O Exército é uma instituição gigantesca que conta com poucos recursos. Ainda assim, é capaz de evoluir e, em alguns casos, servir de exemplo até para as forças da ONU. Veja o que você pode aprender com ele Defender fronteiras, construir estradas, combater narcotráfico, fiscalizar florestas, proteger autoridades e instituições da nação e muito mais. Multiplique cada uma dessas tarefas pelo tamanho do Brasil. Não é fácil trabalhar em uma organização com essa gama de atribuições. A situação piora ainda mais quando ela deve fornecer casa, comida e roupa lavada para seus funcionários, quando não tem recursos suficientes para desenvolve-los e, ainda por cima, conta com certa antipatia de uma parte da população. Esse é o Exército brasileiro, que, superando todas essas dificuldades, mostra que é capaz de mudar e evoluir até seus programas tornarem-se exemplos para a ONU.
O escritor e conferencista Cesar Romão conta com exclusividade para a VendaMais como foi participar dessa transformação. Seu caminho no Exército começa no Comando Militar Sudeste, quando o general-de-exército Francisco Roberto de Albuquerque decide implantar no Exército brasileiro o PEG – Programa de Excelência Gerencial do Exército. A coordenação e execução desse programa ficou a cargo da Quinta-Seção, através do General Manoel Morata e do Tenente Anselmo Cassiano.
Aqui vai uma diferença do que se vê por aí – é comum ima empresa fazer um programa similar de melhoramento empresarial. Só que, no caso do Exército, não se ficou apenas nas palavras. A instituição mudou mesmo.
O primeiro passo – Convidado, Cesar Romão não pensou duas vezes antes de aceitar fazer parte do programa. Ao longo de dois anos viajando por diversas Unidades Militares espalhadas pelo Brasil, realizou 30 eventos, nos quais sua palavra foi ouvida por todos: de cabos e soldados até generais de quatro estrelas.
O ápice desse trabalho foi ter sua mensagem requisitada para motivar a Força de Paz da ONU, rumo ao Timor Leste, país que naquele momento passava por turbulências políticas. “Motivar pessoas para um procedimento profissional é uma coisa, motivar pessoas para uma zona em conflito, na qual suas vidas poderiam estar em jogo é algo totalmente diferente”, diz Cesar. Foi necessário utilizar o ponto de referência, um poderoso instrumento motivacional em situações de risco.
“Nossa mente precisa ficar acesa, mantendo seu potencial elétrico para nos fornecer pensamentos e reflexos nas decisões e assim não deixar que nosso subconsciente sabote nossa meta e passe a nos induzir a pensamentos negativos. Um dos pontos de referência que lá trabalhei foi o da família, que teria de estar no topo da lista, onde eles visualizavam, sob qualquer circunstância, a necessidade de encontrarem forças para vencerem qualquer desafio e voltarem heróis para suas esposas e filhos. Quando o ponto de referência está implantado, torna-se um elemento poderoso que emana uma força impressionante de raciocínios rápidos, decisões certeiras e ainda força emocional e física, todos esses elementos primordiais num campo militar, tanto para manter a paz como para inibir a guerra.”
O ponto de referência pode também ser muito útil em uma empresa, em época de crise ou de um novo projeto. Ache algo que sirva de foco, de ponto de união em seus funcionários e equipe e utilize-o a seu favor.
Lições para você – César Romão lista as principais lições que ele tirou do Exército e como elas se aplicam à sua empresa:
“O Exército do presente é o mesmo povo em armas do passado: o braço forte que garante a soberania; a mão amiga que ampara nos momentos difíceis.”
1. Hierarquia – Impõe a posição do mais antigo, vale a experiência e o preparo. Fatores primordiais para informação sobre determinados assuntos. Vejo muitos profissionais hoje nas empresas desprezarem colaboradores mais antigos, entrando e varrendo as idéias existentes para implantar as suas.
2. Disciplina – Fundamental para cumprir metas e objetivos e não perder o foco no resultado desejado.
3. Aliança Estratégica – Uma maneira de criar parcerias com outras marcas, utilizando a credibilidade da organização, sem o emprego de capital. Faça parcerias, permutas, trocas. A intenção é desenvolver algo em que todos saiam ganhando.
4. Preparo Acadêmico – Fundamento para convívio multidisciplinar e expandir visões de atuação possibilitando decisões mais assertivas baseadas em lógica. Um requisito extremamente incentivado nas academias e nos quartéis oferecendo oportunidades diferenciadas.
