Informação exclusiva para os leitores de Venda Mais. Dizem que a Argentina…
É. Se tem algo que atrapalha as vendas, é o “dizem que”. Dizem que a Argentina, dizem que o dólar, dizem que a
Roseana, dizem que o concorrente.
Dizem que um boato é como fogo na floresta. Ou como abrir um travesseiro de penas em uma ventania. Ele se espalha de forma incontrolável. Uma palavra dita faz com que pessoas mudem os rumos de suas empresas. Um “dizem que” contado de maneira elaborada provoca corrida para compra de dólares, queda nas ações, queda de funcionários, corrida para venda de dólares. Um boato tem uma força inquestionável. É informação direto da fonte. Não saiu no jornal porque eles não deixaram. Aguarde um pouco e você vai ver o rolo que isso vai dar.
E o pior, não há como parar um rumor. A não ser com outro boato. O negócio, então, seria atacar logo em seu nascimento, mas ninguém até hoje conseguiu testemunhar o surgimento de um “dizem que”. Tenta-se fazer o caminho inverso. Perguntar de quem aquela pessoa ouviu o boato, ir até o sujeito, perguntar de novo e assim sucessivamente. Até que a estrada é interrompida com informações vagas:
– Ouvi no rádio.
– Ah, eu sou garçom e ouvi dois engravatados falando sobre isso. Na caça à nascente do boato, também pode ser ouvido um:
– Não posso revelar a minha fonte. Não se sabe se isso significa que ele é ligado com gente muito importante ou que o assunto surgiu enquanto ele discutia a novela com a viúva do 307.
Como ninguém conhece a origem dos boatos, uma explicação é tão boa como qualquer outra. Vamos lá:
Seu Dagoberto é aposentado em uma cidadezinha do interior de São Paulo. Viúvo, os filhos moram longe. Um dia ele teve uma idéia para ocupar seu tempo. Começou a anotar em um caderno, com sua letra miúda, o nome de pessoas de expressão. Políticos. Artistas. Funcionários públicos. Dignatários estrangeiros. Em outro caderno, ele escreve o nome de empresas, do Brasil e do exterior. Também anota nome de lugares, países, moedas, organizações e partidos. Ele também criou uma lista de verbos e ações como ir, sair, ter um filho, dar um golpe, ganhar, etc.
Todas as manhãs, seu Dagoberto toma seu café, limpa a mesa e coloca ali seus dois cadernos e a lista. Então fecha os olhos, abre o primeiro caderno e aponta para um nome. Em seguida, também às cegas, escolhe uma ação e um local ou organização. Aí seu Dagoberto dá tratos à bola para ver como ele pode combinar os elementos. Ele costuma dizer aos mais chegados que esse exercício é melhor do que xadrez para manter a mente jovem e ativa. Após ter criado uma história convincente, ele se arruma, põe seu velho casaco cinza, e sai pela cidade. Tem dias que ele conta a história para o jornaleiro. Outras vezes, para as moças da padaria, enquanto toma um cafezinho. Ou para o pessoal que fica papeando na praça, para o barbeiro, para o padre, no meio da confissão.
A glória é quando alguém lhe conta, sem saber, uma história que ele inventara. Algumas vezes o conto chega até seus ouvidos totalmente deturpado, com novos elementos e personagens, mas não importa. Cada história é como um filho, que saiu pelo, mundo e volta para casa, cheio de novidades. Seu Dagoberto sorri, satisfeito.
Ele criou o passatempo perfeito. Boa parte de suas manhãs são dedicadas à elaboração do boato. E o resto do dia voa, ocupado com várias conversas. Afinal, todos na cidade gostam do seu Dagoberto, um velhinho simpático que tem sempre uma novidade para contar.
Sério, é assim que nascem os boatos. Mas isso ninguém fala.
Brasílio Andrade Neto brasilio@editoraquantum.com.br Assine a e-zine Humor VM no site www.vendamais.com.br


