Nascido em São Francisco, em fevereiro de 1955, filho de pais universitários e não casados, foi oferecido à adoção com uma semana de vida e adotado por Paul e Clara, um casal de operários que, pouco tempo depois, mudou-se para Mountain View, na Califórnia, uma cidade rural cheia de pomares. Na escola, ele, que recebeu o mesmo nome de seu pai adotivo, um mecânico, esteve a ponto de se tornar um delinquente.
Ele diz que seu professor do quarto ano salvou seu percurso como estudante, subornando-o com dinheiro e doces: “Certamente, eu teria acabado na cadeia”. Um vizinho da mesma rua o apresentou às maravilhas da eletrônica, dando-lhe heathkits, (kits eletrônicos vendidos como hobby) que o fizeram compreender o funcionamento interno dos produtos. Até aparelhos mais complexos, como TVs, deixaram de ser enigmáticos. “Aquelas coisas não eram mais misteriosas”, disse ele. Quem é esse homem? Steve Jobs, cofundador da Apple.
Steve Jobs passa quase tanto tempo pensando nas embalagens de papelão quanto nos próprios produtos. Não é uma questão de gosto ou elegância, embora isso também faça parte. Para Jobs, o ato de tirar um produto de sua caixa é uma parte importante da experiência do usuário e, como tudo o mais que ele faz, deve ser pensado com muito cuidado. Jobs vê a embalagem como uma ajuda para apresentar uma tecnologia nova e desconhecida aos consumidores. Um exemplo é o Mac Original, lançado em 1984. Naquela época, ninguém jamais havia visto algo semelhante. Era controlado por aquela coisa estranha que apontava – um mouse –, e não por um teclado, como os PCs de antes dele.
Assim como a embalagem, Jobs controla cada um dos demais aspectos da experiência do consumidor – dos anúncios na TV, que aumentam o apelo aos produtos da Apple, às lojas de varejo com aparência de museus, onde os clientes compram suas máquinas e do software fácil de usar do iPhone às lojas virtuais de música iTunes que são cheios de canções e vídeos.
Jobs tirou a Apple de uma falência iminente e, em dez anos, tornou a companhia maior e mais saudável do que já tinha sido. Ele triplicou as vendas anuais, duplicou a participação de mercado do Mac e elevou as ações da Apple em 1,3 mil%. A empresa tem lucrado e vendido mais computadores do que nunca graças a uma série de produtos de sucesso – e, especificamente, a um sucesso gigantesco: o iPod.
Lançado em outubro de 2001, o iPod transformou a Apple. E, assim como a empresa foi transformada de uma concorrente secundária em uma potência global, o iPod foi transformado de um luxo caro em uma diversificada e importante categoria de produtos. Jobs rapidamente transformou o iPod de um dispendioso player de música exclusivo para Macs, rejeitado por muitos, em uma indústria global de muitos bilhões de dólares que sustenta centenas de parceiros de negócios e companhias fabricantes de acessórios.
Rápida e implacavelmente, Jobs atualizou o iPod com modelos cada vez mais novos e melhores, acrescentando uma loja on-line, compatibilidade com o Windows e, depois, vídeo. Resultado: mais de 100 milhões de unidades vendidas até abril de 2007, correspondendo a pouco menos da metade das crescentes receitas da Apple. O iPhone, um iPod que faz ligações telefônicas e navega na internet, parece destinado a se tornar outro sucesso estrondoso. Lançado em junho de 2006, ele já está transformando radicalmente o monstruoso negócio dos telefones celulares, que os especialistas já dividiram em duas eras: pré-iPhone e pós-iPhone.
E não podemos nos esquecer da Pixar. Em 1995, o pequeno estúdio particular de cinema de Jobs fez o primeiro filme totalmente animado por computador: Toy Story. Foi o primeiro de uma série de megasucessos que foram lançados, um a cada ano, todos os anos, regular e constantemente como um relógio. A Disney comprou a Pixar em 2006 pela impressionante quantia de 7,4 bilhões de dólares. Essa compra fez de Jobs o maior acionista individual da Disney e o nerd mais importante de Hollywood. “Ele é o Henry J. Kaiser ou o Walt Disney desta era”,disse Kevin Starr, historiador de cultura e bibliotecário do estado da Califórnia.
