Experimentar

Não propiciar mecanismos para que o ser humano possa utilizar sua criatividade é um desperdício que nenhuma empresa esperta pode se dar o luxo de aceitar nos dias atuais. Indiscutivelmente, estamos na era da criatividade, considerando que, cada vez mais, as empresas têm de se reinventar para continuarem competitivas. São mudanças tecnológicas profundas, mudanças comportamentais bruscas dos clientes, bem como novos concorrentes agressivos alterando a dinâmica da competitividade. Com isso, a criatividade ganha uma importância inimaginável. Segundo Art Fry, inventor do post-it, para inovar é preciso olhar as coisas de uma nova forma, entender as pessoas, ter vontade de assumir riscos e trabalhar pesado. De imediato, surge um questionamento: como tornar a minha empresa criativa?

A maioria das inovações empresariais resulta de experimentos com muitos erros. Em ambientes com uma cultura que privilegia o perfeccionismo, em que as pessoas morrem de medo de errar e sentem vergonha de cair no ridículo, é impossível pensar em criatividade. Quem não pode errar, não pode experimentar. Um exemplo desse tipo de ambiente foi relatado recentemente pelo jogador de futebol Roberto Carlos, do Real Madri, ao comentar que é avaliado e recebe nota por parte dos torcedores durante os treinamentos. Que eu saiba, treino foi feito para errar à vontade, visando acertar na partida oficial. São exigências absurdas, possivelmente de fanáticos, que estimulam o surgimento do marketing pessoal, que prefiro chamar de “mentira pessoal”, no bom sentido. Nesse caso, a prioridade se torna cuidar da imagem.

Conheço muitos profissionais que fogem de tarefas que apresentam riscos de erros, visando assegurar o bom desempenho perante os seus superiores. Sabe-se que para conquistar intimidade e confiança em relacionamentos, é necessário você ser como é, nunca escondendo o seu lado desagradável. Qualquer coisa fora disso é falsidade.

Para poder criar, é preciso se sentir livre. Para que isso ocorra, o medo não pode estar presente. A inibição é uma das principais inimigas da criatividade. A exigência da perfeição leva qualquer pessoa a uma constante hostilidade contra si, exigindo capacidades que ela ainda não possui.

Cabe à liderança propiciar um ambiente positivo e de respeito. Um dos cuidados básicos é realizar a crítica, de forma construtiva, em um local privado e fazer elogios em público, bem como procurar elogiar bem mais do que criticar. Existe líder que passa a imagem de terapeuta, pois fica o tempo todo analisando. Ninguém gosta de ser analisado sempre, pois isso afeta a espontaneidade, que é a ignição da criatividade. Uma empresa voltada para a criatividade tem de se esforçar em demonstrar que todos os colaboradores são valorizados por seus pontos ótimos. Eu costumo recomendar para liderança e liderados que elaborarem juntos um código, visando eliminar todas as barreiras à criatividade, respeitando os princípios da ética, do trabalho em equipe e da democracia.

O ser humano tem consciência das suas imensas faculdades. Não propiciar mecanismos para que ele possa utilizá-las é um desperdício, que nenhuma empresa esperta pode se dar o luxo de aceitar, nos dias atuais. Lógico, com muito bom senso e respeitando o custo?benefício, o experimentar deve ser levado mais a sério, pois os problemas atuais, de maneira geral, envolvem variáveis jamais vistas, até então. Em face disso, uma pergunta deve ficar no ar: quando foi a última vez que a sua empresa teve uma brilhante idéia?

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