Toda vez que viajo e tenho de preencher a ficha de entrada no hotel, deparo-me com a pergunta “ocupação”. E é sempre uma luta decidir o que colocar. Vendedor? Diretor? Editor? Escritor? Palestrante? O mundo está mudando. Quem é que pode definir com poucas palavras e 100% de precisão o que é que faz exatamente? Na verdade, estamos entrando numa era que Seth Godirt chama de “multipacional”: quando as pessoas têm ocupações múltiplas.
Essa não é apenas uma discussão semântica – é bem prática mesmo. Só no banco de dados de Venda Mais temos cerca de 150 nomes diferentes para a função de vendedor. Se por um lado isso é fruto de um certo preconceito em relação à própria palavra vendedor, por outro demonstra uma necessidade clara de definirmos melhor a função das pessoas.
O problema é que ainda usamos uma estrutura hierárquica baseada em modelos militares, com cargos mais ultrapassados ainda: supervisor, gerente, diretor, presidente. Dependendo de como forem definidos, cargos podem ser uma conexão brilhante com o resto da empresa e até mesmo com o mundo. Ou uma prisão, pois muitas pessoas usam títulos como escudos quando não querem se comprometer. “Isso não é comigo.”
Teoricamente, uma boa descrição de cargo poderia resolver a questão. Mas a descrição do seu cargo é um documento otimista que lhe dá permissão de explorar novas oportunidades e realizar coisas? Ou é um escudo defensivo, desenhado para identificar o que você não tem de fazer? De novo: “Isso não é comigo.”
Como diz Godin, se uma duplicata chega na sua mesa por engano, logo você irá repassá-la para o departamento financeiro ou de cobrança. Mas quem é o responsável por decidir se investir em WAP vai realmente satisfazer clientes, ou se e pura perda de dinheiro? Ou como o Gnutella vai afetar (ou não seus negócios? Faça essas perguntas e veja a resposta que aparece: “Sei lá, isso não é comigo. Fale com fulano.”
Toda empresa começa com uma pessoa fazendo tudo (logo, sendo responsável por tudo e, depois, com o crescimento, delegação, especialização, “departamentalização”, etc., começam a surgir algumas áreas cinzentas que impedem tanto a expansão dos negócios quanto a satisfação total dos clientes. Coisas absurdas acontecem e ninguém se responsabiliza.
Pode reparar, as reclamações de clientes, na maioria, são fruto de equívocos e falhas de comunicação. Todo mundo acha que fez certo, mas no final deu tudo errado. É que os erros estão na passagem do bastão, de uma pessoa para outra, de um departamento para outro. E cargos têm tudo a ver com isso.
Tente definir o seu cargo e as suas tarefas e você entenderá o que eu digo. Melhor ainda: peça aos seus colegas e ao seu chefe que o façam e verá a salada que vai virar. Agora pense: será que isso melhora ou atrapalha seu rendimento? Multiplique pelo número de funcionários da empresa e veja o tamanho do estrago.
A verdade é que precisamos ter uma flexibilidade cada vez maior para definir funções, principalmente porque, como povo, temos a infeliz tendência de começarmos cheios de empolgação e abandonar tudo pela metade. Além de improdutivo, isso é extremamente estressante. “Nada é tão cansativo”, observou o psicólogo William James, “do que a sombra de uma tarefa não terminada.”
Por que não podemos ter cargos como “pessoa encarregada de fidelizar clientes”, “pessoa encarregada de criar propaganda que realmente funciona”, etc.? Isso evitaria tantos problemas. Provavelmente teríamos alguns “Aspones” aparecendo, mas o próprio trabalho de definir de forma mais abrangente e criativa os cargos iria funcionar como uma sessão profunda de psicanálise empresarial.
Está na hora de pensarmos melhor o que colocamos no nosso cartão de visitas, no organograma da empresa, na ficha do hotel. Essa descrição pode muito bem ser a diferença entre uma organização saudável, produtiva, bem resolvida e lucrativa, e o contrário.
O que é que você faz mesmo? Pense nisso e Venda Mais.
Raúl Candeloro – Editor
Raul@vendamais.com.br
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