Estórias no Ambiente Empresarial

Alfredo Castro

Storytelling é contar estórias com propósito, de forma a reunir razão e emoção, e motivar as pessoas que trabalham com você, engajando pessoas numa realidade de maior conectividade, com profissionais de diversas gerações.

Nos conte brevemente sua trajetória profissional até escrever “Storytelling”:

Alfredo Castro – Ao longo dos últimos 20 anos, tenho participado intensamente de eventos internacionais, incluindo a realização de palestras e painéis na ASTD dos EUA, eventos na Ásia e Europa. Nestas viagens internacionais, venho pesquisando há muito tempo os impactos das estórias e como o storytelling é utilizado no mundo corporativo. Atualmente, me divido entre os escritórios da MOT em Miami e São Paulo. Depois de escrever dez livros de negócios e atuar como consultor de negócios na implementação de projetos de gestão e recursos humanos, em mais de 120 empresas e mais de 25 países (Ásia, África, Europa e Américas), decidi concentrar minha pesquisa em Storytelling.

Minha sócia, Valeria Maria, havia conhecido o James McSill, baseado na Inglaterra e considerado um dos melhores coaches literários do mundo, além de um entusiasta do storytelling. Daí, após encontros no Brasil e exterior, palestras e estudos, resolvi escrever o “Storytelling para Resultados” mostrando como os executivos poderiam ampliar resultados com este tema. E o James trabalhou no livro juntamente comigo (por isso o crédito de “participação” dele). Eu e Valeria temos prosseguido, ampliando o tema, utilizando em projetos de consultoria e treinamento que temos feito, e, por isso, chegamos a alguns princípios do Storytelling para o mundo corporativo.

Como referência, um breve resumo: um especialista em gestão, consultor, autor e palestrante internacional. Assim pode ser definido Alfredo Castro, executivo e professor com formação multidisciplinar (finanças, recursos humanos, marketing, liderança) e uma trajetória profissional em vários países e em segmentos diferenciados.

Olhando para trás, existe algo que você gostaria de ter sabido ou descoberto antes – alguma lição que teria ajudado a superar ou evitar algumas dificuldades pelas quais passou?

AC – Todos nós somos contadores de estórias! E eu uso storytelling há anos… Mas gostaria de ter estudado profundamente este tema há mais tempo, de tão fascinante que ele é! Na verdade, nem sempre utilizamos e/ou contamos as estórias no ambiente de trabalho da melhor forma, com o objetivo de engajar realmente quem nos ouve. Eu gosto muito de artes (todas: música, teatro, cinema, plásticas, literatura, etc.) e isto vem me estimulando a buscar e aprender com os artistas como envolver as pessoas para contar estórias com propósito.

Com tantos livros sobre storytelling já disponíveis no mercado, o que o seu traz de diferente?

AC – Se você fizer uma busca por storytelling, vai perceber que há uma grande lacuna de obras que abordem este tema para o ambiente corporativo. É comum encontrarmos livros voltados para a elaboração de filmes, peças de teatro, cinema, etc., mas não é tão comum encontrar métodos e técnicas que possam ser aplicados ao mundo empresarial – e que fazem muita diferença no dia a dia de um executivo.

Além disso, o livro é uma ótima opção para quem está começando a sua carreira, ou para quem está liderando pessoas de novas gerações (mais conectadas, mais acostumadas as estórias, através de mídias sociais e jogos de vídeo game). Hoje em dia, dependendo do perfil e da região geográfica na qual está localizada uma organização, podemos encontrar entre 20 a 40% do contingente de trabalhadores com faixa etária classificada nas mais novas gerações (Y e Z). Estes profissionais estão sendo liderados por executivos mais vividos (gerações X e Baby Boomers) e vêm modificando o perfil de expectativas do mercado. Uma boa notícia: estas novas gerações são mais intensamente “movidas” a estórias do que seus pais e avós!

Perceba que as gerações mais novas foram criadas com recursos tecnológicos, em realidades virtuais e de mídias sociais que utilizam o melhor da ciência do marketing e do storytelling na prospecção, desenvolvimento e comercialização de produtos e serviços.

