Todo mundo que trabalha com Vendas deve conhecer aquela história do velhinho com uma barraquinha de cachorro-quente na beira da estrada. Ela ia muito bem, ganhava dinheiro, mandou seu filho para a faculdade e, quando o filho volta formado, diz ao pai: “Ficou louco? Não sabia que o país está em crise? Você tem de baixar seus custos, fazer alguma coisa, porque as pessoas estão sem dinheiro e ninguém mais vai comprar cachorro-quente”. O pai troca a salsicha por uma mais barata, troca o pão de leite por pão d””””””””água. não repõe o cartaz que quebrou e, logicamente, o movimento vai diminuindo, diminuindo, até parar. Ao velho diz:””””””””
“Puxa, meu filho, você tinha razão. Estamos realmente em crise!”.
A história pode ser antiga, mas a mentalidade é mais atual do que nunca. Num filme iraniano que está atualmente em cartaz, um jovem desiludido quer se suicidar, já que a vida não tem sentido mesmo. Um senhor mais sábio tenta lhe convencer do contrário, contando-lhe outra história:
Um dia um turco chegou para o médico (os turcos são para os iranianos o que os portugueses representam para nós) e disse: “Doutor, estou com um problema gravíssimo. Eu aperto minha testa com o dedo e dói. Eu aperto meu braço com o dedo e dói. Aperto minha barriga com o dedo e dói. Aperto minha perna com o dedo e dói. Doutor, estou morrendo!” O médico examina o paciente e diagnostica: “Olha, fisicamente o senhor está perfeito. Não tem problema nenhum. O problema é que o seu dedo está quebrado!”.
Se você ler a Folha de São Paulo e ficar assistindo os telejornais todos os dias, verá o mundo através de uma ótica totalmente desequilibrada. Jornalistas que se formaram em Jornalismo, nunca foram empresários, não entendem nada de Economia ou de Administração, nunca tiveram que vender nada para vender, não têm funcionários, etc., dão-nos uma visão deturpada do mundo excessivamente pessimista e beirando a histeria, já que isso ajuda a vender mais exemplares e aumentar a audiência (se as pessoas hão gostassem de desgraça, Ratinho e Clones Cia. bem Ltda. não estariam fazendo sucesso por aí).
Se os dólares saem do Brasil, é capa do jornal. Agora, se entram, vão lá para a vigésima quinta página. Aumentou o desemprego? Chamada na capa. Aumentou a renda média do brasileiro? Notinha de rodapé. E por aí vai. O Brasil está em crise desde que eu me conheço como gente, agora gostaria de lhe fazer uma pergunta você está em melhor ou pior situação que os seus pais estavam quando tinham a sua idade? Aposto o que quiser que vai estar melhor. Então que crise é essa que a gente vai (admito que aos trancos e barrancos) – mas vai? Quem foi que falou que via ser fácil? Por que é que você acha que existe mais de 200 países no mundo, mas na reunião de cúpula dos mais desenvolvidos só tem 7? É porque não é para qualquer um. Como em toda vitória, é preciso disciplina e sacrifício às vezes, por décadas, mesmo que pareça que o túnel não tem saída, ou que já estamos derrotados. “No está muerto quien pelea”, se diz em espanhol.
A capa de janeiro será sobre a pesquisa Planos e Metas (mais uma vez, quero agradecer a todos os que responderam) e, mesmo com toda essa turbulência, a maioria dos nossos assinantes diz que vai ficar estável ou crescer, mesmo que pouco. Pela minha foto, você provavelmente perceberá que não tenho 50 anos de vivência empresarial. Mas, desde que comecei a me interessar pela Gazeta Mercantil (há 14 anos, exatamente), é a primeira vez que sinto que dessa vez vai, com crise e tudo. E nós, vendedores, temos que fazer a nossa parte, que é vender e fazer girar essa economia. Parece exagerado, mas pense bem: nunca, em toda a história brasileira, foi tão necessário que fossemos os melhores profissionais que podemos ser. Então, vamos parar de ficar falando em crise e vender, porque milhões de famílias brasileiras dependem de nós (inclusive a sua, certo?).
E só para mostrar que a criatividade funciona quando você quer transformar crise em oportunidades (o Nizan Guanaes sempre diz “enquanto alguns choram, outros vendem lenços”): este mês você deve estar reparando a Técnicas com mais paginas, principalmente anúncios. E que fizemos uma parceria com a TAM, e fomos convidados a distribuir a Técnicas entre os passageiros da Super Ponte TAM, nos meses de dezembro e janeiro. Como resultado, um monte de anunciantes se cotizou para ajudar-nos a cobrir os custos ganham os passageiros da TAM, a própria TAM, os anunciantes e você, leitor, que terá mais páginas de informação (selecionamos os anúncios, e só deixamos que fossem publicados os de interesse e relevância aos profissionais de Vendas e Marketing).
Então, é crise mesmo ou é falta de criatividade? Será que não é o dedo de algumas pessoas que está quebrado?
Então, este mês nem pense e nem fale em crise e venda mais.
Raúl Candeloro
Editor