5. Estratégias – Bem elaboradas para superar o inimigo, estar um passo ou mais a frente dele. Um elemento primordial que nossos profissionais e empresas não têm se dedicado muito, por isso ao invés de estarem a frente do concorrente, estão sempre atrás.
6. Produto – O produto do Exército poderia ser considerado como segurança e credibilidade, dois itens primordiais para sobrevivência de qualquer produto no mercado. Tenha certeza de que seus produtos ou serviços passam essa mensagem para seus clientes.
7. Treinamento – Uma das frases do Exército afirma que “treinamento duro, combate fácil”. Ou seja, deixe seu suor no campo de treinamento para não deixar seu sangue no campo de batalha. Da mesma forma, na sua empresa, treine, treine, treine. Desenvolva continuamente suas técnicas e habilidades para não perder uma venda.
8. Logística – Para cada homem no front, são necessários 16 na linha de suprimento. Da mesma forma, assegure-se de ter apoio necessário para cada vendedor ou membro da equipe. Sozinho, ninguém resolve nada.
9. Vibração – Floresce a paixão pela causa da organização. Nota-se isso quando ecoam o Hino do Exército e todos cantam com um sentimento que não pode ser falsificado.
10. Ordem Unida – É latente nos desfiles e marchas, promove a união e a sincronicidade de toda equipe durante a atuação, fato que adquiriu semanas e semanas de ensaio para exposição em uma hora.
11. Manutenção de Armas – Prolongar a vida útil dos equipamentos, lembrando que os leilões do Exército são os que têm seus produtos muito valorizados pelo bom trato que recebem. E pensar que alguns profissionais detonam o notebook que a empresa lhe oferece em alguns meses.
12. Farda – Um código visual, fundamental para identificação e distinção de atuações. Embora contra as tendências atuais dos escritórios, acredito que a gravata ainda é um ótimo código visual, mostra que você se preparou para trabalhar e mais ainda, preparou-se para receber o cliente.
13. Conduta – Ensaio para um imprevisto dependendo da situação. Se nenhuma regra pode ser aplicada, o oficial de comando cria uma conduta compatível dentro dos princípios da organização. Da mesma forma, você, o diretor geral, a tia do cafezinho todos que trabalham os outros colaboradores são a cara da empresa. A mensagem que vocês passam para os clientes é homogênea?
14. Plano de Ação – Geralmente tem como base as perguntas: “Para quê? Onde vou? Como vou? Quando vou”.
15. Missão – é o farol do comportamento e cumprimento de ordens, mantendo o objetivo à vista dos olhos, não se afastando da missão, mas sempre corrigindo a rota se necessário. Alguns profissionais de nosso mercado tiram os olhos de sua missão na correção de rota e não conseguem retomar o caminho.
16. Grito de Guerra – (Brado) Slogan da equipe, o som motivador que toca nos brios vontade de realizar. Conheço empresas que o grito de guerra é rezar na portaria antes de entrar pedindo forças para poder terminar o dia sem muito estresse.
17. Bom dia – Reunião com subordinados para gerar proximidade e difundir informações captadas durante o expediente anterior. Subordinados aqui são ouvidos, o que não acontece em muitas empresas. Se mesmo a hierarquia militar dá voz a todos, por que não uma equipe de vendas?
18. Alvo – Nas oficinas de treinamento a prática de tiro ao alvo exige desempenho na visualização, imaginar o alvo, imaginar a empunhadura correta e depois de muito praticar na visualização, quando o fato tiver de se consumar, praticamente o militar já está mais preparado. Treinar na visualização antes da prática resulta em acertar o alvo com mais facilidade. Imagine-se vencendo, fechando a venda, superando aquela objeção.
19. Ordens Claras – É impressionante a transparência das ordens, missões, metas e objetivos destinados aos comandos, não deixam transparecer dúvidas, nem tão pouco dúbios sentidos, é o que é e pronto.
20. Formatura – Dia do Soldado, Dia do Exército, festividades que integram toda equipe e também as famílias, comunidade e sociedade. O carinho que essa organização tem com as famílias de seus integrantes é muito especial, pude notar isso exatamente nesses acontecimentos de datas preestabelecidas. Temos organizações que possuem chefes que nem sabem se seu comandado tem filhos ou esposa.
