É só um minutinho

Eu saía da vaga do estacionamento de uma videolocadora que possui duas vagas devidamente demarcadas para deficientes físicos. Quando digo demarcadas é porque possuem o enorme símbolo universal pintado no chão e outra imensa placa na cara de qualquer motorista: ?vaga exclusiva para deficientes?. É só um minutinho

Por Cesar Romão

Eu saía da vaga do estacionamento de uma videolocadora que possui duas vagas devidamente demarcadas para deficientes físicos. Quando digo demarcadas é porque possuem o enorme símbolo universal pintado no chão e outra imensa placa na cara de qualquer motorista: ?vaga exclusiva para deficientes?.

Um veículo atravessa a minha frente e estaciona, preenchendo as duas vagas para deficientes. Atrasei um pouco minha saída para ver se a pessoa precisaria de ajuda, porque, afinal de contas, pareceu ter dificuldade imensa para estacionar o carro.

Desce do veículo um cidadão em plena forma física, a passos largos… pelo que vi, sua única deficiência aparente deveria ser a cegueira… Não resisti e disse:

? Ei, companheiro, tudo bem? Acredito que não tenha visto a placa! As duas vagas que acabou de ocupar são para deficientes!

Ele me deu uma medida de alfaiate e logo bradou:

? Eu não sou cego… Vi as placas, sim… É só um minutinho! Vou só pegar um filme. Mas quem é você? O bedel do estacionamento? ? Bem, companheiro, eu tinha razão na primeira impressão que tive a seu respeito… Sou apenas um cidadão… Mas agora vejo que a vaga é realmente apropriada para você: sua deficiência é desrespeitar o próximo… ? E daí, vai tirar meu carro, babaca? ? disse ele. ? De maneira alguma ? respondi.

Tirei meu carro do estacionamento e parei logo atrás do dele, impedindo sua saída. Chamei a polícia, que chegou em alguns minutos. O tempo fechou legal, e o cidadão experimentou naquela noite algo novo. Tudo acabou bem para a ?vaga?, claro, pois talvez em todo tempo de sua existência, jamais tivesse encontrado uma bandeirada de respeito como essa. A turma da loja dizia:

? É sempre assim: cansamos de falar e de aumentar a placa, mas poucos respeitam.

Pessoas estacionam em locais proibidos. Aí o guarda chega e ouve: ?É só um minutinho, seu guarda?. Pessoas furam a fila e dizem: ?É só um minutinho?. Entram em bancas de jornal, lêem todos eles, folheiam revistas, e, quando perguntadas se vão levar algo: ?Não, obrigado. É só um minutinho.? Alguém pára em fila dupla, o povo reclama, e se ouve: ?Calma aí, gente! É só um minutinho!?.

E assim, de minutinho em minutinho, muita gente vai levando a vida, incomodando, desrespeitando, praticando o egoísmo cívico e social. Será que o ?é só um minutinho? tem algo a ver com a cultura do povo brasileiro? Talvez! Mas às vezes não passa de uma desculpa para a incapacidade de atuar em um contexto em que normas e espaços têm de ser respeitados.

E como será que as pessoas do minutinho ficam quando experimentam seu próprio ?veneno?? Por exemplo, estão no setor de emergência de um hospital com alguém que lhes é muito importante. O atendimento tem de ser feito em apenas um minuto, decisivo entre a vida e a morte, e ouvem do atendente: ?Aguarde um pouco! É só um minutinho, já vamos fazer sua ficha?.

É fundamental que analisemos todos os ângulos da questão. Digo isso porque já vi pessoas estacionarem até em vagas de ambulância, dentro de hospitais, e saírem rapidamente do carro dizendo: ?é só um minutinho?. De minutinho em minutinho essas pessoas terminam por acreditar que está tudo bem, a vida é assim, os outros também fazem isso, não é mesmo? E, se fazem, elas também podem fazer…

Os outros não são você e você não é os outros! Portanto, procure não dizer por aí: ?é só um minutinho?. Sua vida não é feita de um minutinho, e seus anseios não são resolvidos em apenas outro minutinho. Tenha honestidade para assumir que a vida é feita de excelentes minutos e faça valer a pena cada um deles.

Frase: ?Todos os capítulos da Constituição deveriam ser substituídos por um único artigo: ?Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha?? ? Capistrano de Abreu

Cesar Romão é conferencista, consultor organizacional e escritor. Autor de vários livros

Para Saber Mais: Tudo Vai Dar Certo, de Cesar Romão (Editora Arx). Visite: www.edarx.com.br.

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