Fusões, aquisições, consolidações euforia de 2007, o movimento mundial das bolsas entra em compasso de espera e todos se preocupam com a inflação global, o volume de aquisições e fusões na América Latina dobrou no primeiro semestre de 2008 em relação a 2007. De acordo com a agência de notícias Reuters, passamos de US$42,9 bilhões para US$85,4 bilhões e caminhamos para bater, com facilidade, o recorde histórico registrado em 2006 de US$158,6 bilhões. As financeiras consultoras líderes em negócios de fusão e consolidação, Credit Suisse, Goldman Sachs e Citigroup, prevêem uma aceleração do movimento de consolidação na região no segundo semestre. Os consultores do Citigroup destacam que a Colômbia será o país latino-americano em que os movimentos de consolidação devem ser maiores.
Assim, a América do Sul reflete os rumos da consolidação no mercado mundial. Empresas buscam reforçar sua posição, ganhar mercado, enfrentar a concorrência e desenvolver novos produtos ou serviços através da absorção de outras organizações.
Tal movimento afeta em muito os investimentos na Bolsa. As empresas trocam suas ações, lançam novos papéis, recompensam investidores. Então, compensa estar na hora certa, com a ação certa.
Ambiente favorável ? O dinamismo da economia e a pressão para produzir cada vez mais novidades a preços mais baixos já cria um ambiente favorável a fusões e aquisições. Na pior hipótese, duas empresas consolidadas em uma ganham economia de escala na hora de negociar com fornecedores e tiram um concorrente do mercado.
Então, a recente crise financeira que se iniciou nos Estados Unidos pegou esse ambiente favorável e o transformou em um verdadeiro balcão de liquidações. Várias empresas, principalmente do setor financeiro, buscam as fusões como saída para não fechar as portas e, pelo menos, cumprir suas obrigações com seus clientes e salvar o emprego de parte de seus funcionários. Acontece que, enquanto as regras não ficam mais claras e não se descobre qual é exatamente o tamanho do buraco, os bancos que têm dinheiro não estão, nesse momento, dispostos a investir.
Isso faz com que surja um investidor conhecido como ?abutre?, louco para adquirir ações por um preço de banana. Mas mesmo esse tipo de investidor não consegue levantar dinheiro suficiente para adquirir, por exemplo, o patrimônio do Lehman Brothers, gigantesca financeira norte-americana que chegou a ser o quarto maior banco de investimentos dos Estados Unidos e hoje procura vender suas subsidiárias, empresas coligadas e outros ativos ? só falta quem compre.
Se o setor financeiro está com pouca movimentação para os lados de lá, por aqui são outros que movimentam as fusões. Impulsionados pela alta das commodities, os setores de mineração, metais, indústria de bens de consumo e energia vão às compras. E, com o aumento do poder de consumo das classes populares nas maiores economias latinas, o varejo também tende a se consolidar.
A recuperação do dinheiro ? O lado negativo das consolidações é que elas baixam o lucro das empresas que vão às compras, o que nunca é bem-visto pelos investidores e acionistas mesmo sabendo que essa é uma situação de curto prazo e que, em pouco tempo, a companhia na qual investiram estará melhor do que nunca.
A consultoria Credit Suisse dá um exemplo de como esse processo é rápido. Segundo ela, em cinco anos a InBev e a Anheuser-Bush estarão funcionando completamente integradas e com o apetite zerado para novas compras. As cervejarias Femsa, do México, e Heineken, da Holanda, devem ser as primeiras na alça de mira da gigante das cervejas. Os consultores vão além: se tudo der certo, a Inbev irá incomodar muita gente poderosa em dez anos, citando, por exemplo, o fato das ações da Coca-Cola estarem estagnadas há cinco anos. Nada é sagrado no terreno das consolidações.
As marcas de hoje ? De certa maneira, a América Latina chega tarde ao mercado mundial. Em boa parte de nosso cotidiano, já existem gigantescos conglomerados dominando o que consumimos. Dê uma olhada à sua volta. Olhe seu televisor, aparelho de som, computador, geladeira, as roupas que está vestindo, o carro que você guia e o que come e bebe. Quais marcas você vê?
Via de regra, há dois tipos de marcas dominando o mercado. O primeiro se refere a empresas com muita história para contar, que praticamente nasceram com seus mercados, que conquistaram seus espaços desde sempre. Nesse grupo, podemos considerar nomes como Philips, Ford e Chevrolet. No Brasil, podemos citar companhias como Marcopolo (POMO3) e Bombril (BOBR3), entre outras. Com mais história, essas empresas têm a possibilidade de possuir mais recursos à disposição, mais capital e, assim, dominar o mercado com mais facilidade. Muitas vezes, além do esforço próprio, entra em campo a aquisição de concorrentes menores. A Marcopolo, por exemplo, adquiriu a Ciferal.
O outro tipo se refere a marcas novas, desconhecidas até pouco tempo, que enfrentam jogadores mais tradicionais. Assim, a Red Bull, por exemplo, não estaria nesse grupo, pois é uma marca nova em um segmento também novo, o de bebidas energéticas. Falamos aqui de empresas como LG e seus televisores e geladeiras; Toyota e Tata em carros; Positivo Informática (POSI3) em computadores e assim por diante. Para enfrentar os gigantes estabelecidos nesse mercado, essas novas marcas precisam de uma idéia diferente, um produto/serviço muito melhor ou de muito dinheiro. Freqüentemente, necessitam de ambos.
Atualmente, este é o desafio dos países emergentes: o mercado está saturado de marcas já conhecidas, cheias de história. Para competir de igual para igual, é preciso crescer, se desenvolver e colocar sua marca na mente do mundo. Uma das formas de se fazer isso é através da consolidação, começando com empresas locais.