21. Braço Forte, Mão Amiga – Uma organização capaz de proteger a Pátria, mas também de estender sua mão nas calamidades e projetos de assistência à sociedade, detalhes de atuação que necessitariam de um livro para serem mencionadas. Desde distribuição de remédios, alimentos, até transporte de órgãos para implantes em casos de urgência, sempre em nome da vida e da honra do País. Um pensamento que deveria ser a bandeira de nossas empresas: atuarem em nome da vida e da honra do Brasil.
“Treinamento duro, combate fácil, O exército sabe que é muito melhor derramar suor agora do que sangue, quando a coisa for para valer. Em outras palavras, é melhor perder tempo treinando agora, do que perder uma venda”
22. Inspiração – Os oficiais de menor patente inspiram-se nos de maior patente, não existe revanchismo de derrubada como nas empresas, em que os funcionários querem derrubar o chefe; ali o chefe é a inspiração, um modelo que eles podem ser amanhã. Percebi muito esse sentimento na Escola Militar, onde a cada ano uma média de 800 alunos estudam para no prazo de 40 anos, apenas uma média de 15 deles se tornarem generais. Vela que linda visão de longo prazo, o imediatismo é algo fora de contexto por ali, mas o resultado é certo.
23. Liderança – Resumida na explanação que o líder é o espelho da tropa, portanto ele tem de possuir atribuições especiais e preparo constante. Existem profissionais no mercado que recebem o cargo de líder e apenas se utilizam da função e não fazem mais nada para aperfeiçoarem-se profissionalmente. Ali um líder tem atividades constantes na busca de novos conhecimentos.
24. Velocidade – Primordial, agir rápido pode ser a diferença entre chegar primeiro ao destino, chegar depois ou nunca chegar.
25. Perfil – Não se manda a artilharia fazer reconhecimento, quem faz isso é a cavalaria. Vejo muito neste mercado gerentes de marketing, dedilhando o recursos humanos. E o pior é que o RH aceita. A lição é simples: cada macaco no seu galho, por favor.
26. Ação – Algo para que estão preparados 24 horas por dia, todo dia a toda hora. Alguns regimentos conseguem estar em tempo recorde em determinados pontos do pais levando todo equipamento de combate necessário. Todos são preparados para horas ou dias e dias de ação, basta um comando. Não é porque a ação está inexistente que o treinamento afrouxa ou é feito fora de prazo, ele tem sua didática e é cumprida sistematicamente. Conheço jogadores de futebol que só treinam se forem escalados, profissionais que só se empenham quando convocados, mas ao entrarem em ação são facilmente abatidos por pessoas que já estavam em ação muito antes deles serem convocados.
27. Espiritualidade – Todos têm liberdade de expressão de seus credos, dogmas e fé, sem nenhuma interferência e o mais interessante, não existe influência nas escalas de comportamento, toda manifestação religiosa é respeitada com alto conceito de compreensão. Ao meu ver eis aí no Exército um exemplo de espiritualidade nas organizações, afinal é um contexto ecumênico, em que diversas religiões se unem em torno de uma causa, a Pátria.
28. Fronteiras – Demarcar e defender nossos limites como Nação e Estado organizado com honra e integridade. Quantas pessoas e empresas hoje se deixam invadir em seus limites e pagam um alto preço por isso, passam a viver os limites dos invasores e não os seus. Quando desvalorizamos os produtos nacionais, ou quando acreditamos que a crise está na porta deixamos nosso limite ser invadido.
29. Força de Paz – Equipe altamente treinada para promove o equilíbrio de uma sociedade. Um item que falta nas empresas de hoje. Quando fazem fumaça num departamento, não tarda aos outros departamentos trazerem sua lenha para tocar mais fogo no processo. Essa força possuiu um grande poder de luta e atuação militar, mas sua prioridade é estabelecer a ordem e promover a paz.
30. Valores – A base de toda formação dessa organização, um elemento que cria conceitos de aproximação das pessoas com a permanência dentro da sociedade, moldando comportamentos, caráter e valorização dos símbolos que norteiam o civismo e a família.
31. Regras – Procedimentos pesquisados e estudados capazes de promover a ordem e colocá-la nas coisas. São rígidas, mas quando o resultado positivo chega, percebe-se a importância de segui-las e respeita-las. É um elemento muito presente, fator que não deixa dúvidas em atuações diversas.