Poderia nos dar um exemplo extraído do livro que resume as principais ideias e conceitos que você defende?

AC – Em um determinado momento do livro eu explico como as estórias podem engajar pessoas no local de trabalho. Quando contamos estórias para envolver colegas da nossa equipe de trabalho é como se estivéssemos percorrendo uma estrada conhecida por todos, o caminho da lógica conjugada com a emoção.

Por exemplo, no ambiente de trabalho vamos pensar numa situação que comprove esta teoria; o ser humano não consegue ser tocado por “listas” e informações sem uma narrativa coerente.

Você já vivenciou alguma situação na qual passou ao colega uma relação das atribuições que devem ser feitas e, ao final, você verificou que ele não havia conseguido realizar o trabalho de forma adequada?

O que aconteceu, neste caso, é que o “storytelling” não foi aplicado, isto é, a falta de uma “narrativa” não gerou o engajamento do seu colega, e neste caso ele terá menos chance de se lembrare, provavelmente, não conseguirá se “envolver” nem repetir comportamentos adequados para a realização daquele trabalho.

Conclusão: compartilhar uma lista do que deve ser feito no ambiente de trabalho não é suficiente para promover a motivação e o engajamento!

Por outro lado, quando contamos fatos para um colega de tal forma a explicar um procedimento e damos como exemplo uma situação que aconteceu (digamos, na semana passada) estamos nos valendo do “storytelling” para enriquecer e consolidar tal fato.

Isto é “storytelling”.

O colega lembrar-se-á dos comportamentos que contamos se envolverá com a “estória” e conseguirá repetir os comportamentos “aprendidos” porque eles vieram juntos com a emoção da narrativa, possibilitando um resultado satisfatório.
Se conseguirmos criar um marco emocional na outra pessoa de tal forma que ela consiga vivenciar e memorizar, através do exemplo, o procedimento que deve ser adotado no trabalho, então se fez uso positivo do “storytelling”.

Qual seria a primeira coisa que você gostaria que alguém fizesse depois de terminar de ler seu livro, colocando em prática o que foi visto?

AC – Começar a observar como os outros colegas de trabalho (liderados e gerentes) contam estórias. As versões possíveis de uma estória são tão variadas quanto o número de habitantes do planeta Terra. Entretanto, apesar da infinita possibilidade de variação, a estória segue determinados fundamentos que se repetem há milhares de anos. Um deles é a capacidade que uma estória tem de reunir percepções e sentimentos – lógica e emoção ao longo de uma estrutura de descrição de fatos e acontecimentos que chamo de narrativa.

Por isso, no ambiente de trabalho, o Storytelling é um modelo de comunicação tão poderoso: quando se conta uma estória, utilizando determinadas técnicas, organizadas em um processo consciente que possibilita a articulação de informações, num determinado contexto e com um fim desejado, potencializamos os resultados e o envolvimento das pessoas, obtendo resultados extraordinários!

Que outros livros ou autores você recomendaria para quem quiser se aprofundar nesse assunto?

AC – Existem poucos livros em português, com storytelling no ambiente empresarial. Em um deles as bases do princípio de coerência cognitiva é abordado de forma muito interessante: escrito por Valeria José Maria, chama-se “Auto-Realização; A Escolha é Sua” (publicado pela Qualitymark). Outro que recomendo, publicado pela mesma editora, é o livro da Gislayne Avelar, “Storytelling: Líderes Narradores de Histórias”

No cenário internacional existem mais opções, dentre as quais o Paul Smith (Lead with a Story) é um dos melhores para líderes que querem aperfeiçoar suas habilidades de storytelling.

Qual é o maior erro que você vê as pessoas praticando em relação aos assuntos cobertos pelo livro?

AC – Um dos maiores erros é achar que as estórias pertencem somente ao “reino das artes” e não se aplicam ao mundo corporativo. Isso é um equívoco total! Só para dar um exemplo, em áreas como marketing e publicidade, a storytelling vem sendo muito bem usada há vários anos!

Que sugestões você daria para quem quer melhorar? Por onde começar?

