportamento faz com que a criança absorva o conceito de prêmio ou gratificação de maneira inadequada. Se toda vez que a criança executa uma tarefa ou faz uma gracinha diferente for gratificada, mesmo que com uma bala e não com um ?muito bem?, o incentivo moral perderá totalmente a sua função sobre o bom comportamento e o objeto fará esse papel.
A falta de limites é outro vilão do consumo desordenado. Pais que têm dificuldades de dizer ?não? aos filhos acabam satisfazendo as vontades dos pequenos muito mais para não ouvi-los esbravejar do que por convicção de que estão fazendo a coisa certa. Além disso, isso faz com que a criança tenha dificuldade em desenvolver a sua auto-estima e apresente uma baixa tolerância à frustração, que leva a sentir-se insuportavelmente insatisfeita quase que o tempo todo. Nesse caso, o presentinho ou o mimo faz o papel de ?calmante? apesar de durar pouco.
Esses são os principais motivos que levam o jovem ou mesmo o adulto ao consumo desordenado. Quem está feliz e satisfeito com a sua vida emocional e se sente seguro consome com ponderação e escolhe o que consumir. Já o indivíduo insatisfeito não se importa com o que consome, o que interessa é a sensação imediata de prazer, independente se isso vai lhe prestar.


