EMOÇÕES NOCIVAS ORGANIZACIONAIS PODEM SER COMO TÓXICOS PARA O ORGANISMO

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Você sabe quais são os principais motivos por que as pessoas não atingem seus objetivos? As emoções estão em todos os lugares. Elas são contagiantes, mas muitas vezes tornam-se nocivas e podem deprimir o sistema imunológico, ocasionando sérios problemas organizacionais. Baseado em pesquisas científicas, o psicólogo sul-africano Peter Frost, pesquisador e professor de comportamento organizacional na Sauder School of Business da UBC (University of British Columbia, no Canadá) e professor convidado de Gestão de Finanças do MBA Executivo da Fundação Dom Cabral, em Minas Gerais, propõe em seu livro Emoções Tóxicas no Trabalho (Ed. Futura) uma discussão e avaliação sobre as chamadas dores emocionais.

Para ele, pressões rotineiras e falta de motivação no trabalho são emoções nocivas que funcionam como toxinas para o organismo e para o ambiente organizacional. Em entrevista à revista VendaMais, Frost afirma que é possível não se deixar contaminar por elas e ensina como não absorver o sofrimento para si. Acompanhe.

VendaMais – Por que a falta de habilidade em gerenciar os sentimentos dos profissionais está envenenando as organizações?
Peter Frost – Porque esses sentimentos de dor, quando não tratados, podem facilmente deixar aqueles que estão sofrendo com uma sensação de perda de fé e esperança. Se o meu trabalho e as minhas contribuições vêm sendo criticados ou atacados de forma injusta, isso dói, e eu vou focar minhas atitudes nessa dor e naqueles que estão me fazendo sofrer. A partir daí, eu certamente não estarei mais empenhado em tentar ser criativo e produtivo.

VM – Como essas relações tóxicas podem afetar a competitividade de uma empresa?

PF – As pessoas não dão o seu melhor no trabalho quando estão machucadas ou perdem a esperança. isso é revelado em suas atitudes. Certa vez, disse o Sr. Marriott, CEO da rede de hotéis Marriott: “Você pode construir o melhor hotel, na melhor localização, oferecendo as melhores acomodações, mas se o serviço fede e os empregados não estão nem aí, os clientes não voltam mais”. Quando as pessoas são machucadas, e isso é altamente tóxico (das param de acreditar), freqüentemente elas se tornam mal-humoradas, frustradas e depressivas. E isso nunca irá gerar uma boa performance ou um bom serviço ao cliente.

VM – Quando a dor se torna um obstáculo e quando ela pode ser vista como um poderoso combustível de mudança no ambiente tóxico de trabalho?

PF – Às vezes, devemos aceitar a dor para ver as coisas acontecerem… para alcançarmos a excelência… “sem dor não há resultado”. Mas quando a dor é traduzida por uma experiência capaz de ferir a dignidade e baixar a auto-estima de alguém, o funcionário não consegue ver a conexão entre a dor e qualquer forma de ganho desejável… tudo será negativo bem como a produtividade irá cair.

VM – Por que o senhor afirma que “a vida é dor e qualquer um que tentar lhe convencer do contrário, estará tentando lhe vender algo”? Como um vendedor pode melhorar sua performance usando sua própria dor proveniente da instabilidade do dia-a-dia?

PF – Eu estava tentando dizer que constantemente nos são oferecidas soluções triviais e sem efeito para resolver problemas difíceis por pessoas que estão tentando ganhar dinheiro. Na verdade, vendas pode significar algo complicado para um vendedor na medida em que ele experimenta um sentimento de rejeição ao ouvir todos os dias, inúmeras vezes, a palavra “não”! Construir confiança em si mesmo e recusar-se a levar tudo para o lado pessoal pode ajudar a força de vendas a se tornar mais flexível. Também é bastante útil aproveitar todas as oportunidades para celebrar com a equipe as vitórias alcançadas.