AC – Numa empresa, a cultura é passada de funcionário a funcionário através das histórias, que se modificam, adaptam, ganham força e constroem a percepção de realidade, dando forma às culturas empresariais. Por isso, para você que quer melhorar, aqui vão algumas dicas sobre “Storytelling” no ambiente corporativo:

  • Histórias são tão fortes (e lembradas) que passam a ser repetidas e orientam o dia a dia empresarial: por isso, o líder precisa saber e cuidar das histórias que passam de pessoa em pessoa;
  • Se contar uma história é encadear eventos de maneira lógica, é importante criar espaços de troca e compartilhamento entre as pessoas, para que elas contribuam com o conhecimento coletivo de forma positiva;
  • Uma boa história no ambiente de trabalho, que deve ser repetida, precisa ser coerente, retratar “personagens” que possuam características do grupo e geralmente está relacionada a um processo de mudança, uma quebra de rotina bem-sucedida.

E o que você acha que essas pessoas deveriam PARAR de fazer?

AC – Minhas dicas para quem quer PARAR de perder tempo e oportunidades, porque não conhece os princípios de storytelling são:

  • Se você deseja ser um bom líder, que usa o storytelling de forma adequada, é melhor repetir poucas histórias de sucesso, do que ficar dizendo ao grupo para evitar as histórias de fracasso (elas poderão ser mais lembradas do que as positivas…); Um bom líder valoriza as histórias da sua equipe, estimulando o compartilhamento, mas valoriza aquelas que refletem eventos extraordinários e resultados satisfatórios.
  • Cuidado para não exagerar, e contar apenas histórias nas quais os protagonistas não têm nada que ver com os membros da equipe – parecerá impossível obter os resultados extraordinários descritos nestas histórias, já que os personagens não serão reconhecidos pelo grupo.

Baseado em toda sua experiência e depois de todas as pesquisas que fez para escrever seus livros, existe algum conselho sobre aprimoramento pessoal e profissional que você vê publicado com frequência mas com o qual não concorda?

AC – Meu conselho é objetivo, assertivo e muito direto para todos os que desejam melhorar: estude, converse, busque, pesquise e procure formas inovadoras de trabalhar! O conhecimento está aí disponível, mas os melhores profissionais são exatamente aqueles que conseguem criar boas ideias, combinadas com o conhecimento disponível. Acredite em você e vá em frente!

Existe algum conceito do livro que você gostaria de reforçar aqui?

AC – Veja minhas dicas para que você saia obtendo resultados com o storytelling no mundo corporativo:

  • Valorize as histórias da própria empresa. Cuidado com a citação da concorrência (ou de antagonista que pode ser visto como um super vilão, estereotipado), porque o grupo poderá memorizar o que “não fazer”, ao invés de vivenciar o que deve ser feito;
  • Uma história no ambiente profissional deve conter elementos que estão presentes também nas histórias da ficção, isto é, eventos com começo, meio e fim, passando por pelo menos um “clímax”, que gera expectativa e emoção. Uma das grandes diferenças, no entanto, é que a história corporativa pode contar com o “personagem corporativo”, que não é um ser humano, mas possui valores e uma missão a buscar. No mais, o componente emocional deve existir, pois é isto que gera envolvimento e comprometimento das pessoas que ouvem a história e aplicam seus ensinamentos no dia a dia corporativo.

Algum comentário adicional que gostaria de fazer aos nossos leitores?

AC – O mais importante: é hora de começar a conviver com o “Era uma vez” no seu ambiente de trabalho de forma mais consciente, estruturada e profissional. Com as redes virtuais cheias de histórias, games e aventuras, será impossível trabalhar sem se tornar um bom contador de histórias.

Pergunte-se: Você está pronto?


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Veja clips sobre storytelling no Youtube: www.youtube.com/watch?v=AlJFG0a1ZhI
Storytelling – Tripé: www.youtube.com/watch?v=2i3CPJdjOOU
Storytelling – Princípios e Resultados: www.youtube.com/watch?v=u_mo2h4pO7U
Storytelling – 3 Elementos: www.youtube.com/watch?v=MsSJ2x6hrvA


Alfredo-Castro

 

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