A carreira de Jobs é realmente notável: vem tendo um imenso impacto nos computadores, na cultura e, naturalmente, na Apple. Ele se tornou bilionário por si próprio, sendo hoje um dos homens mais ricos do mundo. “Dentro dessa classe de computadores que chamamos de ‘pessoais’, ele talvez tenha sido – e continue a ser – o mais influente inovador”, diz Gordon Bell, o lendário cientista e proeminente historiador da computação.
Para Jobs, inovação tem a ver com criatividade, com juntar as coisas de formas únicas. “Criatividade é apenas conectar as coisas”, disse ele à revista Wired, completando: “Quando você pergunta a pessoas criativas como fizeram alguma coisa, elas se sentem um pouco culpadas porque, na verdade, não fizeram aquilo, elas só viram algo. A coisa lhes pareceu óbvia, depois de certo tempo, porque conseguiram conectar experiências que tiveram e sintetizar coisas novas.
E o motivo pelo qual elas conseguiram fazer aquilo é que tiveram mais experiências ou pensaram mais sobre elas que outras pessoas… infelizmente, isso é uma coisa bastante rara. Muitas pessoas em nossa indústria não tiveram experiências muito diversificadas. Então, não têm pontos suficientes para juntar e acabam tendo soluções muito lineares, sem uma perspectiva mais ampla do problema. Quanto mais amplo é o entendimento de uma pessoa sobre a experiência humana, melhor será o design resultante”.
O uso do magnetismo pela Apple é um bom exemplo de como a empresa pega uma tecnologia – algo tão simples quanto ímãs – e brinca com ela, disponibilizando-lhe diversas possibilidades de uso. Os primeiros ímãs apareceram nos fechos dos notebooks da Apple: um ímã puxava o trinco do compartimento e a tampa estava fechada. Depois, a companhia acrescentou ímãs a seus controles remotos para que eles pudessem ser guardados em segurança na lateral dos computadores.
Os MacBooks mais novos já dispensaram totalmente os fechos em favor de ímãs mais fortes, que mantêm fechadas suas tampas quando elas não estão em uso e também têm adaptadores de energia MagSafe, que ficam no lugar graças a ímãs. Eles são projetados para se destacar facilmente do cabo de energia, impedindo que o computador caia no chão. Essa é uma ideia que a Apple tirou das panelas japonesas de cozinhar arroz, que já têm adaptadores de energia magnéticos há muitos anos pelo mesmo motivo: para impedir que a água fervente da panela seja jogada pela cozinha se uma criança puxar o cabo.
Jobs disse que tudo o que ele aprendeu sobre produtos foi quando era garoto, com os heathkits, que eram muito populares para construir aparelhos eletrônicos como rádios amadores, amplificadores e osciladores. Os kits ensinaram a Jobs que os produtos eram manifestações da engenhosidade humana, e não objetos mágicos caídos do céu. “Aquilo me deu um tremendo nível de autoconfiança por saber que, por meio da exploração e da aprendizagem, podíamos compreender coisas aparentemente muito complexas que estavam ao nosso redor”, disse ele, que ainda afirmou: “Minha infância foi muito afortunada sob esse aspecto”.
Jobs sempre foi um atento estudioso de design, arquitetura e tecnologia. Seus escritórios eram cheios de dispositivos eletrônicos que ele desmontava para ver como funcionavam. John Sculley se lembra de que Jobs estava sempre estudando produtos de outros fabricantes. “Havia peças eletrônicas e gabinetes de produtos espalhados pela sala”, escreveu ele, que completou: “Era tudo entulhado e desorganizado, com pôsteres e fotos grudados nas paredes. Ele acabara de voltar do Japão com um produto novo que desmontara. As peças estavam sobre sua mesa. Sempre que Steve via algo novo que lhe instigava a curiosidade, conforme descobri, ele comprava, desmontava e tentava entender como funcionava”.
