É óbvia a importância das boas relações no trabalho?

No nosso contexto cultural, boa parte das pessoas ainda não ?exige? ser bem tratada, com igualdade, justiça, respeito e qualidade de atenção adequada. É falado muito sobre a importância da competência em relacionamentos interpessoais na organização, para a liderança ética, motivadora, eficaz e sobre equipes sinérgicas. Tudo isso para melhorar os resultados da organização e torná-la mais competitiva. O discurso parece lógico e geralmente vem alicerçado por inúmeros argumentos aparentemente irrefutáveis. Portanto, a expectativa seria de que os livros editados na área, os treinamentos, as discussões acaloradas em congressos, os seminários e inúmeras outras ações nesse sentido seriam elementos provocadores de mudanças culturais e sociais significativas. Mas isso não é o que se vê na prática, na maioria das organizações.

Há poucos dias, eu conversava sobre esse tema e alguém perguntou: ?O que ocorre com os relacionamentos organizacionais, que pouco evoluem para serem saudáveis e maduros??. Essa pergunta gerou algumas reflexões que quero partilhar com você.

Uma situação que corrobora a dificuldade de melhorar os relacionamentos interpessoais é o fato de que isso depende de autoconhecimento e autogerenciamento ou do que Peter Senge chamou, há pelo menos 16 anos, de domínio pessoal, como a disciplina do crescimento e aprendizado pessoais para criar os resultados desejados na vida. Quantos líderes e executivos estão ocupados em desenvolver essa competência? Quantos têm noção clara de seus modelos mentais e conseguem mudá-los, quando importante? Quantos, diante de realidades estressantes, se mostram mais criativos do que reativos?

Outra questão é que, sem dúvida, mudar dá trabalho. Quem já se propôs a mudar hábitos, notou que há inimigos ocultos e fortes, quase imbatíveis. O dia-a-dia é pleno de demandas urgentes e exigências de resultados, as forças inconscientes, com condicionamentos anteriores, ávidos por lhe protegerem contra riscos e quem sabe de outros fantasmas. Tudo isso parece atuar, às vezes, com muito mais convicção do que possui aquele que se esforça para alcançar novos níveis de autodesenvolvimento. E, quando alguém mal percebe, já se passaram mais alguns meses ou anos, sem que nenhuma mudança tenha acontecido.

Propósitos são facilmente esquecidos, a conscientização se esvai como a areia corre com o vento e não se sabe porque, tudo continua como antes. É bom esclarecer que mudar exige planejamento, administração do tempo e de outros recursos, ações que reforcem a intenção continuamente e um nível de atenção maior, muito mais constante do que as pessoas costumam usar para as tarefas habituais.

Nessa análise, algo me parece da maior importância: os que se sentem lesados nos relacionamentos organizacionais devem se conscientizar de que eles próprios são coniventes, ou seja, contribuem ativamente ou por omissão, para esse processo. No nosso contexto cultural, boa parte das pessoas ainda não ?exige? ser bem tratada, com igualdade, justiça, respeito e qualidade de atenção adequada. Muitas pessoas justificam e ainda acham ?normal? serem destratadas ou desqualificadas por um chefe, um colega, pelas instituições ou receberem um nível de atenção irrisório e continuar fazendo a sua parte, ou seja, se esforçando para gerar os melhores resultados para a empresa. Essas pessoas não percebem que essa forma de comportamento, de uma parte e da outra, gera um ?contrato de relacionamento?. Conseqüentemente, a evolução dessa relação, diante do estresse ou de situações mais críticas, leva a mais hostilidade e desqualificação. Assim, se constroem relacionamentos disfuncionais, com a participação dos dois lados.

E, como se não bastassem essas causas, na nossa cultura ainda existe o hábito de primeiro sofrer a perda, para depois pensar na prevenção.

Não pretendo, com essas reflexões, esgotar os motivos de não dar a devida importância à construção de mais relações saudáveis no trabalho. Entretanto, acredito que vale a pena esforçar-se para compreender esse tema em maior profundidade, porque é um desejo de muitos e um direito que pode ser conquistado por todos os que compreendem realmente os inúmeros benefícios que trazem à organização como um todo. Além disso, mantenho a esperança de que as organizações e seus profissionais despertem logo desse ?subdesempenho satisfatório? para a excelência.

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