Sempre que voltava de viagem, no aeroporto de Curitiba, ao pegar meu carro em um estacionamento de longa permanência, deparava-me com uma senhora simples, magra, pequena, cabelos e roupas longas à moda de algumas seitas evangélicas, com um suave sorriso no rosto. Sempre que voltava de viagem, no aeroporto de Curitiba, ao pegar meu carro em um estacionamento de longa permanência, deparava-me com uma senhora simples, magra, pequena, cabelos e roupas longas à moda de algumas seitas evangélicas, com um suave sorriso no rosto. Era a Ruth:
? Boa noite, doutor. Fez boa viagem? Aqui está seu recibo. Volte sempre, hein!
Aquele ?volte sempre? tinha uma entonação que era percebida, ao mesmo tempo, como um agradecimento e convite ao retorno a uma casa amiga. Isso me faz lembrar da frase do biólogo e filósofo Herbert Spencer que disse: ?As opiniões são geradas pelos sentimentos e não pelo intelecto?. O espírito da Ruth claramente contaminava todos os colaboradores daquele estabelecimento. Às vezes quando algum motorista ou atendente era admitido, no começo percebia-se um pouco de aspereza do trato comum das relações de prestação de serviço, mas em breve essa pessoa ia mudando e ganhando suavidade no contato com os clientes.
Um dia, pedi que lavassem meu carro enquanto estivesse fora. Depois de pegá-lo, no dia seguinte de manhã, percebi que faltavam os tapetes de borracha. Alguém havia esquecido de recolocá-lo no carro. Avisei a Ruth do fato e ela ficou de verificar. Seu gerente retornou a ligação avisando que os tapetes não haviam sido encontrados, mas que iria repô-los. Ainda prontificou-se a entregar em meu escritório a muitos quilômetros do aeroporto. Tudo baseado na minha alegação de falta. Sem muitas perguntas ou qualquer sinal de desconfiança.
A diferença entre o comum e o especial
Um estacionamento é uma atividade com pouca interação entre os prestadores de serviço e o cliente. Esse tem um pouco mais que o normal devido ao serviço leva-e-traz ao aeroporto. No entanto, a Ruth conseguia nos breves momentos de contato fazer a diferença entre o comum e o especial. Os concorrentes podem copiar o que você faz, mas não podem copiar o que você é.
Embora haja nesse ramo e no entorno do aeroporto muitos outros grandes empreendimentos, fica claro que o nível de ocupação deste que me refiro é sempre superior. Alguns concorrentes têm até preços mais baixos. O serviço cuidadoso e o trato humanizado certamente são o motivo do sucesso.
A alma do cliente em primeiro lugar
A Ruth não é a dona do estacionamento, era uma supervisora do atendimento. Embora o empresário tenha oferecido os recursos para que essa qualidade se tornasse realidade, para o cliente é aquela senhora o rosto da empresa. Agora ela esta há algum tempo afastada do trabalho devido a problemas de saúde. Sua escola está sendo seguida. Existem outras pessoas para falarem ?volte sempre!? e tudo continua sendo muito bem-feito. Seu estado de saúde enquanto trabalhava não lhe permitia qualquer vislumbre de otimismo ou alegria gratuita. Isso só me faz valorizar ainda mais aquele suave sorriso sempre a presentear seus clientes.
Por meio da Ruth, minha homenagem aos muitos profissionais de vendas e atendimento que abnegados se preocupam em primeiro lugar a ver a alma do cliente e não simplesmente seu bolso. São pessoas que perceberam a importância de servir e que a retribuição, mesmo que não seja imediata, certamente virá. Não acreditam na fria objetividade do toma-lá-dá-cá, são elas que fazem a civilização melhor. São elas que nos resgatam da imagem ruim do vendedor e nos fazem sentir orgulho de nossas profissões de vendedor ou atendente.
Ninguém abandona quem de fato lhe serve com despreendimento. Essa é a máxima da fidelidade nas relações humanas. Para a Ruth e toda essa gente especial meu desejo contido na seguinte prece Irlandesa:
?QUE OS CAMINHOS SE ABRAM À SUA FRENTE;
QUE O VENTO ESTEJA SEMPRE A SEU FAVOR;
QUE O SOL AQUEÇA SUA FACE;
E A CHUVA CAIA SUAVEMENTE SOBRE SEUS CAMPOS;
E ATÉ QUE NOS VEJAMOS OUTRA VEZ, QUE O SENHOR
TE GUARDE NA PALMA DA MÃO!?