32. Burocracia – Como toda organização de grande porte, acredito que já tenha tido uma dose maior desse item, mas atualmente o movimento de simplificação de sistemas está fazendo nascer no Exército o que eu chamaria de burocracia rápida. Mantém-se os trâmites, mas com agilidade na implantação e despacho. A burocracia é nociva para as empresas quando permite que se perca vencimento da validade de projetos benéficos.
33. Respeito – O limitador da convivência é a referência para se dar e ouvir opiniões, sejam elas acatadas ou não. Em muitas empresas basta uma opinião divergir e a crítica de corredor já começa e não se mede limites para faltar com o respeito ao profissional.
O que é o Exército – Cesar Romão afirma que a convivência dele com o Exército foi tão ampla que é difícil definir a instituição em poucas palavras. Fazemos o mesmo. E fácil definir o novo funcionário do RH em uma frase, mas nosso cônjuge de dez anos… ah, esquece. “Vou lhe dizer apenas uma coisa para que as pessoas se lembrem”, diz: “cada integrante da Organização Exército Brasileiro, ao vestir a farda, fez algo que muitos de nós não faríamos. Essas pessoas ao vestirem a farda, estão dispostas a honrá-la em defesa de nossa Pátria, a Pátria de nossos pais e nossos filhos e mais ainda, estão dispostas a morrer pela Pátria. Definir pessoas com esse compromisso… essa é uma missão difícil… não estou apto… Em vez de defini-las prefiro respeitá-las, congratulá-las, admirá-las pela dedicação e pelo sentimento cívico e pelo muito que têm feito no aperfeiçoamento do sistema organizacional a que pertencem.”
SOMBRAS DO PASSADO
É inevitável que as pessoas ainda se lembrem do Exército dos tempos da ditadura. A única semelhança entre aquele Exército e o de hoje é que os dois usavam fardas. O Brasil não é o mesmo pais de ontem, não temos os governantes de ontem, não temos os ideais políticos de ontem, nós mudamos num todo. O Brasil mudou, o povo mudou, o mundo mudou…
Vivemos hoje num Pais democrático e nosso Exército acompanhou essas mudanças, que graças ao espírito brasileiro, caminhamos para uma evolução sem fronteiras no campo social e político. Muito foi feito pelo Brasil, quando muito foi feito é sinal que muito há de se fazer ainda… Mais que mudar eu diria que não só o Exército, mas as organizações em geral evoluíram muito. As pessoas também estão nesse contexto. Acho que esse ranço do passado faz parte da história que já teve sua página virada. O Exército de hoje escreve uma nova página na história, uma página de lições positivas, dedicação e empenho, tanto que gostaria de ver um presidente de empresa se dedicar a dele com a mesma garra e pelo mesmo tempo de um general; um colaborador se dedicar à sua empresa da mesma maneira que um soldado num desfile ao apresentar sua arma, ou mesmo alguém contar sobre a história de sua empresa como os militares cantam o Hino Nacional. Gostaria de ver colaboradores terem orgulho da marca de sua empresa, como os militares têm de sua farda.
Aqueles que carregam o fardo do passado, não conseguem nunca chegar ao futuro, tão pouco oferecer um futuro melhor ao espaço que ocupam. O Exército tem oferecido um futuro brilhante aos milhares de jovens que escolhem esse caminho.
MELHORANDO A IMAGEM
O Exército brasileiro, como se vê, conseguiu melhorar muito sua imagem, sendo considerado uma das instituições mais confiáveis do Pais. Agora, outros órgãos de defesa pelo mundo também sofrem desse desgaste e precisam se reaproximar da população. O serviço de informação alemão (BND), por exemplo, publicou um livro de receitas.
Intitulado Top(f) Secret, trocadilho com “Topf” (panela em alemão) oferece ao leitor a possibilidade de preparar diversos pratos típicos de diferentes países. Acompanhando as receitas, o Top(f) Secret mostra uma série de anedotas que os próprios agentes do BND protagonizaram, como a vez em que esconderam um microfone em um piano, onde posteriormente alguém interpretou uma peça atrapalhando a escuta.
César Romão é escritor e conferencista, autor, entre outras obras, de Sonhando e Realizando, livro que é adotado pela Força de Paz da ONU e incluído como um integrante na mochila dos militares do mundo todo. Para contata-lo, visite o site: www.cesarromao.com.br