Sculley lembrou uma viagem que ele e Jobs fizeram ao Japão para se encontrar com Akio Morita, o legendário cofundador da Sony. Morita os presenteou com dois players walkman saídos das linhas de produção. “Steve ficou fascinado com aquilo”, recordou Sculley, que disse: “Então, a primeira coisa que fez com o seu foi desmontá-lo, observando cada uma das peças, como foi feita a montagem e o acabamento, enfim, como foi construído”.
Jobs frequentemente leva seus funcionários a tours a museus e exposições especiais para instruí-los em design e arquitetura. Ele levou a equipe de desenvolvimento do Mac a uma exposição de Louis Comfort Tiffany, o grande designer da art-nouveau, porque ele era um artista que comercializava seu trabalho. Na NeXT, Jobs levou um grupo a uma viagem de estudos à Casa da Cascata de Frank Lloyd Wright, na Pensilvânia, para estudar o design do grande arquiteto. Nessa empresa, Jobs, muitas vezes, ia até os escritórios da Sony, do outro lado do corredor, pegava os folhetos da empresa e examinava cuidadosamente as fontes, a diagramação e a gramatura do papel.
Em uma ocasião, Sculley encontrou Jobs percorrendo às pressas o estacionamento da sede da Apple, feito um louco, examinando os carros. Ele estava analisando os detalhes do seu design, buscando ideias que pudesse usar no design do gabinete do Macintosh. “Veja o design do Mercedes”, disse ele a Sculley, e completou: “A proporção entre os detalhes angulosos em comparação com as linhas fluidas. Ao longo dos anos, eles tornaram o design mais suave e os detalhes mais despojados. É isso que temos de fazer com o Macintosh”.
Jobs sempre foi interessado pelo design alemão. Nos anos 80, sua mansão de solteiro era vazia, afora um piano de cauda e uma grande bicicleta BMW preta. Ele sempre admirou a Braun, fabricante alemã de produtos eletrônicos mais conhecida por seu desenho industrial clean e que mesclava alta tecnologia com design artístico. Jobs já disse várias vezes que acha que a criatividade tecnológica e a artística são dois lados da mesma moeda.
Quando perguntado pela revista Time sobre a diferença entre arte e tecnologia, ele respondeu: “Nunca acreditei que fossem coisas distintas. Leonardo da Vinci foi um grande artista e cientista. Michelangelo sabia muita coisa sobre como cortar a pedra em uma pedreira. Os 12 melhores cientistas que conheço na área da informática são músicos. Alguns são melhores que os outros, mas todos consideram que isso é uma parte importante da vida deles.
Eu não acho que os melhores em qualquer dessas áreas se vejam como um galho de uma árvore bifurcada. Não é assim que eu vejo. Tem muita gente que reúne as duas coisas. O doutor Land, da Polaroid, disse: ‘Quero que a Polaroid se coloque na interseção da arte e da ciência’, e eu jamais esqueci isso. Acho que é possível, e creio que muita gente já tentou fazê-lo”.
Podemos concluir que a receita do sucesso de Steve Jobs é a paixão pelo que faz, sua visão do todo, necessidade de controle absoluto sobre tudo o que realiza e uma boa pitada de riqueza nos detalhes. Você, vendedor, supervisor, gerente de vendas ou dono de empresa, preste atenção na trajetória desse homem que marcou sua geração e, sem dúvida, deixará um legado. Pense em cada situação apresentada aqui e tente entrar nessa dimensão de esforço, dedicação, preparação, foco e espírito inventivo de Steve Jobs e crie sua própria maçã – apple. Torne o que você faz, seja lá o que for, em algo tão respeitado e desejado quanto a Apple. Bom trabalho!
Livro:A cabeça de Steve Jobs
Autor:Leander Kahney
Editora: Agir
Colaboração: Marco Aurélio Marcondes