VM – O senhor diz que as emoções são contagiantes. Como uma pessoa pode evitar ser contaminada por elas? Existe algum tipo de vacina?

PF – Recomendo estar sempre alerta em relação às possibilidades de contágio e não se perder emocionalmente. Nem todo contagio é ruim. Contaminação positiva pode se revelar bastante inspiradora e motivante. Vemos tanto no ambiente de trabalho quanto no mundo esportivo, naqueles momentos em que um membro da equipe é capaz de dar apoio e coragem para os outros. A contaminação negativa acontece quando nós incorporamos a dor de outra pessoa em vez de apenas ajudá-la e, depois, esquecendo o assunto.

Vacina: esteja sempre saudável emocional, física e espiritualmente. Divirta-se. Durma bem. E tenha sempre alguém para lhe dar apoio quando necessário, ou mesmo que seja capaz de avisá-lo quanto estiver, inconscientemente, absorvendo dores alheias.

VM – O senhor afirma que toda liderança envolve dor. Quem é o mais predisposto a ser contaminado pelos outros: líderes carismáticos ou chefes frios e calculistas?

PF – Ambos são suscetíveis. Líderes carismáticos vivenciam muitas emoções e podem acabar atingidos. Os “racionais” tendem a esconder seus sentimentos e isso pode levar a uma doença, pois não há outro caminho senão encarar as emoções e trabalhá-las.

VM – Existe alguma relação entre dor e compaixão no ambiente de trabalho? É possível equilibrar essas duas forças?

PF – Sim, afinal, a dor é inevitável nas organizações e a compaixão também pode estar presente. Esta última é a reação humana ao sofrimento de outras pessoas na empresa. Quando não há compaixão suficiente, não apenas a pessoa sofre, mas eventualmente até a própria organização, o “corpo da empresa” acaba se infectando e adoecendo. O equilíbrio pode ser encontrado percebendo-se a dor como um elemento real e causando impacto na produtividade da companhia. Então, ela pode funcionar desde que referenciada pela diretoria.

VM – Aqueles que trabalham com toxinas sempre acabam intoxicados?

PF – Não. Digamos que é uma possibilidade sempre presente. Entretanto, há muito mais, benefícios para aqueles que ajudam os outros e conseguem fazer com que suas dores tenham fim, pois podem continuar saudáveis e ainda serão considerados de valor inestimável por seus colegas e pela empresa.

VM – Quem espalha com mais freqüência as toxinas na organização: os chefes ou os funcionários?

PF – Ambos. Os chefes têm a maior possibilidade de interromper esse processo através de treinamento e mudança de atitudes.

VM – Existe algum tipo de prevenção? O que as empresas podem fazer para cuidar melhor de suas emoções?

PF – Sim, tudo passa por: conduzir os funcionários para as atitudes corretas; desenvolvendo as pessoas e ajudando-as a brilhar; construindo honestidade e justiça na organização e criando um clima saudável. Só assim será permitido o aparecimento de oportunidade para a “cura”.

VM – O que os gerentes podem fazer para evitar que os efeitos nocivos da dor emocional afetem suas equipes?

PF – Eles podem começar prestando atenção ao estado emocional dos membros de suas equipes, ouvindo atenciosamente cada um desses membros quando ele pedir ajuda. Dando aos funcionários uru momento para respirar, para recobrar as forças quando eles são feridos. Colocando seu pessoal em primeiro lugar, fazendo com que eles percebam esse apoio e encontrem tudo o que precisam para realizar um trabalho excepcional. Sendo justo e dando exemplos de que seus sentimentos são importantes. Tratando os outros com respeito e dignidade.

Para Saber Mais:
Emoções Tóxicas no Trabalho Peter J. Frost Editora Futura. O livro foi lançado em setembro de 2003 e é a primeira obra do autor traduzida para o português.

“O equilíbrio pode ser encontrado percebendo-se a dor como um elemento real e causando impacto na produtividade da companhia”

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