O surgimento das multilatinas ? Há algum tempo, a América Latina apresenta algumas ilhas de excelência, empresas que se destacam dentro e fora de suas fronteiras, mas que são cercadas de instabilidade política e econômica, o que limita muito sua possibilidade de ação. A PDV S.A. é um grande exemplo, pois uma companhia de combustível sentada sobre uma das maiores reservas de petróleo do mundo só não dá certo porque cada governo que assume a Venezuela a joga em uma direção diferente. Entretanto, da Baja Califórnia, no México, à Tierra Del Fuego, na Argentina, o continente está mudando, crescendo e entrando no ritmo dos negócios do resto do mundo.
Pegue a JBS Friboi (JBSS3) e AmBev (AMBV3) como exemplos. Elas compraram várias empresas nos países da América do Sul e assim conquistaram sua posição, primeiramente no continente, depois fora dele ? processo no qual a Gerdau (GGBR3) já está adiantada.
Entretanto, não é uma estrada dominada por brasileiros. O grupo alimentício Bimbo, do México, e as gráficas colombianas Carvajal, que recentemente adquiriram a Listel, também estão no mesmo caminho.
Há espaço para as multilatinas ? Se saímos atrás na corrida pelo mercado internacional, nada assegura que devemos ficar sempre para trás. Marcas como Hyundai mostram que é possível entrar no mercado multinacional mesmo em um país até então com pouca tradição e saindo depois.
O problema nessa consolidação de forças da América Latina é que ela não costuma se traduzir bem nas bolsas de valores. Quando uma pessoa troca de carro ou adquire uma casa é normal ficar alguns meses com pouco dinheiro. Da mesma forma, ao comprar concorrentes menores, as empresas passam por um período de pouco lucro e dividendos ? o que, em qualquer lugar do mundo, são dois palavrões para investidores.
No entanto, há um limite para a consolidação. Logo, a América do Sul terá seus grandes e lucrativos players no mercado internacional. Sorte de quem os identificar agora. Então, acompanhe a movimentação da empresa no mercado, os relatórios para investidores, etc. A alocação de recursos dá uma boa pista de quanto a empresa quer crescer por meio de aquisições.
As diferentes formas de consolidação
Fusões amigáveis, que resultam em uma nova empresa
Uma fusão pode ser definida como uma ação pela qual duas empresas concordam em integrar suas operações em partes aproximadamente iguais, para ganhar vantagem competitiva no mercado. O exemplo mais conhecido é o da Brahma e Antarctica, que se fundiram gerando a AmBev. Houve várias discussões no meio do caminho e tiveram de se desfazer de uma marca (Skol) para atender o Conselho Administrativo de Defesa Econômica, mas a nova empresa é, por assim dizer, território neutro. Também é o caso da Braskem (BRKM3), que surgiu da união dos setores petroquímicos da Odebrecht e Mariani para adquirir a Copene Petroquímica.
Fusões amigáveis, em que uma empresa absorve a outra
Os motivos podem ser vários, como posicionamento no mercado, marca mais famosa, feng shui ou uma combinação de fatores. A nova empresa seria formada com a marca de uma e a direção da outra. Foi o que aconteceu na fusão que deu origem ao Banco Itaú (ITAU3). De um lado o Banco Federal de Crédito, pertencente à família Setúbal; e de outro o Banco Federal Itaú, de Minas Gerais. Com o tempo, o ?federal? desapareceu da nomenclatura, com os Setúbal permanecendo na direção.
Aquisições decorrentes de privatizações/leilões
Nesse caso, a opinião da empresa a ser vendida não conta muito. Sim, há protestos dos funcionários, como vimos no caso da Varig e de vários bancos estaduais. A Gol (GOLL3) escolheu manter a marca Varig, enquanto os bancos, via de regra, absorvem totalmente as empresas financeiras que compram. Assim, marcas como Banespa permanecem apenas em poucos locais.
Aquisições simples
Se é que podemos chamar de simples as aquisições de empresas com décadas de história e patrimônio, muitas vezes, na casa dos bilhões. Nem sempre em uma aquisição entra dinheiro. A HP, por exemplo, comprou a Compaq na base de troca de ações (stock swap) em que seus acionistas as trocaram por papéis da HP. Em outros casos, há a compra das ações dos pequenos investidores, e o pagamento para os antigos donos é feito através de diversos métodos ? geralmente, participação na nova empresa.
Aquisição hostil
Foi o que aconteceu recentemente com a Inbev e Anheuser-Bush. A empresa belgo-brasileira percebeu que havia, no mercado e na mão de grandes investidores, ações suficientes para garantir a uma pessoa ou grupo o controle acionário da fabricante da Budweiser. Em casos como esse, não é necessário iniciar-se grandes negociações com os donos atuais do negócio. Simplesmente se faz uma oferta para os acionistas: compro suas ações por US$30 a mais do que elas valem hoje. Os grandes investidores da Anheuser-Bush ainda fizeram um charminho pedindo garantias como a manutenção de fábricas e empregos, mas cederam.
O que fica para o investidor
» Fique de olho no movimento das grandes empresas, principalmente no setor de mineração, metais, indústria de bens de consumo e energia. É daí que mais podem sair novas aquisições e fusões.
» Para saber quais são seus direitos, consulte a Lei das S.As. (lei 11.638/2007) e o estatuto da empresa em processo de consolidação da qual você tem ações.
» Durante processos de consolidação, as ações de ambas as empresas envolvidas tendem a ficar muito nervosas. Evite comprar ou vender por impulso.
Colaboração: Brasílio Andrade Neto


